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8-8-2016

Iraque | Dois anos depois da invasão do auto-proclamado Estado Islâmico


"Dois anos depois, não imaginaria que os refugiados cristãos continuariam aqui."

 

Há precisamente dois anos, o dia 6 de Agosto ficou marcado na memória de milhares de cristãos iraquianos como um dia trágico e doloroso. Este foi o dia que mudou a vida de milhares de famílias no Iraque, em que o ISIS, o auto-proclamado Estado Islâmico, invadiu a Planície do Nínive e Mossul, e anunciou que todos se deveriam converter ao Islão. Ou teriam de pagar um imposto. Ou seriam mortos. Alguns fugiram de imediato, outros esperaram para ver o que se iria passar, mas, quando as suas casas começaram a ser marcadas com a letra N em árabe, identificando os donos como “nazarenos”, percebeu-se que a situação iria piorar. Da noite para o dia, os cristãos receberam um aviso dramático: deveriam converter-se, partir ou, então, ficar e pagar um imposto impossível de suportar. Quem não o fizesse seria morto.

 

Deu-se um êxodo. Pelo caminho, militantes do Estado Islâmico pararam carros e roubaram tudo o que de valor os cristãos transportavam. O destino dos que conseguiram escapar foi o Curdistão iraquiano e uma das primeiras organizações a chegar ao local para os ajudar foi a Fundação AIS .

 

©Fundação AIS - Centenas de milhares de cristãos fugiram de Mossul e encontraram refúgio no Curdistão iraquiano

 

O Pe. Andrzej Halemba, responsável pelos projectos da Fundação AIS para o Médio Oriente, que acompanhou desde o início os cerca de 120 mil cristãos que fugiram de Mossul quando este foi ocupado pelo auto-proclamado  Estado Islâmico, na sua recente viagem ao Iraque constatou que "Dois anos depois, não imaginaria que os refugiados cristãos continuariam aqui”. No entanto, fez questão de sublinhar que “a Igreja está a fazer muita coisa por eles, tanto a nível espiritual como psicológico. Os padres, e sobretudo as religiosas, estão próximos. As pessoas estão a viver com a situação. Não digo que queiram viver assim permanentemente, claro que não, mas já perceberam que não foram abandonadas.” (leia abaixo a entrevista na íntegra)

 

Dois anos depois, o Pe. Halemba explica qual é a situação actual no terreno:

 

Visitou o Iraque pouco depois da fuga dos cristãos da Planície de Nínive. Na altura, o que encontrou?

Naturalmente foi uma situação terrível. Nos primeiros dias as pessoas dormiam no chão. As temperaturas no Iraque em Agosto eram insuportáveis, perto dos 50 graus. As pessoas estavam traumatizadas e muito agressivas. A isto juntava-se o facto de se sentirem traídas, não só pelos seus vizinhos muçulmanos que colaboraram com o Estado Islâmico e pilharam as suas aldeias, mas também pelas forças curdas peshmerga, em quem tinham confiado para defenderem as aldeias. Quando os peshmerga retiraram, surpreendentemente e contra todas as promessas, foram deixados sem protecção e obrigados a fugir, por vezes em circunstâncias dramáticas. 

 

A AIS chegou rapidamente ao terreno…
Sim. Nessa altura era uma questão de ajuda humanitária de emergência para mais de 120 mil cristãos. Inicialmente a Igreja local estava totalmente assoberbada. Mas com a ajuda de instituições internacionais como a Fundação AIS, a situação estabilizou relativamente depressa. Na altura eu não imaginaria que as pessoas continuariam a viver fora das suas casas ainda hoje. A situação política e militar no Iraque simplesmente não permitiu a libertação das áreas cristãs ocupadas pelo Estado Islâmico. Naturalmente isso incomoda as pessoas. Muitas já tinham perdido, então, a sua esperança num futuro para o Iraque e simplesmente queriam ir-se embora. Pediram-me muitas vezes dólares e vistos de emigração.

 

Diz-se que é uma questão de tempo até se tentar libertar Mossul e a área circundante...

É verdade. E as pessoas esperam que assim seja. Contudo, isso poderá levantar novas dificuldades. Temos de ter em conta que Mossul é uma cidade com um milhão de habitantes. Se for lançado um assalto, centenas de milhares teriam de fugir dos combates. E para onde irão? Provavelmente para o Curdistão, que já está a rebentar pelas costuras. Mas também é provável que muitos dos sunitas de Mossul e das áreas circundantes entrem nas aldeias cristãs, que estão vazias, e procurem refúgio por lá. Isso poderá criar novas e inesperadas dificuldades; estarão dispostos a abandonar essas aldeias novamente se os cristãos voltarem? Actualmente isto é apenas uma possibilidade. Mas este cenário preocupa seriamente os bispos no Iraque. Os cristãos já sofreram muitas experiências más com ocupações de terrenos.

 

Qual é a situação dos refugiados hoje?
No geral, diria que as pessoas já não se sentem tão perdidas e agressivas. A Igreja está a fazer muito por eles, tanto a nível espiritual como psicológico. Os padres, e sobretudo as religiosas, estão próximos. As pessoas estão a conseguir viver com esta situação. Não digo que queiram viver assim permanentemente, claro que não, mas já perceberam que não foram abandonadas. Estabelecemos escolas, e em breve teremos até escolas secundárias prontas a abrir. O objectivo é evitar que cresça aqui uma geração perdida, como acontece na Síria. Para além disso, a maioria das pessoas já não vive em tendas ou caravanas, mas em apartamentos e casas arrendadas. Com isto viram restaurada a sua dignidade e sentem que têm novamente um lar. Através da nossa ajuda alimentar e o seu próprio trabalho, já têm as suas necessidades básicas asseguradas. Mas naturalmente isto não pode continuar assim para sempre. Quanto mais durar este exílio, mais pessoas partirão. Muitos cristãos já abandonaram o Iraque.


De que números estamos a falar?
Não tenho números exactos. Mas dos aproximadamente 120 mil cristãos que fugiram inicialmente, muitos já saíram. No início ajudámos cerca de 13.500 famílias. Hoje haverá menos quatro a cinco mil famílias, que partiram. Isso é doloroso, mas se não fosse a ajuda humanitária seriam ainda mais. Impressiono-me vezes e vezes sem conta pela força interior desta gente. Se fossem ajudados, muitos regressariam às suas aldeias libertadas.

 

 

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OBSERVATÓRIO: Iraque

 






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