Ásia
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   Muçulmanos
   Hindus
   Cristãos
   Outros
Católicos Baptizados
983.682
Circunscrições Eclesiásticas
6
Superfície
140.526.000
População
312.000
Refugiados
27.573
Desalojados
500.000
Bangladesh

O Artigo 2º da Constituição estabelece o Islão como religião do Estado, mas garante a liberdade religiosa a outras crenças. Afirma, ainda, que cada comunidade ou confissão religiosa tem o direito a instruir e a manter as suas instituições em total autonomia. Publicamente, o Governo parece determinado a garantir a liberdade religiosa, mas continuam a ocorrer ataques a grupos minoritários como os Ahmadi. As autoridades e a polícia nem sempre asseguram o respeito da lei, como é sua obrigação, surgindo demasiado tarde para auxiliar aqueles que são vítimas de agressões somente devido à sua opção religiosa.
Não há sinais de mudança no que toca à liberdade religiosa no país. Em 2006, os extremistas continuaram a colocar pressão sobre a autoridade central em variadas áreas da sociedade civil, mormente no que toca à educação. Em 2007, o adiamento indeterminado das eleições gerais, a declaração de um estado de emergência e a instauração de um Governo interino apoiado pelo exército, abalaram o panorama político do Bangladesh. Na altura em que foi escrito este relatório, a situação política era ainda extremamente instável. O aumento do extremismo islâmico e a indiferença da comunidade internacional continuam a constituir as principais ameaças à total liberdade religiosa neste país.

Extremismo e terrorismo
Durante os meses que antecederam as eleições gerais, as quais se deveriam ter realizado a Janeiro de 2007, e numa tentativa de garantir um consenso, o Governo mostrou-se ainda mais inclinado a ceder às pressões dos extremistas islâmicos. Em Agosto de 2006, a aliança política liderada pelo Partido Nacionalista do Bangladesh (BNP), cuja líder era então a primeira-ministra Khaleda Zia, decidiu reconhecer oficialmente as madrassas Qawami (escolas corânicas). Em consequência disto, o diploma de mestrado (em estudos islâmicos/literatura árabe) é agora equiparado à Dawra, a qualificação atribuída por estas mesmas madrassas Qawami. De acordo com a primeira-ministra, o passo seguinte e final seria o reconhecimento do diploma Fazil como equivalente a um curso superior universitário, e o Kamil, atribuído pelas madrassas Alia, como equiparado a um mestrado. Anteriormente, e durante algum tempo, os radicais islâmicos haviam exigido o reconhecimento oficial das antigas escolas designadas Qawami, as quais, contudo, e de acordo com agências de informação de segurança do Estado, são usadas para recrutar e treinar novas gerações de extremistas e terroristas. A decisão governamental surgiu na sequência de protestos por parte de vários partidos islâmicos, como o Islami Oikya Jote, então membro da coligação governamental.

A pressão aplicada pelos extremistas nos mais variados sectores da vida pública prossegue, portanto. Esta tendência tem perigosas implicações. De acordo com analistas locais, as Qawami exigem estatuto legal, mas simultaneamente recusam qualquer controlo sobre a sua administração ou sobre o currículo proporcionado aos estudantes. Efectivamente, o Governo atribuiu “carta branca” a estas escolas, permitindo que as mesmas ensinem aquilo que entenderem e como o entenderem, formando novos licenciados, equiparáveis aos oriundos de universidades estatais e privadas, as quais, contudo, estão sujeitas ao controlo governamental.

Tais medidas colidem com os conselhos prestados pelos especialistas em segurança, os quais, após uma série de ataques bombistas coordenados e levados a cabo por todo o Bangladesh a 17 de Agosto de 2005, apelaram a um maior controlo sobre as actividades e finanças das madrassas Qawami. As escolas corânicas mais radicais são financiadas pela Arábia Saudita e por governos islâmicos conservadores, os quais pretendem ver o Islão bengali regressar às suas próprias versões de ortodoxia islâmica. Os analistas mostram-se incapazes de apresentar uma calendarização aproximada, mas é possível que o recrudescer destas tendências possa levar ao emergir de vinte milhões de jovens treinados em extremismo nas escolas corânicas. De acordo com o Internacional Crisis Group, existem actualmente mais de 64 mil madrassas no Bangladesh; em 1986 existiam apenas 4.100.
Para além disto, tem-se assistido a uma proliferação de organizações e partidos políticos islâmicos desde 1976, altura em que o Governo aboliu o veto constitucional à formação e actividade de organizações com características religiosas. Ninguém consegue precisar o número exacto de tais organizações; o Governo e a comissão eleitoral mostram-se incapazes de fornecer dados precisos. Os departamentos de informação de segurança do Governo revelaram a existência de, pelo menos, cem partidos políticos e organizações islâmicas actualmente em actividade. Entre 1964 e 1971, existiam apenas onze. Os analistas alertam para a probabilidade de o país entrar numa fase em que irá ser liderado por um Governo islâmico.

A situação dos cristãos
A Constituição garante o direito a professar e difundir livremente qualquer religião, mas o proselitismo é fortemente desencorajado. Aos missionários estrangeiros é permitido trabalhar, enfrentando estes, contudo, habituais atrasos de vários meses na obtenção ou renovação dos seus vistos. Alguns afirmam que as suas actividades são seguidas de muito perto pelas forças de segurança.
Em Março de 2007, o Bispo católico Bejoy Nicephorus D'Cruze, de Khulna, no Sudoeste do país, afirmou à AIS que os fiéis da sua diocese continuam a procurar ver-se protegidos dos extremistas islâmicos. “No Bangladesh, os Cristãos são uma pequena minoria; temos receio do extremismo e continuamos a precisar da protecção do Estado”, explicou. E acrescentou que “neste país, a Igreja tem, contudo, um papel importante, especialmente no campo da educação.”

Em regiões tribais, em particular, os cristãos continuam a ser vítimas de discriminação social e a sofrer a pressão de grupos extremistas, os quais, em alguns casos, pretendem “trazê-los de volta” ao Islão através da violência e de ameaças, procurando, também, apoderar-se dos seus bens. A acusação mais frequente feita contra os cristãos é a de procurarem “conversões forçadas”, isto é, persuadirem os pobres a converterem-se em troca de recompensas económicas e promessas de benefícios materiais. Rumores como estes têm constituído o rastilho para alguma violência bem orquestrada, levada a cabo não só por muçulmanos mas também por budistas.

A violência contra as minorias religiosas tem frequentemente por alvo privar famílias ou aldeias inteiras das suas posses. As minorias são particularmente vulneráveis, dado terem influência diminuta em termos políticos, e a polícia nem sempre intervém para proteger os seus direitos. Um dos exemplos mais óbvios ocorreu em Chittagong Hills, onde habitam tribos indígenas formadas por cristãos e budistas. Em décadas recentes, imigrantes bengalis ocuparam esta área, privando os habitantes tribais da sua única fonte de subsistência. Em Abril de 2006, um ataque contra os povos tribais em Saupru Karbari e Noapara, duas aldeias na região de Maischari (distrito de Khagrachari), resultaram na morte de uma pessoa, na violação de quatro raparigas, em quarenta e cinco feridos, no saque a habitações e na destruição de uma residência para jovens. O ataque foi levado a cabo por um grupo supostamente formado por “bandidos bengali”, os quais procuraram roubar aos povos tribais tudo aquilo que possuíam, inclusivamente as próprias terras em que habitam, e nas quais trabalharam arduamente no sentido de as tornar cultiváveis. Estes criminosos não pouparam sequer um lar budista para crianças desfavorecidas, o qual ficou gravemente danificado. Um jornalista local relatou à AsiaNews que a polícia não fez qualquer tentativa de intervir para proteger os habitantes locais. Durante estes dias de violência, o monge budista Sumona Mahatero, fundador e director do lar que foi destruído, tentou socorrer as mulheres vítimas de violação, sendo contudo agarrado pelo pescoço, espancado e atirado para a rua pelos Bengalis. Mahatero acredita que, de facto, ele próprio era o alvo prioritário. O seu “delito” havia sido o ter tentado insurgir-se contra as injustiças e trabalhar para o desenvolvimento destas pessoas. É graças a ele que tais criminosos não conseguiram, ainda, apoderar-se das terras, como pretendem. Aqueles que foram detidos pelos ataques foram mais tarde libertados, um por um. O Governo não ofereceu qualquer forma de indemnização. As duas aldeias atacadas, e outras nas proximidades, viveram aterrorizadas durante vários meses. As crianças viram-se impossibilitadas de regressar ao lar, o qual talvez tenha de ser encerrado definitivamente.

As acusações de proselitismo continuam a ser o principal rastilho para episódios de violência contra cristãos. Nas aldeias de Durbachari e Laksmirganda, no distrito de Nilphamari, a 26 de Julho de 2007, alguns muçulmanos atacaram um grupo de cristãos convertidos. Deram aos mesmos vinte e quatro horas para que abandonassem as suas residências, sob a ameaça de mais violência física. Estes ataques surgiram na sequência do baptismo, a 12 de Junho, de quarenta e dois homens e mulheres que haviam abandonado o Islão. A violência que se sucedeu às ameaças causou vários feridos e a destruição de uma habitação. Os meios de comunicação social e as autoridades locais justificaram os ataques, culpando a “prática cristã” de “conversões forçadas”. Especialistas em matérias religiosas no Bangladesh explicaram que estas conversões não são impostas ou obtidas através do engano, resultando, sim, de um trabalho árduo, mas por vezes agressivo, por parte de comunidades protestantes. O homem que baptizou estas pessoas foi o Pastor Albert Adikari Hirok. A maioria dos convertidos é oriunda de famílias pobres e praticamente analfabetas, mas também se contavam entre eles alguns membros da classe média. Os fanáticos islâmicos perseguiram tais pessoas, especialmente os homens, dado que são estes que suportam as famílias e o afastamento dos mesmos tem consequências a nível económico. Isto é algo que tem vindo a suceder ao longo dos anos, mas as recentes vagas de fanatismo Talibã e anti-americano contribuíram para o aumento de tais pressões. Em termos gerais, os cidadãos comuns são tolerantes, mas os extremistas já mataram dois evangelistas que mostravam filmes sobre Jesus em público. Em algumas ocasiões, as ONGs são confundidas com a Igreja, e alguns dos seus fundos têm sido utilizados para o proselitismo, especialmente no que toca a alguns grupos baptistas, aos Coreanos e a alguns grupos evangélicos. Os missionários católicos trabalham de forma muito cautelosa, e mesmo quando alguns cidadãos se deslocam às paróquias pedindo bíblias, estes preferem aconselhar os mesmos a obterem-nas de forma independente.
A 10 de Outubro de 2006, dois militantes islâmicos, Hafez Mahmud e Mohammad Salauddinn, membros do grupo Jamaatul Mujahideen Bangladesh (JMB), foram condenados à morte pelo assassinato, em Setembro de 2004, de Abdul Gani Gomes, o qual se havia convertido ao Cristianismo.

O Governo culpou o JMB pelas 500 explosões coordenadas que ocorreram por todo o país a 17 de Agosto de 2005, causando a morte a pelo menos trinta pessoas. O JMB procura transformar o país de um estado secular num regime islâmico, com a introdução da sharia. Foram acusados de muitos dos ataques ao sistema judicial nacional. A 30 de Março de 2007, seis militantes islâmicos foram enforcados após serem condenados à morte pelo assassinato de dois magistrados durante uma onda de ataques terroristas ocorrida no país durante 2005. Entre os executados encontravam-se os líderes de dois grupos extremistas bem conhecidos: Shaikh Abdur Rahman, líder do JMB, e Siddiqul Islam Bangla Bhai, responsável pelo ilegalizado Jagrata Lusmim Janata Bangladesh (JMJB). Ambos os grupos são considerados responsáveis pela sangrenta campanha no sentido de introduzir a lei islâmica.
 

Os Ahmadi
A instabilidade política e social, aliada à progressiva islamização, continuou a fomentar a perseguição à minoria Ahmadi. Os extremistas pretendem a aniquilação total desta comunidade, a qual consideram “herética” dado não reconhecerem Maomé como o último Profeta. É frequente os extremistas não esperarem por iniciativas oficiais, procurando, eles mesmos, marginalizar esta minoria. Vários ataques têm sido levados a cabo contra mesquitas Ahmadi, tendo os atacantes espancado os fiéis, removendo a sinalização original e substituindo-a por cartazes com afirmações como: “Este não é um local de adoração muçulmano; muçulmanos, acautelem-se!”. Publicamente, não é intenção dos agressores encerrar locais de culto, antes realçar que não se trata de mesquitas muçulmanas, afirmam os mesmos. Estas são palavras vãs, contudo. Na prática, os extremistas não só maltratam os membros desta minoria, como também atacam as suas mesquitas e organizam marchas, rejeitando que o Ahmadismo faça parte do Islão e apelando à proibição das suas publicações. Em Janeiro de 2004, e após vários crimes, o Khatme Nabuwat (KN) – organização de grupos extremistas sunitas cujo objectivo é preservar a ortodoxia islâmica, e principal perseguidor dos Ahmadi – conseguiu obter um veto às publicações Ahmadi. Tal constituiu uma real e efectiva legitimação da discriminação contra tal minoria. O Supremo Tribunal suspendeu esta provisão em Dezembro do mesmo ano, mas tal não travou a violência. O Governo tem tentado cercear estas iniciativas extremistas, tendo respeitado o veredicto do Supremo Tribunal. Em Março de 2007, a polícia auxiliou alguns líderes dos Ahmadiyya a remover um placar afixado na fachada da sua mesquita em Khulna. Neste lia-se que tal edifício não era uma verdadeira mesquita, e que “os Ahmadi não são Muçulmanos”. Tratou-se de uma das primeiras iniciativas deste género a ser levada a cabo pelas forças da autoridade.



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