R.D. CONGO: Avanço terrorista no Alto Uele leva centenas de pessoas a “deixaram tudo para salvarem as suas vidas”

Muitas povoações ficaram praticamente sem ninguém. “Os guerrilheiros quando chegam às aldeias desertas, queimam as casas e as lojas e se encontram alguém que se recusou a fugir, matam-no”, descreve o padre Claudino Gomes à Fundação AIS.

Missionários Combonianos presentes no norte da República Democrática do Congo, denunciam uma ofensiva terrorista na província do Alto Uele desde o final do mês de Maio, com centenas de pessoas em fuga que estão a ser acolhidas em missões católicas.

Muitas povoações ficaram praticamente sem ninguém. “Os guerrilheiros quando chegam às aldeias desertas, queimam as casas e as lojas e se encontram alguém que se recusou a fugir, matam-no”, descreve o Padre Claudino Gomes à Fundação AIS.

Três missionários Combonianos presentes na República Democrática do Congo denunciam à Fundação AIS uma ofensiva terrorista no norte deste país, na província do Alto Uele. Segundo o Padre Claudino Gomes, a situação é extremamente grave, com a fuga de centenas de pessoas que fugiram essencialmente para a cidade de Isiro, a capital da província, face ao avanço dos grupos armados. A cidade, descreve o sacerdote português, “foi despertada pela chegada em massa de deslocados”.

Segundo o missionário, “a onda ruidosa” de pessoas atravessou “dezenas e dezenas de aldeias pela floresta”, algumas a cerca de 125 quilómetros de distância, em busca de abrigo em Isiro. Todos foram apanhados de surpresa, acrescenta o missionário comboniano, pois julgava-se que a guerra estaria confinada às regiões leste e nordeste do país, às províncias do Kivu Norte e Kivu Sul, mas não chegaria ao norte. “A estratégia da guerrilha põe a nu a desorganização e as fraquezas das forças do governo”, afirma o Padre Claudino.

A chegada de tantos deslocados deu origem a um “admirável impulso de acolhimento” por parte das famílias de Isiro, descreve o missionário. Houve famílias que acolheram 10, 15, e até 20 pessoas. Também as autoridades se mobilizaram abrindo estruturas de apoio, nomeadamente o complexo escolar de Ntumba, mas tudo se revelou insuficiente. Nesta crise humanitária provocada pelo avanço terrorista, a Igreja acaba por desempenhar um papel essencial. 

Os deslocados também foram acolhidos em conventos e paróquias católicas e protestantes em Isiro”

Dar arroz e feijão e escutar os desabafos

Na Paróquia Católica de Santa Ana, onde trabalho, prestamos ajuda a dois níveis: no acolhimento e no apoio às famílias que abriram os seus corações e portas àqueles que, partindo à pressa, chegaram quase sem nada. Actualmente acolhemos 140 pessoas na nossa casa e apoiamos 40 famílias com arroz e feijão”, esclarece.

O esforço da comunidade religiosa estende-se a todos, também aos que estão alojados no centro escolar de Ntumba. Aí, os missionários têm levado alimentos, sabão e coisas úteis, como cordas para secar a roupa, que de outra forma seria estendida no chão. “Praticamente todos os católicos das 40 comunidades espalhadas pela floresta e savana estão em Isiro. Assim, é natural que lhes prestemos todo o tipo de apoio”, descreve o sacerdote.

Apoio que passa pelo atendimento aos deslocados, escutando-lhes os desabafos, dando os sacramentos, auxiliando no acolhimento e prestando assistência médica. “Para as crianças, há futebol, catequese e oração”, diz ainda. “A Paróquia de Santa Ana é a mãe espiritual da maioria dos deslocados”, sintetiza.

“Todo o gado foi perdido, as casas incendiadas…”

Por todo o lado há sinais da violência terrorista. “Em Elimba, a comunidade mais distante da paróquia, os terroristas acabaram de matar várias pessoas que se dedicavam à prospeção artesanal de ouro”, descreve o Padre Claudino Gomes. “A grande aldeia de Ndubala também foi palco de violência e morte”, acrescenta.

Na missiva enviada para a Fundação AIS, o missionário descreve um ambiente de medo e de enorme incerteza. “Todos se perguntam quanto tempo vai durar esta violência”, diz, explicando que começa já a haver a ameaça de fome entre as populações locais. 

A frágil economia das famílias desmoronou-se. Os campos repletos de feijão e amendoim, prontos para a colheita, para depois receberem a sementeira de arroz, foram abandonados. Todo o gado foi perdido, as casas incendiadas… tudo se esfumou”

O espectro da fome já se sente, ameaçador. Precisamos urgentemente de ajuda, para que a fome e as doenças não tornem ainda mais sombria a vida destes irmãos e irmãs”, conclui.

Relatos semelhantes foram recebidos pela Fundação AIS por outros missionários presentes na região. O Padre Bienvenu Clemy, também Missionário Comboniano, pároco em Nossa Senhora dos Aflitos, em Mungbere, descreve também um ambiente marcado pelo medo e incerteza. “Mungbere é uma pequena cidade na província de Alto Uele. Sempre foi uma cidade pacífica, mais conhecida por causa da sua estação ferroviária. No entanto, há cerca de um mês que estamos a enfrentar uma situação difícil devido à insegurança, devido aos combates entre as forças armadas e os rebeldes”, explica o sacerdote.

“O problema é como alimentar estas pessoas…”

As pessoas fugiram e nós, como comunidade, decidimos permanecer com os mais pobres, porque temos aqui algumas pessoas que não têm família e ficámos com elas. Mas o principal problema é como alimentar estas pessoas, porque agora não podem ir ao mato tratar da agricultura. O principal problema é como alimentar todas estas pessoas. Estamos a tentar gerir [a situação], a dar o que temos, o nosso tempo, a nossa partilha, a nossa esperança e todos rezamos para que a situação volte a estabilizar”, diz o missionário comboniano numa mensagem vídeo enviada para a Fundação AIS.

Também o Padre Marcelo Oliveira alerta para a situação grave no norte do país. Apesar de estar em Kinshasa, a capital, este missionário comboniano, também português, como o Padre Claudino, descreve um ambiente de medo e de profunda insegurança na província de Alto Uele. “Neste momento, entrou nesta região um grupo de rebeldes, que ainda não conseguimos identificar, que continua a semear o terror nas populações”, diz, em mensagem áudio enviada para a Fundação AIS em Lisboa.

Quantidades imensas de pessoas abandonaram as suas próprias casas, abandonaram as aldeias para se poderem refugiar nas paróquias vizinhas. Actualmente, temos em Mungbere e em Isiro pessoas que deixaram tudo o que tinham para salvar as suas vidas”

“Deus não abandona o seu povo…”

Na região há três comunidades combonianas, duas são paróquias. Todas elas, esclarece Marcelo Oliveira, “são locais de refúgio, onde todas estas pessoas continuam a afluir em grandes quantidades e onde nos encontramos diante de um problema humanitário, uma urgência humanitária para a qual é necessária uma intervenção urgente”, alerta.

Apesar de o governo estar a “fazer alguma coisa”, a verdade, diz ainda o Padre Marcelo, é que a actuação das autoridades “é sempre ineficaz”. Por isso, diz também, “tudo aquilo que podermos conseguir para ajudar estas populações é sempre bem-vindo”.

O Padre Marcelo Oliveira deixa um apelo concreto “à solidariedade para com estes povos”, lembrando as enormes dificuldades que os missionários enfrentam ao socorrer tantas pessoas em necessidade. Missionários que, mesmo nos momentos mais duros, mais difíceis ou mais arriscados, continuam presentes. 

Deus não abandona o seu povo, mas caminha com ele. Por isso, nós, missionários, continuamos a acompanhar o povo mesmo na perseguição, mesmo no sofrimento, mesmo diante da falta de meios, mas ficamos com o povo. Somos sinais vivos da presença de Deus”

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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