Desde 2005, o Governo ucraniano tem vindo a tomar várias medidas de modo a outorgar às organizações religiosas o estatuto de entidade legal, concedendo-lhes, por exemplo, o direito de criar as suas próprias escolas, além da isenção do serviço militar para os respectivos membros do clero e pessoal auxiliar. Dentro deste espírito, no dia 30 de Junho de 2006, o Parlamento ucraniano aprovou algumas emendas à Lei sobre o Uso e Propriedade dos Solos, concedendo às organizações religiosas o direito de usar permanentemente solos estatais e municipais em conformidade com o seu estatuto de organizações sem fins lucrativos, que se dedicam a actividades de carácter socialmente útil e de acordo com o seu carácter espiritual, social, moral e educacional.
No dia 8 de Novembro de 2006, o Departamento para os Assuntos Religiosos (que fora criado no dia 26 de Maio de 2005, no seio do Ministério da Justiça) foi substituído pelo Comité Estatal para as Nacionalidades e a Religião, o qual responde directamente ao Conselho de Ministros, ganhando assim um estatuto mais elevado do que o seu antecessor.
Em 2006, o número de comunidades religiosas aumentou de 857 para um total de 33.063, número registado no dia 1 de Janeiro de 2007, de acordo com os dados oficiais sobre a situação actual dos grupos religiosos na Ucrânia (RISU, 6 de Julho de 2007). Os cristãos ortodoxos detêm a maioria, com um total de 16.581 comunidades, ou seja, 50,1% do total. Destas, 10.972 pertencem à Igreja Ortodoxa leal ao Patriarcado de Moscovo, enquanto que outras 4.007 se encontram ligadas ao Patriarcado de Kiev. A Igreja Greco-Católica conta com 3.628 comunidades, das quais 1.532 (43%) se encontram situadas dentro e em redor da cidade de Lviv, onde constituem o maior grupo religioso. Comparativamente, na mesma área, o Patriarcado Ortodoxo de Kiev possui somente 442 comunidades, sendo que outras sessenta e duas comunidades ortodoxas são leais a Moscovo e 146 se encontram ligadas à Igreja Católica Latina.
Numa entrevista, Achmed Tamin, Líder da Direcção Espiritual dos Muçulmanos da Ucrânia e reitor da Universidade Islâmica (RISU, 29 de Junho de 2007), fez um comentário importante, em como o país alberga cerca de dois milhões de muçulmanos, os quais, ou pertencem às suas minorias nacionais, ou são russos e ucranianos que se converteram ao Islão.
Em termos gerais, os últimos dois anos foram difíceis para a Ucrânia devido a uma situação política instável, causada por divisões no seio das forças que estiveram por detrás da “Revolução Laranja” de 2004. Não é, por isso, factor de surpresa que um importante anteprojecto de lei como é o caso da “Lei sobre a Liberdade de Consciência e as Organizações Religiosas” (um anteprojecto de lei que foi vetado em Julho de 2006 e acolhido com opiniões muito favoráveis pela Comissão de Veneza, do Conselho da Europa) não tenha ainda sido aprovado. Na prática, isto significa que os interesses económicos locais têm tido uma tendência a prevalecer sobre os restantes, e às custas dos direitos morais dos crentes. Um exemplo desta situação, de acordo com o Monsenhor Stanislav Padewski, Bispo de Kharkiv e Zaporizhzhya, é a expulsão, ocorrida no dia 27 de Junho de 2007, em Dnipropetrovs'k, de um grupo de mulheres de uma Igreja Católica Latina, a qual tinha sido confiscada nos tempos do Comunismo e fora privatizada em 1998 (ACN-News, 6 de Julho de 2007). Nessa ocasião, os actuais proprietários não hesitaram em empregar tácticas violentas para proteger os seus direitos de propriedade.
O 22º Congresso Internacional da Família teve lugar entre 9 e 11 de Maio de 2006, em Kiev, sob a presidência do Cardeal Ljubomir Husar (Bispo Primz da Igreja Greco-Católica). Todas as principais religiões do país estiveram representadas (Zenit, 24 de Abril de 2006). Na Ucrânia, a instituição da família continua a sofrer consequências advindas das décadas durante as quais o país se encontrou sob um regime ateu que a privou dos seus valores cristãos e ameaçou mesmo a sua existência. A Ucrânia declarou 2006 como o Ano do Direito da Criança à Protecção, seguida pela Igreja Greco-Católica Ucraniana, em cooperação com outras Igrejas Cristãs que também declararam o ano de 2006 como o Ano da Protecção Espiritual da Criança.
Igreja Católica
O país alberga uma grande comunidade católica, a Igreja Greco-Católica, que segue o rito bizantino (foi proibida por Estaline, mas novamente legalizada no dia 1 de Dezembro de 1989), e também uma comunidade católica que segue o rito latino ou romano. Em Março de 2006, a Igreja Greco-Católica comemorou o 60º aniversário do denominado “Sínodo de Lviv”, quando as autoridades soviéticas a forçaram a juntar-se à Igreja Ortodoxa. Numa mensagem das comemorações do evento, o Cardeal Husar salientou a ideia de que o aniversário deveria encorajar os cristãos do país no sentido de uma maior união entre si.
Naquela ocasião, o Papa Bento XVI escreveu uma carta ao Cardeal Husar que fazia referência aos “sofrimentos e atribulações indescritíveis” que a Igreja Greco-Católica teve de suportar, mas deu também ênfase à sua dupla missão, de manter "a visibilidade da tradição oriental na Igreja Católica" e promover "o encontro das tradições, não só como prova da sua compatibilidade, mas também da sua profunda unidade na diversidade" (Zenit, 16 de Março de 2006).
Uma ferramenta inestimável para saber mais sobre os mártires do século XX é a colecção de documentos históricos intitulada A Liquidação da ICGU: 1934-1946, cujo primeiro volume foi publicado em Agosto de 2006 (Zenit, 17 de Setembro de 2006).
Não se pode deixar de mencionar que o Patriarca de Moscovo nunca repudiou o “pseudo-sínodo” de Lviv. Pelo contrário, numa nota datada de 17 de Agosto de 2005, o Patriarca Ortodoxo russo Alexis II renovou a sua acusação contra a Igreja Greco-Católica, segundo a qual esta se empenha em proselitismo na Ucrânia, e enumerou os "méritos" da Igreja Ortodoxa Russa, acumulados desde 1946, realçando a ajuda que deu e o cuidado que teve para com os crentes da Igreja Greco-Católica quando esta foi suprimida. A Igreja Ortodoxa Russa tem sido especialmente inflexível face à recusa por parte das autoridades locais de Lviv em lhe conceder terrenos para construir um novo local de culto.
A Igreja Católica Latina é constituída pela Arquidiocese Metropolitana de Lviv (Lviv dos Latinos) e seis dioceses sufragâneas, num total de cerca de 800 paróquias. A proposta para montar uma diocese autónoma no seio do "território canónico ortodoxo" que se sobrepõe à área do Exarcado Greco-Católico Ucraniano (Odessa, Mykolaiv, Kherson, Kirovohrad e Crimeia), e de criar um seminário novo em Odessa, enfureceu a Igreja Ortodoxa local (Spravedlivost, nº 3, 2006). Estes queixaram-se de que a proposta excede em muito aquilo de que a comunidade greco-católica local precisa, tendo por base o seu tamanho actual, o que vai de encontro ao que vêem como um objectivo óbvio de proselitismo da proposta.
Os bispos católicos do rito latino na Ucrânia, em conjunto com uma delegação de bispos católicos seguidores do rito bizantino, fizeram uma visita ad limina em Setembro de 2007 (Zenit, 24 e 27 de Setembro de 2007), recebendo do Papa uma forte exortação para "intensificar a colaboração cordial […] para o bem de todo o Povo Cristão", prestando especial "atenção à proposta de ter lugar pelo menos uma reunião anual que reuniria os bispos do rito latino e os do rito greco-católico, para discutir em conjunto as maneiras de tornar a acção pastoral cada vez mais harmoniosa e eficaz” com vista a aumentar o espírito missionário e ecuménico.
Igrejas Ortodoxas
A comunidade ortodoxa do país continua a sofrer divisões no seu seio. Temos a Igreja Ortodoxa Ucraniana, sob a jurisdição do Patriarcado de Moscovo (IOU-PM), a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kyvian (IOU-PK), que é considerada não-canónica por não se encontrar sob a jurisdição nem de Constantinopla nem de Moscovo, e também a Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana (IOAU) que também é considerada não-canónica pelas mesmas razões que a IOU-PK. As autoridades civis têm vindo a tentar pôr um fim a esta divisão e esforçam-se por promover o restabelecimento de uma Igreja Ortodoxa Ucraniana unida, um assunto que tem deveras constituído uma preocupação para as várias comunidades da Igreja.
Em Fevereiro de 2006, o Sínodo da Igreja Ortodoxa Ucraniana, leal ao Patriarcado de Moscovo, decidiu renovar o diálogo com a Igreja Autocéfala e reavivar a Comissão Conjunta criada no dia 22 de Novembro de 1995 (Sedmica.ru, 16 de Fevereiro de 2006). A Comissão tem, desde então, reunido com regularidade, mas ambas as partes excluíram a possibilidade de envolver nos debates o Patriarcado de Kiev, apesar do pedido, feito em Fevereiro de 2007, por parte do presidente Yushchenko, para que tal ocorresse. A razão invocada é a de que o Patriarcado não é uma estrutura canónica (Blagovest-info.ru, 6 de Março de 2007).
Existem relatos de conflitos entre as diferentes comunidades ortodoxas sobre a questão da propriedade e do direito de utilização de determinados locais de culto, como é o caso da Igreja da Ressurreição, em Ostroh (HRWF, 23 de Fevereiro de 2006), da Igreja da Trindade, em Rochmaniv (província de Ternopil), e da Igreja de São Jorge, em Subranec (RISU, 5 de Fevereiro de 2007).
Em especial, a Interfax relatou (2 de Outubro de 2006) que os Ortodoxos em Lviv se manifestaram em frente à Câmara Municipal local para protestar contra a decisão das autoridades de entregar oficialmente ao Patriarcado de Kiev os terrenos nos quais foi construída a Igreja de São Vladimir (a igreja era propriedade do Patriarcado de Moscovo desde 1991, mas foi mais tarde confiscada pelo seu homónimo de Kiev). A comunidade leal a Moscovo construíra uma capela nestes terrenos que agora acabou por perder.