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2-3-2010

Sudão: Bispos temem novos conflitos armados


Décadas de guerra e terror deixaram marcas no Sudão e no coração dos seus habitantes. A violência provocou milhões de vítimas, semeou a desconfiança e desintegrou a sociedade. Vários acordos de paz foram violados.


O último, assinado em Janeiro de 2005, é o chamado Acordo Geral de Paz (Comprehensive Peace Agreement, CPA), que continua de pé, mas é um documento que mais não faz do que regular um cessar-fogo provisório que, ainda por cima, só está vigente nalgumas partes do país.


O CPA, assinado entre o Governo de Cartum e o Exército/Movimento Popular de Libertação do Sudão do Sul (SPLA), não instaurou uma verdadeira paz no país. Pelo contrário, o governo violou o acordo por diversas ocasiões.


De forma deliberada, têm sido colocados obstáculos ao referendo sobre a independência do Sul, previsto para 2011. As eleições nacionais que deveriam ter ocorrido em Junho de 2009 foram adiadas para Abril deste ano. Os refugiados não podem regressar aos seus locais de origem para se registarem no censo eleitoral e tanto as infra-estruturas da zona que se livrou da guerra como o abastecimento da população continuam a ser insuficientes. Grande parte das pessoas não beneficia com as receitas do petróleo, que deveriam servir para dar um impulso à reconstrução.


Várias organizações, como a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), têm alertado para o aumento da violência no Sudão, que faz temer uma nova guerra. O Bispo de Rumbel, D.. Cesare Mazzolari, lançou um apelo para esta situação dramática: "Em muitos lugares do país, as milícias do governo semeiam o terror entre a população. Assim alimentam o medo e provocam tensões entre tribos e grupos étnicos".


D. Mazzolari assinalou que as tensões entre Norte e Sul têm aumentado e que, apesar de neste momento se registarem apenas combates isolados, reina um clima de guerra-fria.


Também o Bispo de El Obeid (diocese do centro do Sudão), D. Macram Max Gassis, tem vindo a criticar duramente o governo, em diversas ocasiões. "Há mais de 20 anos que sou testemunha da perseguição religiosa, da escravização, das violações e torturas, fome e morte".


Em conversa com responsáveis da AIS, o Bispo sublinha o sofrimento indescritível das populações: "2,2 milhões de pessoas foram vítimas de um genocídio dirigido contra os sudaneses cristãos e os não muçulmanos, em geral".


D. Gassis acrescenta que o número de mortes é superior ao que se registou na Bósnia, Kosovo e Ruanda, até porque o governo ordenou, sem qualquer escrúpulo, o bombardeamento de igrejas, escolas, hospitais e campos de refugiados. Algo que já não acontece no Sul do país mas que se repete no Darfur: um genocídio.


O Bispo, nascido em Cartum e fluente em árabe, critica com veemência a evolução da situação no Sudão, desde 2005. Assegura que as promessas do acordo de paz não foram cumpridas - os refugiados continuam a não ter possibilidade de voltar para os seus lugares de origem - e que o dinheiro do petróleo não beneficia as regiões mais afectadas pelo conflito.


Os governantes de Cartum não apreciam críticas abertas e que ousa fazê-lo deve contar com represálias. D. Gassis sabe-o bem: durante muito tempo foi considerado persona no grata e chegou a temer pela sua integridade física, razão pela qual, há 17 anos, decidiu abandonar a sua Diocese. Actualmente já pode viajar até ao Sudão, de novo.


As suas críticas, contudo, não se limitam ao governo. Segundo o prelado, os representantes do SPLA apenas perseguem os seus próprios interesses pessoais, não os da população. Além disso, assinala que a corrupção tornou-se um problema sério, porque os subsídios do Estado e outras ajudas económicas não seguem para a reconstrução das infra-estruturas, mas para o bolso de alguns poucos, que acabam por desbaratar os fundos.


"Quando pergunto aos políticos o que fizeram com o dinheiro não sabem o que responder, porque são tão corruptos como o governo", explica.


D. Macram Max Gassis denuncia ainda a falta de coesão da oposição sudanesa, porque a sua desunião mais não faz do que prolongar o sofrimento da população. O prelado reivindica um regresso à honestidade e à transparência, pedindo um acordo destinado a satisfazer as necessidade dos sudaneses, em vez de ambições pessoais dos políticos.


D. Gassis confirma os receios de numerosos observadores: "Nestas condições, o último acordo de paz irá fracassar. Vivemos sob a ameaça de um novo conflito armado".


A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre tem dedicado uma atenção particular à situação da comunidade católica no Sudão, seja pela denúncia das violações aos direitos humanos, seja na ajuda material e espiritual a vários projectos desenvolvidos no país.


Em Junho de 2007, a secção portuguesa da Fundação AIS lançou uma campanha intitulada «Vamos manter as escolas abertas», com o fim de ajudar as crianças do Sudão, país fustigado há mais duas décadas por uma guerra sem tréguas.


No início de 2010, o futuro das escolas "Salvem os Oprimidos" (Save the Saveable) voltam a estar nas preocupações da organização católica, que prometeu enviar mais 500 mil Euros para ajudar a manter as escolas abertas. Para isso, conta com a generosidade dos seus benfeitores.


Departamento de Informação da Fundação AIS - info@fundacao-ais.pt


 
 






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