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19-1-2010

AIS, presença constante no Haiti


Entrevista a Xavier Legorreta, responsável do departamento da América Latina da Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), para o Fórum Libertas

 

1. A AIS "ajuda a ajudar". O que significa este lema da sua organização, dependente da Santa Sé?
Para a Obra Ajuda à Igreja que Sofre, o cenário nunca mudou. Esteve sempre disposta a ouvir e a atender as necessidades dos bispos. Esteve sempre atenta ao caminhar da Igreja e ao seu sofrimento. Durante os mais de cinquenta anos em que tem ajudado no continente, procura sempre acompanhá-la onde é ameaçada, sofre e corre perigo. Sobretudo na sua área mais sensível: a família, a Igreja sob a contínua ameaça das seitas e ajudá-la a crescer onde os meios económicos escasseiam para que cumpra a sua missão adequadamente.


2. Em termos gerais, que acções é que a AIS tem realizado na América Latina?
O sistema de angariação de fundos que a AIS tem vido a utilizar baseia-se na providência e na confiança em Deus. Os nossos milhares de benfeitores em todo o mundo dão donativos generosos, mas nem sempre avultados. Este sistema tem sido a ferramenta que o fundador desta Obra desejou: prometer ajuda sem a ter, para que os benfeitores conheçam onde a Igreja mais sofre e tem necessidades. Os benfeitores da nossa Obra nunca forem os suficientes: as necessidades das Igreja são tão grandes que sempre se procuraram intensamente novos benfeitores para colaborarem na sua missão.


3. Especificamente no Haiti, que projectos já foram ou estavam a ser desenvolvidos?
Desde 1969 que a nossa ajuda se intensificou neste país. A ajuda que temos dado nos últimos três anos é de mais de dois milhões de euros. Antes de mais, damos ênfase à formação de catequistas e seminaristas, ao apoio para que os sacerdotes possam ter uma vida sacerdotal mais digna e aos meios para o seu trabalho pastoral, que vai desde um automóvel até à impressão de materiais de catequese de que necessitam para o seu trabalho diário. Enviamos cerca de 1500 estipêndios de missa para os bispos, para que os distribuam entre os sacerdotes. Cada estipêndio tem um valor de dez euros, muito necessário para cobrir os seus gastos mais básicos de subsistência. Há muitos anos que os nossos benfeitores financiam os breviários que os seminaristas necessitam para a sua ordenação. Também são muito numerosas as capelas construídas ou restauradas com a nossa ajuda nos últimos anos. Como consequência desta catástrofe terá que se aumentar esta ajuda. Um projecto de grande envergadura consiste em fornecer electricidade às rádios das dioceses. Uma vez que a infra-estrutura eléctrica é obsoleta, decidimos financiar o envio de um sistema de energia eléctrica misto, composto por geradores e painéis solares, em colaboração com outras organizações de ajuda. Para isso foram destinados 100.000 euros. Esta ajuda, que chegará nos próximos meses, será providencial no processo de reorganização do país.


4. Qual vai ser o contributo da AIS na catástrofe do Haiti?
Creio que aquilo que o P. Werenfried fez durante a sua missão profética foi demonstrar como a Igreja sofre, como a Igreja em países de ditadura está sufocada, como a Igreja está ameaçada em países onde a liberdade religiosa está sujeita a certas políticas que obrigam a silenciar e a sofrer no silêncio. A nossa Obra quis sempre ajudar de três maneiras: rezar pela Igreja que sofre e tem necessidades, e informar os benfeitores, que é o que faremos em relação ao Haiti. Dar a conhecer a realidade, muitas vezes desconhecida ou pouco conhecida, e ajudar financeiramente face às imensas necessidades que a Igreja Universal tem. Provavelmente faremos uma viagem nas próximas a fim de identificar com clareza aquilo de que se necessita Acabámos de enviar uma ajuda inicial de 70.000 dólares através da Nunciatura Apostólica para que o Núncio seja o intermediário e distribuir este subsídio entre os sacerdotes e as religiosas que nestes momentos se encarregam de aliviar a dor do seu povo atingido pelo sofrimento.


5. Já esteve no Haiti. Como é esse país?
Cerca de 95% da população é descendente de escravos africanos e os restantes são mulatos, descendentes de uniões entre os franceses e africanos, bem como alguns descendentes de árabes que eram comerciantes na ilha. O país conta com mais de oito milhões de pessoas. As estatísticas revelam que é o país mais densamente povoado do mundo. Mais de um milhão de haitianos vive no estrangeiro à procura de uma vida mais digna, a maioria nos EUA, França e Canadá. Se em Cuba se diz que a esperança ainda não chegou no final da etapa castrista, no Haiti é muito difícil que a esperança se alcance. As pessoas vivem das vendas ambulantes, como a venda de gasolina no mercado negro, da fruta e dos legumes que cultivam, cana do açúcar, sapatos usados, manga, água, jantes de bicicletas, bem como a venda de todo o tipo de artigos como galinhas, carne, etc., e artigos de segunda mão vindos dos EUA, como peças de vestuário e aparelhos eléctricos. A prática do aborto clandestino é absolutamente normal. Também é de notar a promiscuidade que reina na vida haitiana, bem como o elevado número de filhos de cada família, de sete para cima, o que aumenta ainda mais a miséria em que vivem.


6. Parece que os desastres naturais atingem com mais força os lugares onde a pobreza e a desestruturação social já são uma realidade. Porquê?
Os antecedentes históricos que todos conhecemos sobre o Haiti são o factor dominante para descrever a razão de se encontrar internacionalmente abandonado e sem que se tomem decisões ou estratégias concretas para elevar o nível de vida e conseguir uma democracia justa e participativa.
Não esqueçamos que houve escravatura. Actualmente, a suposta democracia, a colonização norte-americana e a influência francesa, são aspectos que a marcam, bem como a outros países da América Latina.
O Haiti é o país mais pobre do hemisfério ocidental e encontra-se na lista dos trinta países mais pobres do mundo. Setenta e cinco por cento da população está abaixo do limiar da pobreza absoluta. As infra-estruturas básicas nas áreas urbanas, como as ruas, a electricidade, a água potável e o meio ambiente, estão gravemente afectadas. O caos político teve como resultado uma escassa ajuda internacional. A escassez de materiais de construção não oferece um melhor modo de vida à população rural. A desflorestação é um dos factores mais desastrosos, pois afectou irremediavelmente a agricultura. Foi feita para se poder produzir carvão para cozinhar com madeira e, simultaneamente, ser uma fonte económica para sobreviver com a sua venda.
Não há electricidade praticamente em todo o país. As pessoas vivem da luz do dia e quem tem electricidade é graças a geradores ou através de painéis solares. Não se vê nenhum semáforo em todo o país por esta razão.
Lamentavelmente, a relação com a República Dominicana não ajuda muito quando há violações dos direitos humanos de haitianos. A fronteira é como um muro. Cultura e idioma são dois mundos distintos. A violência faz parte do quotidiano. Praticamente todos os dias ouvimos notícias sobre assassinatos e ataques a autocarros. Todos estes factores afectam, influenciam e destroem mais quando há catástrofes naturais.


7. Diversos relatórios de organizações internacionais constatam a crescente violência religiosa. Há cada vez mais cristãos perseguidos no mundo. Como se pode ajudar, em contextos hostis, os religiosos e missionários a realizarem o seu trabalho humanitário e evangelizador?
Pela nossa experiência com a Igreja da América Latina não podemos constatar uma violência religiosa crescente. Apenas em alguns países de carácter marcadamente esquerdista, a Igreja tem dificuldades em exercer o seu trabalho pastoral e humanitário. As maiores ameaças que a Igreja enfrenta são o proselitismo das seitas e os avanços do secularismo que põem em perigo os valores religiosos tradicionais.


8. A AIS ajuda com programas específicos para facilitar a liberdade do culto católico dos paroquianos em lugares onde esta confissão é oprimida social ou politicamente?
A principal finalidade da nossa Obra é ajudar a Igreja onde tem necessidades ou sofre limitações para poder desenvolver o seu trabalho evangelizador. Nos países onde a Igreja não pode exercer a sua missão livremente, a nossa Obra desenvolve programas específicos, que variam segundo as circunstâncias de cada lugar e situação, para que a Igreja possa anunciar a sua mensagem evangélica.


9. Quantos pedidos é que a AIS recebeu no último ano? Em quantos países intervém?
A nossa Obra recebe anualmente cerca de 8000 pedidos de todo o mundo. Da América Latina recebe aproximadamente 1500. Podemos dar uma resposta positiva aproximadamente a 75% dos pedidos. Os que são rejeitados é por falta de fundos ou por outras razões. Ajuda mais de 137 países e recebe donativos de 17 países: toda a Europa incluindo a Polónia, os EUA e o Canadá, a Austrália, o Brasil e o Chile. O primeiro país benfeitor é França, seguido pela Alemanha e pela Espanha.


Breve biografia
Francisco Javier Legorreta A. (Xavier Legorreta A), nasceu no México mas nacionalizou-se alemão. Depois de terminar a licenciatura em Ciências da Educação no México, na Universidade de Anáhuac, e a licenciatura em Filosofia, na Universidade Gregoriana, trabalhou na Assessoria da Juventude no Norte de Itália, para logo ir trabalhar para a AIS como responsável dos projectos para a América Latina desde 1995 até hoje, tendo visitado a maior parte dos países. O seu trabalho consiste no acompanhamento, no processo decisão e na administração das ajudas que a AIS dá a este continente.


Por último, mas não menos importante
Estou plenamente convencido de que temos de ajudar as pessoas a compreender a urgência desta realidade:
A ajuda humanitária vai chegar e já está a chegar. Salvar-se-ão vidas, curar-se-ão os feridos, sepultar-se-ão os mortos. Mas não devemos esquecer que 99% da população do Haiti é católica. Estes fiéis vão precisar do seu Arcebispo como pastor, assim como dos seus pastores que acompanham as comunidades. Ser católico e ser crente no Haiti é mais importante que outras coisas.
A Arquidiocese de Port-au-Prince, com cerca de três milhões de habitantes, é católica e precisa de pastores. Infelizmente, muitos sacerdotes e religiosas perderam a vida, por isso a Igreja tem que estar presente no cenário da catástrofe. Na Arquidiocese há cerca de 300 sacerdotes (diocesanos e religiosos). Um exemplo: a Arquidiocese de Port-au-Prince tem oitenta paróquias, cada uma com aproximadamente quatro capelas. Estamos a falar de 320 capelas! Há que ter em conta que este terramoto também destruiu grande parte delas. A nossa Obra deverá levar muito a sério a ajuda aos sacerdotes que acompanharão e consolarão estes fiéis que perderam os seus familiares. Poderão fazer isto nas capelas. Estamos a falar da reconstrução de cerca de 150 lugares sagrados. Para isso, solicitaremos a ajuda dos benfeitores da AIS e a atenção das necessidades de centenas de sacerdotes e religiosas.


Fundação Ajuda à Igreja que Sofre









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MISSA | P. Luís Rocha e Melo


11-03-2010

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