Ásia
Array
   Hindus
   Muçulmanos
   Cristãos
   Animistas
   Outros
Católicos Baptizados
18.408.000
Circunscrições Eclesiásticas
165
Superfície
3.287.263
População
1.117.730.000
Refugiados
161.537
Desalojados
600.000
India

 

2008-2009

 

Para a Índia, 2008 foi um ano de martírio. Os cristãos foram vítimas de um pogrom em larga escala. Nalgumas zonas, extremistas hindus perseguiram repetidamente indivíduos, espancando, matando, violando as suas vítimas; forçando-os a converterem-se, destruindo sistematicamente as suas casas e igrejas; em primeiro lugar e principalmente no estado de Orissa (Índia Oriental), mas também noutros locais.

O que aconteceu foi uma verdadeira perseguição, em conjunto com uma deficiente actuação por parte das autoridades locais, da polícia e do Governo, os quais muitas vezes intervieram muito pouco e muito tarde para parar uma violência e um massacre muito previsíveis e evitáveis. As acções levadas a cabo para processar os culpados e proteger as vítimas também provaram ser totalmente inadequadas.

Forçados a fugir das suas aldeias nativas, só com a roupa do corpo, os cristãos acabaram por ir parar a campos de refugiados, que normalmente não reúnem os padrões mínimos de higiene e de serviços básicos, e onde eles continuam a sentir ameaças e abusos por parte de hindus radicais, apesar da presença dos representantes da lei. Agora vai ser importante ver o que as autoridades irão fazer em 2009; se irão ser capazes de fazer parar os actos de violência e os abusos das maiorias contra as minorias (por círculos extremistas hindus contra a minoria cristã) e reafirmar que a Índia é realmente a maior democracia do mundo.
A perseguição anti-cristã começou a aumentar em certas áreas de Orissa pelo Natal de 2007 quando grupos fundamentalistas hindus, como o Vishva Hindu Parishad (VHP) organizou uma destruição sistemática de propriedades, caças ao homem, violência e assassinatos (para informação mais detalhada, consultar o Relatório da Liberdade Religiosa no Mundo, 2008).

 

No início de 2008, a onda de violência tinha retrocedido, mas muitos refugiados cristãos tinham demasiado medo de voltar para as suas aldeias e decidiram viver escondidos nas florestas, sem comida ou abrigo, forçados a beber água de riachos.
Durante os primeiros dias de Janeiro, o Cardeal Telesphore Toppo, presidente da Conferência Episcopal Católica da Índia, depois de visitar a área de Bhubaneswar (Orissa), um dos principais focos da violência, declarou que duas semanas depois dos acontecimentos, “as pessoas ainda estão em estado de choque, a viver em clima de medo e de ansiedade” (AsiaNews, 10 de Janeiro de 2008). No final de Janeiro, centenas de famílias continuavam ainda sem casa e, em muitas partes do distrito de Kandhamal, encontrava-se ainda em vigor o recolher obrigatório à noite.
Nos meses seguintes, a violência continuou esporadicamente naquela área e no resto do país. No dia 15 de Maio, cerca de trinta fundamentalistas hindus invadiram o Convento das
Irmãs da Apresentação, onde existia um noviciado, e destruíram-no. As irmãs, que trabalham para os pobres da aldeia de Gondarmug (Madhya Pradesh), foram ameaçadas e duas deles espancadas. A estrutura viria a sofrer danos consideráveis.
Na noite de 16 de Agosto, em Mosalikunta (Madhya Pradesh), um sacerdote carmelita, o Padre Thomas Pandippallyil, de 38 anos, foi assassinado na estrada que liga Lingampet a Yellareddy, a cerca de noventa quilómetros da capital do distrito.
O corpo foi encontrado na berma da estrada, com a face coberta de feridas, as mãos e as pernas esmagadas, e os olhos arrancados. A sua motocicleta foi encontrada a 1 km de distância do local onde o corpo se encontrava. De acordo com testemunhas, o Padre Thomas celebrara missa em Burgida nessa tarde de sábado antes de se dirigir para outra aldeia no distrito, com o fim de celebrar a missa de domingo. Para o Monsenhor Marampudi Joji, o crime foi o resultado de um clima de “ciúmes para com a Igreja Católica”, cuja única falha é a de ajudar as zonas mais pobres e mais marginalizadas do país a desenvolverem-se, ao mesmo tempo que providencia apoio e ajuda às “vítimas da violência e da opressão”.


“Durante décadas, os padres e as religiosas estiveram ao serviço dos menos afortunados na Índia. Isto torna-os o alvo de forças do mal que não querem que os marginalizados e os pobres sejam autónomos nas suas decisões”, declarou o arcebispo.
O Padre Thomas Pandippallyil juntou-se à missão carmelita em Chanda no dia 24 de Junho de 1987 e fez os seus votos em 2002. Durante algum tempo, ele foi o director da missão CMI da província em Chanda e trabalhou como administrador do hospital, director de escola e director do centro da missão.
Depois do seu brutal assassinato, os líderes da Igreja indiana denunciaram publicamente o agravamento da atmosfera anti-cristã. O Padre Anthoniraj Thumma, secretário executivo da Federação de Igrejas de Andhra Pradesh (APFC), declarou que a área onde o assassinato aconteceu “tinha uma história de violência anti-cristã”, em especial contra instituições cristãs como escolas e hospitais para os pobres, muito impopulares entre aqueles que gerem estabelecimentos com fins lucrativos.
O Monsenhor Raphael Cheenath, Arcebispo de Cuttack-Bhubaneswar, em Orissa, foi muito duro nas suas afirmações contra as autoridades por estas não terem tomado nenhuma acção legal contra os responsáveis pela violência durante o Natal. Porém, tanto este como outros apelos caíram em saco roto para as autoridades. Pouco tempo depois, outro pogrom anti-cristão foi lançado, mais violento, mais sangrento e mais sistemático do que o do Natal de 2007.
Na noite de sábado, 23 de Agosto, entre as 21h e as 22h, o líder fundamentalista hindu, Swami Lakshmanananda Saraswati, foi morto no seu ashram, no distrito de Kandhamal, juntamente com cinco dos seus seguidores. Cerca de vinte homens armados entraram naquele espaço durante uma sessão de ioga e dispararam indiscriminadamente contra os presentes, lançando também granadas.
 

Lakshmanananda esteve por detrás da violência anti-cristã de Dezembro último. Alguns dias antes, o swami recebera ameaças por parte de um grupo maoísta que o queria fora daquela zona, acusando-o de fomentar o conflito étnico-religioso. Ele respondeu organizando um protesto contra os muçulmanos em Jammu-Kashmir. As autoridades seguiram a pista maoísta de imediato, mas uma estação de televisão local relatou que os assassinos deixaram um bilhete na cena do crime, reivindicando a responsabilidade pelo assassinato enquanto acto de vingança pelo ataque contra os cristãos de Dezembro último.
Apesar da falta de provas, líderes de topo de grupos hindus radicais culparam de imediato a Igreja pelo assassinato. Embora a polícia expressasse a sua convicção de que o assassinato fora obra de guerrilheiros maoístas, o secretário-geral do VHP, Praveen Togadia, declarou a um jornalista estrangeiro que “a Igreja matou o swami”. Do mesmo modo, o porta-voz do Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), Ram Madhav, declarou à CNN-IBN que “os cristãos estão por detrás dos assassinatos”. Para não ser ultrapassado pelos acontecimentos, Bajrang Dal, líder nacional do Subhash Chavan declarou que “ao culpar os maoístas, a polícia está a tentar esconder a verdade”. Tratou-se do sinal que despoletou a violência que eclodiu no dia 23 de Agosto.

 

“Matem os cristãos e destruam as suas instituições”
De acordo com fontes da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de Cuttack-Bhubaneswar, do Conselho Cristão de Toda a Índia e do Conselho Global dos Cristãos Indianos (Protestantes), a nova onda de destruição começou logo ao anoitecer do dia 23 de Agosto, no seguimento da divulgação da notícia sobre a morte do líder hindu. Um grupo de desordeiros retirou à força, do veículo onde seguiam, duas Irmãs da Congregação do Sangue Preciosíssimo de Jesus Cristo, em Kothaguda, incendiando-o de seguida. O motorista foi barbaramente espancado. Quase ao mesmo tempo, um outro carro que transportava outras religiosas perto de Ainthapally, em Sambalpur, foi obrigado a parar e foi de seguida incendiado.


Gritando “Matem os cristãos e destruam as sua instituições”, milhares de hindus militantes do Vishva Hindu Parishad (VHP) atacaram instituições e residências cristãs nos dias 23 e 24 de Agosto, no distrito de Kandhamal, na diocese de Cuttack-Bhubaneswar, que fora cenário de violência em Dezembro de 2007. O centro pastoral da diocese e um centro social em K. Nuagam foram devastados; o mesmo destino tiveram uma igreja e uma residência paroquial em Kandhamal, bem como uma capela em Sundergarh. No dia 24 de Agosto, mais igrejas sofreram ataques; com medo da violência, a maioria dos fiéis manteve-se à distância. Cerca das 17h30, uma turba atacou o Centro Social Jan Vikas, da arquidiocese de Cuttack-Bhubaneswar, queimando carros, motocicletas e todos os seus documentos.


Pelas 18h, a multidão incendiou o centro pastoral em Divya e espancou o seu administrador, o Padre Thomas, enviando-o para o hospital com lesões graves no crânio. A casa do pároco de Baliguda também ficou debaixo de fogo. Localizada no coração do distrito de Kandhamal, a cidade assistiu à violência entre os dias 24 e 26 de Dezembro de 2007. Os assaltantes danificaram o convento e o centro de boas-vindas adjacente. Ataques semelhantes ocorreram por volta das 18h30 naquela mesma noite, contra a igreja católica em Kanjamedi, e em seguida em mais três igrejas na zona. Naquela noite, doze lojas que pertenciam a Dalits cristãos foram incendiadas.

Nos primeiros dois dias de violência foram atacados e destruídos igrejas, centros pastorais e sociais, conventos e orfanatos, num padrão demasiado abrangente e bem organizado para ter sido verdadeiramente espontâneo. Um grupo de Irmãs da Madre Teresa foi apedrejado, causando um ferido grave.

Militantes hindus atacaram a sé do Arcebispo em Bhubaneswar, mas não ousaram entrar dentro do edifício devido à presença policial.
Não levou muito tempo até que o número de vítimas aumentasse. Na noite de 24 de Agosto, em Tiangia, um católico, Vikram Nayak, foi literalmente feito em pedaços por uma multidão enfurecida. Mais dois católicos foram feridos neste mesmo ataque, morrendo horas depois em consequência dos ferimentos, sem terem recebido cuidados médicos adequados. Na aldeia na qual o massacre aconteceu, muitas casas católicas foram incendiadas enquanto os residentes fugiam para a floresta.
No distrito de Bargarh, uma multidão de 2.000 fanáticos atacou e destruiu muitas igrejas, separando padres e irmãs. Rajani Majhi, de 21 anos, foi queimada viva ao tentar salvar visitantes do orfanato da missão onde vivia e trabalhava. Em Padampur, o Padre Edward Sequira, que estava presente durante o ataque ao orfanato, ficou em estado crítico. Sofreu queimaduras graves, sobrevivendo por pouco a uma tentativa de o queimarem vivo.

A 25 de Agosto, a igreja e a casa do pároco em Phulbani foram atacadas e, também elas, incendiadas. Todos os padres fugiram, procurando refúgio em casa de membros da sua congregação. O albergue de estudantes de Phulbani foi também incendiado. Algumas religiosas das Missionárias de Caridade que estavam a estudar medicina em Brahamanigoan ficaram presas por várias horas na aldeia (AsiaNews, 25 de Agosto de 2008).
Em Bhubaneswar (Kandhamal), no dia 25 de Agosto, extremistas hindus violaram a Irmã Meena. Ela era empregada do centro social da arquidiocese de Cuttack-Bhubaneswar. O Padre Thomas Chellan tentou protegê-la, mas foi barbaramente espancado. A turba enfurecida incendiou o edifício e discutiu entre si se deveriam queimar também os dois cristãos. Decidiram despi-los e fazê-los desfilar nus pela cidade. Apesar dos pedidos das vítimas, os agentes policiais que estavam presentes não intervieram. O incidente terminou com os atacantes a entregar o padre e a religiosa à polícia, que os levou.

Houve alguns elementos comuns relativos à violência que atingiu Orissa em Agosto. Em primeiro lugar, as instituições cristãs, fossem elas igrejas, centros sociais, conventos, albergues ou escolas, foram o alvo principal. Em segundo lugar, as autoridades não tomaram nenhuma medida preventiva apesar do facto de líderes cristãos os terem advertido de uma atmosfera cada vez mais definida por intimidações e ameaças. As acusações anti-cristãs feitas por líderes hindus depois do assassinato do swami deveriam ter levado as autoridades policiais a perceber que algo de grave poderia acontecer.

Como a polícia não agiu rapidamente, a violência não encontrou resistência. Tudo o que a policia aparentemente fez foi colocar um agente em cada alvo possível, muito menos do que o que era necessário para deter dezenas de pessoas, se não mais, dispostas ao ataque, isto de acordo com muitos dos comentadores (AsiaNews, 25 de Agosto de 2008).
O Padre Chellan, que foi durante sete anos director do Centro Pastoral Divyajyoti, na diocese de Cuttack - Bhubaneswar, dá-nos uma imagem clara do que a inacção da polícia e a descontrolada mas organizada violência desses dias causaram. 
“A Polícia Armada do Estado de Orissa (OSAP)”, declarou o padre à AsiaNews, no dia 3 de Setembro de 2008, “teve agentes em frente ao nosso centro durante mais de um mês devido a vários incidentes em Tumbudhibandth depois de uma vaca ter sido morta. Quando vi as notícias na televisão do assassinato do Swami Lakshmanananda Saraswati, pedi protecção à OSAP. Eles disseram que não me preocupasse: 'Nós estamos aqui', asseguraram-me. No entanto, por volta das 16h30 do dia 24 de Agosto uma enorme multidão aproximou-se do nosso portão gritando palavras de ordem. Temendo pelas nossas vidas, um colega sacerdote, uma Irmã e eu tentámos escapar saltando a vedação das traseiras da propriedade. Conseguíamos ouvir os gritos das pessoas, portas a partirem-se, janelas a estilhaçarem-se . . . Depois de algum tempo, vimos fumo e chamas. Sentindo-nos inseguros, fugimos para a floresta, onde permanecemos durante algumas horas. Cerca das 20h, chegámos à casa de Prahlad Pradhan, na aldeia de K. Nuagaon; ele foi muito amável em receber-nos, oferecendo-nos alimentos e abrigo.”
O clérigo continuou o seu relato dizendo, “a polícia sabia com antecedência [o que poderia acontecer] e teve quase um dia inteiro para se preparar, desde os primeiros actos de violência no dia 24 de Agosto até à manhã do dia seguinte. Por volta das 9h do dia 25 de Agosto, através da janela do meu quarto, vi uma multidão destruir uma pequena igreja. Apercebendo-se do perigo, Prahlad escondeu-me num anexo e fechou-me lá dentro pelo exterior. Cerca das 13h30, um grupo de quarenta a cinquenta pessoas arrombou a porta e retirou-me de dentro do anexo. Quando me encontrava no exterior reparei que a Irmã já se encontrava ao pé da multidão; tinham-na descoberto primeiro. De imediato começaram a espancar-me, removendo à força a minha camisa e o banyan (colete ou camiseta). Perguntavam-me continuamente, “Porque mataram o Swamiji? Quanto dinheiro pagaram aos assassinos? Por que razão têm feito tantas reuniões no Centro Pastoral?” Empurrando-nos e puxando-nos, a multidão levou-nos até ao edifício Janavikas do outro lado da rua”.
“Eles estavam armados com lathis (tacos compridos e pesados usados em artes marciais), machados, espadas, pés-de-cabra, varas de ferro, foices, etc., e continuaram a espancar-nos dentro do edifício. Eu disse algo na tentativa de os fazer parar e eles atingiram o meu ombro direito com uma barra de ferro. Levaram-me para o exterior, despejaram querosene por cima de mim e iam acender os fósforos para me pegarem fogo. Nesta altura, um deles sugeriu que me levassem para o meio da rua e me queimassem lá. Arrastaram-nos até à rua onde me fizeram ajoelhar durante dez minutos. Alguém foi à procura de uma corda para nos amarrarem em conjunto e nos queimarem vivos. Decidiram então fazer-nos desfilar por Nuagaon, a cerca de meio quilómetro dali. Desfilámos seminus. Disseram-nos para entrelaçar as mãos e andar. Tentaram tirar-nos o resto das nossas roupas, mas de alguma maneira ambos conseguimos resistir. Enquanto caminhávamos, as pessoas não paravam de nos agredir. Alguém gritou insultos contra nós em Malayalam”.
“Quando chegámos a Nuagaon, às 14h30, havia uma dezena de agentes da OSAP num dos lados da estrada. 'Senhor agente, por favor ajude-nos!', disse eu a um deles. Assim que disse aquilo, alguém da multidão bateu-me por pedir ajuda. Em relação aos polícias, limitaram-se a estar ali, a observar. Não havia nenhum pessoal da polícia no posto de Nuagaon. A multidão obrigou-nos a sentarmo-nos na berma da estrada. Alguém me deu um pontapé na cara. Depois, uma pessoa que eu conhecia muito bem, um lojista em Nuagaon, foi buscar pneus usados para nos queimarem. A certa altura, a multidão disse-nos que fôssemos para K. Nuagaon; em conjunto com um dos agentes, fomos levados a um posto da polícia. Ali fui suturado, colocaram-me pensos e aplicaram unguento nas minhas feridas”.
Só nesta altura, a polícia tratou deles, cuidando das suas feridas, e levando-os para um lugar seguro.
A Irmã Meena declarou mais tarde que, depois da violência e do desfile pelas ruas da cidade, “Quando cheguei ao mercado, encontravam-se presentes cerca de dez agentes da OSAP. Fui ter com eles, pedindo-lhes que me protegessem, e sentei-me entre dois polícias, mas eles não se moveram. Alguém da multidão voltou a puxar-me”, sem que a polícia levantasse sequer um dedo.
Cerca das 13h, em Jamai Pariccha, atacaram o director da Gramya Pragati, uma agência católica de assistência social. A sua esposa hindu implorou por clemência para o marido, mas a multidão não quis saber. Os fundamentalistas continuaram a espancá-lo, gritando, “Ele é um cristão e nós vamos matá-lo!” Ele sobreviveu por pouco mas tudo o que possuía, incluindo o seu carro, foi destruído.
Um episódio semelhante ocorreu uma hora mais tarde, por volta das 14h, quando a casa de um professor católico, Puren Nayak, em Bhudansahi, foi incendiada. Testemunhas lembram-se de mulheres hindus indicando as casas dos cristãos a homens hindus e dando-lhes queroseno para atear fogo aos edifícios.
A igreja paroquial em Sankrakhol sofreu também um ataque. Foi primeiro saqueada e depois incendiada. Alexandar Chandi, o pároco, sobreviveu escondendo-se numa floresta próxima antes que os fundamentalistas o conseguissem apanhar.
O Padre Bernard Digal, que estava de visita a um amigo, também ele sacerdote, foi confrontado com uma turba enfurecida e teve de fugir para salvar a vida. O jipe que conduzia foi destruído. Foi atacado no dia seguinte e enviado para o hospital em situação grave. Apesar dos cuidados médicos que recebeu, acabaria por sucumbir aos ferimentos, depois de muitas semanas, no dia 25 de Outubro.
O Convento de São José foi também atacado e as religiosas residentes tiveram de fugir para a floresta próxima. Cerca das 11h30, foram saqueadas dezassete residências cristãs em Raikia, e os poucos bens dos residentes foram destruídos. Pensa-se que três pessoas terão sufocado até à morte durante o incêndio que consumiu os edifícios.
No dia 25 de Agosto, atacaram mais igrejas no distrito; incluindo a igreja pentecostal de Budamaha, a igreja de Masadkia, a igreja de Pisermaha, as igrejas baptista e redentorista em Mondakia, e a igreja de Mdahupanga. Uma patrulha policial foi enviada para guardar a igreja de Jeypore que estava a começar a ser atacada. Fontes das forças de segurança disseram que mais de 200 fundamentalistas estavam a preparar-se para o ataque. O pároco e um colega sacerdote fugiram e refugiaram-se em casa de amigos.
Na manhã de 26 de Agosto, a igreja católica e cinco casas cristãs na aldeia de Badimunda foram incendiadas. Um missionário verbita e um jesuíta, os padres Simon Laksa e Xavier Tirkey, foram capturados, despidos e espancados, mas conseguiram fugir aos seus capturadores.
“Em Bakingia, Daniel Naik e Michael Naik e as respectivas famílias, sete pessoas ao todo, foram torturados e mortos pelos fundamentalistas. Foram identificados pelas respectivas roupas. Bakingia encontra-se a apenas cerca de 8 km da esquadra de polícia de Raikia”, declarou Sajan George, presidente do Conselho Global dos Cristãos Indianos (CGCI)
A Irmã M. Suma, uma religiosa das Irmãs da Madre Teresa, estava presente quando tudo aconteceu. Ela declarou: “As aldeias cristãs estão a ser arrasadas. Religiosas carmelitas apavoradas foram forçadas a fugir do convento para procurar abrigo nos bosques” sem comida, agasalhos, nem mesmo roupas para as proteger do frio. A Irmã Karuna, uma religiosa da Ordem do Sangue Preciosíssimo, que foi uma das primeiras a ser atacada, confirmou que “as pilhagens e os incêndios” continuaram naquela “manhã. Mulheres foram maltratadas e brutalizadas e os extremistas” estavam “a fazer o que queriam com elas” (AsiaNews, 27 de Agosto de 2008).
Espalharam-se rumores de que extremistas de outros estados estavam a deslocar-se para Orissa para ajudar os radicais locais. Supremacistas (racistas) Hindutva, de Madhya Pradesh, Karnataka e Maharashtra, chegaram ao distrito de Kandhamal.

Alguns cristãos protestantes declararam que o Governo do estado de Chhattisgarh estava a ajudar grupos paramilitares a chegar a Orissa para atacar os cristãos.
A partir deste momento, a polícia começou a agir com mais vigor; um recolher obrigatório foi imposto em todo o distrito de Kandhamal. Colocaram unidades anti-motim em zonas sensíveis como escolas, faculdades e edifícios cristãos, com ordens de disparar contra quem quer que fosse que não respeitasse o recolher obrigatório. Cerca das 21h30 do dia 26 de Agosto, deu-se uma troca de tiros entre fundamentalistas hindus e a polícia perto da aldeia de Barakhama. Quatro pessoas morreram sob o fogo da polícia.
Apesar da imposição do recolher obrigatório, a violência continuou em Kandhamal e centenas de edifícios e outros bens, propriedade de cristãos, foram destruídos. Muitas igrejas foram danificadas e queimadas. Até mesmo o prestigioso Instituto de Estudos de Gestão, gerido por jesuítas, em Bhubaneswar, foi atingido, mas a rápida acção da polícia impediu a sua destruição.

O Governo de Orissa foi alvo de muitas críticas por pouco ou nada fazer e do que fez tê-lo feito demasiado tarde para conseguir parar uma previsível onda de violência. Durante semanas, o Governo do estado, gerido pelo partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP), fez tudo o que lhe foi possível para subestimar a extensão do massacre.
No dia em que a violência deflagrou, levando a saques, assassinatos e incêndios, o ministro do Interior, Tarunkanti Mishra, disse aos jornalistas que as manifestações organizadas pelos Sangh Parivar depois da morte do Swami Lakshmanananda eram “na sua quase totalidade pacíficas”.
Durante semanas, funcionários de topo do Governo reivindicaram repetidamente que a situação estava “sob controlo”, embora isso não fosse obviamente verdade. Quando a polícia decidiu intervir, apercebeu-se de que as suas movimentações estavam dificultadas, sendo incapaz de chegar a muitas aldeias distantes porque grupos violentos tinham bloqueado as estradas com troncos de árvores.

A campanha anti-cristã acabaria por se espalhar a outras partes do país. No dia 29 de Agosto, em Madhya Pradesh (Índia central), alguns fanáticos atacaram cinco escolas cristãs e uma igreja em retaliação contra a greve geral lançada pelas escolas cristãs. Os ataques tiveram lugar no distrito de Gwaliar (contra três escolas e uma igreja) e Barwani (contra duas escolas), e só a rápida intervenção por parte da polícia conseguiu impedir maiores danos a pessoas e a propriedades.
Em Madhya Pradesh, enquanto os cristãos cumpriam três dias de jejum até ao dia 1 de Setembro pelos seus co-religionários de Orissa, grupos Bajrang Dal organizaram manifestações, queimando efígies de missionários. Começaram também escaramuças com estudantes cristãos, mas a intervenção policial fez com que ninguém se ferisse.
No dia 31 de Agosto, em Chitradurga (Karnataka), um clérigo protestante, o Reverendo N. Kumar, da igreja de Sharon, foi espancado imediatamente a seguir à missa de domingo. Um grupo de radicais hindus entrou de rompante na sua igreja, marcando todos os presentes com tinta vermelha como sinal de “reconversão ao Hinduísmo”. A polícia estava presente mas não interveio (AsiaNews, 1 de Setembro de 2008). Na manhã de 7 de Setembro, uma igreja anglicana em Ratlam (Madhya Pradesh) ardeu totalmente.
O CGCI de Sajan K. George declarou que só na área de Davangere (Karnataka), entre Agosto e Setembro, três locais de culto foram forçados a fechar, supostamente por “não terem autorização”. Mesmo quando os sacerdotes pentecostais exibiram todos os documentos necessários, as igrejas permaneceram fechadas. Do mesmo modo, todos os domingos durante o mês de Setembro, extremistas do Sangh Parivar entraram em vários locais de culto, gritando slogans anti-cristãos, espancando os fiéis. Durante vários de tais incidentes, a polícia manteve-se silenciosa e limitou-se a assistir (AsiaNews, 12 de Setembro de 2008).

Em Setembro, dezenas de Igrejas cristãs foram destruídas em Mangalore, Udupi e Chikmalagur, assim como em outros distritos de Karnataka (Sudeste da Índia). Embora o recolher obrigatório tivesse sido imposto na área e o direito de ajuntamento tivesse sido suspenso, no dia 15 de Setembro manifestantes hindus saquearam a Igreja de São Sebastião em Permannur, destruindo janelas e mobília.

Armados com paus e pedras, jovens do RSS entraram dentro da Capela da Adoração no Convento de Milagres, que é gerido por Irmãs Clarissas de clausura, e começaram a estilhaçar tudo. Numa sucessão rápida, destruíram o tabernáculo e as hóstias, o ostensório, um crucifixo, as luzes do Santíssimo, jarras ao redor do altar e algumas estátuas de santos. Alguns fiéis que estavam na capela tentaram fazê-los parar mas foram espancados e acabaram no hospital. Ataques semelhantes aconteceram em Belthangady, Kodaikal, Koloor, Chickmangalore, Kundapur, Karkal, Koppa, Balehanoor e Moodbidri.

Os cristãos reagiram organizando manifestações para protestar contra os ataques e defender as suas igrejas, mas a polícia interveio e fê-los dispersar. Em Milagres, a polícia espancou alguns dos fiéis, incluindo uma religiosa, que estavam a tentar ir para a igreja para assistir à missa de domingo à noite. A polícia usou também gás lacrimogéneo para dispersar os cristãos (AsiaNews, 15 de Setembro de 2008).

Assaltantes desconhecidos atacaram o jardim-de-infância católico de Jaya Mata (distrito de Kasargode, Kerala) na noite de 14 para 15 de Setembro. Um quarto no edifício estava a ser utilizado como capela desde que a igreja da paróquia se encontrava em renovação. Na manhã de 15 de Setembro, o Padre Antony Punnoor encontrou o sinal de entrada, a porta de vidro e as janelas partidas; uma estátua de Nossa Senhora foi desfigurada usando pedras. Também em Karnataka, no dia 14 de Setembro, vinte igrejas cristãs foram pilhadas por radicais hindus do Sangh Parivar. Os cristãos protestaram contra a polícia, que nada fez para impedir os ataques.

Na noite de 16 de Setembro, o guarda de segurança do Convento Carmelita em Banduha (Ujjain, Madhya Pradesh) foi ferido ao proteger as religiosas. Naquela mesma noite em Ujire (Karnataka), a igreja siro-católica de São Jorge foi destruída e em seguida incendiada. Nas primeiras horas do dia 17 de Setembro, uma imagem da Gruta de Lourdes que se encontrava perto da Igreja de Santa Maria, em Kolar, foi atacada, enquanto a estátua da Virgem e o seu vidro protector foram estilhaçados.

No dia 20 de Setembro, em Bangalore, pilharam a Igreja de São Tiago. Vândalos profanaram as hóstias e danificaram a mobília e os bancos. Outra igreja em Siddapura (distrito de Kodagu) viu as suas janelas serem partidas. No dia 21, ainda em Bangalore, vandalizaram a Igreja do Sagrado Nome de Jesus. Em Kerala, duas das igrejas mais antigas na Índia receberam o mesmo tratamento. No dia 21 de Setembro, uma estátua de Cristo na Igreja de S. Protásio e S. Gervásio (século XVII) foi estilhaçada e retirada do seu entablamento. A igreja pertence ao rito Siro-Malabar. Além disso, a catedral jacobita ali perto, a igreja la Mar Sabore Afroth, foi danificada; as suas janelas foram partidas e algumas relíquias de São Paulos Mar Athanasius foram destruídas. A igreja jacobita foi construída no ano de 825.


Orissa permaneceu o foco da violência, sendo as igrejas e as casas os alvos de eleição. As forças de segurança provaram serem incapazes de conter a violência durante todo o mês de Setembro. As destruições, as caças ao homem, os espancamentos selvagens e os assassinatos continuaram a ocorrer. No dia 2 de Setembro, atacaram e incendiaram a igreja católica da aldeia de Kakadabadi. No dia 1 de Setembro, a igreja baptista em Durgaprasad, a igreja católica em Chadiapally e as igrejas católica e baptista em Balligada foram todas destruídas e incendiadas. A igreja católica de Mondasore, uma grande obra de arte construída um século atrás, foi atacada e incendiada; a casa e o carro do pároco tiveram idêntico destino.


O Padre Dibyasingh Parichha, porta-voz da diocese de Cuttack-Bhubaneswar, declarou que “no dia 14 de Setembro, na aldeia de Makabali, doze casas que pertenciam a cristãos foram incendiadas, mais uma em Debari e uma outra em Murudikupuda. Ontem (15 de Setembro), perto de Raikia, um cristão foi morto” (AsiaNews, 16 de Setembro de 2008).
Após a violência cega dos primeiros dias, os grupos fundamentalistas começaram a visitar os cristãos para os forçar a assinar uma declaração na qual afirmavam voltar “livremente” ao Hinduísmo. A recusa levaria ao espancamento e a ter a casa incendiada. Por vezes, segundo declararam fontes ao AsiaNews, como um símbolo da sua “nova vida”, os cristãos eram forçados a queimar as igrejas e as casas de outros cristãos. Como símbolo da sua reconversão, as suas cabeças foram rapadas como as dos sadhus (ascetas hindus), ou foram forçados a submeterem-se ao poder da purificação que advém da ingestão de urina de vaca.


Com o passar dos tempos, as destruições tornaram-se mais “inteligentes”. Em vez de incendiarem casas, os fundamentalistas esvaziavam-nas dos seus conteúdos, mobílias e outros bens, despedaçando-os. Deste modo, as famílias cristãs ainda ficariam empobrecidas mas não podiam reivindicar indemnizações do Governo, pois esta estava reservada para as vítimas de incêndio premeditado. Isto era também muito mais útil para os fundamentalistas, uma vez que, pela lei da Índia, o incêndio premeditado é punido com penas mais severas (em termos de anos de prisão) do que a destruição de artigos domésticos (AsiaNews, 9 de Setembro de 2008).


Em todo o caso, a violência e os assassinatos continuaram sem pausas. No dia 20 de Setembro, foram assassinados e cortados em pedaços Iswar Digal e Purinder Pradhan. Iswar Digal era oriundo da aldeia de Gatringia, no distrito de Kandhamal; foi apanhado no dia 20 de Setembro por um grupo de extremistas hindus quando ele e a sua mulher estavam a tentar fugir para um campo de refugiados. A casa deles foi incendiada. A outra vítima era de Nilungia. O corpo dele foi cortado em pedaços, posto num saco de juta e lançado numa lagoa.


No dia 25 de Setembro, vários incidentes aconteceram em Raikia, Tikabati e G. Udayagiri, distrito de Kandhamal. Grupos de radicais hindus fizeram um cordão com árvores derrubadas em dezenas de ruas, para dificultar o acesso à zona por parte da polícia. Deste modo, eles poderiam continuar com o pogrom anti-cristão.
Naquele mesmo dia na aldeia de Sirsipanga, fundamentalistas hindus incendiaram várias dezenas de casas cristãs. Um grupo de cristãos reagiu e entrou em confronto com os atacantes; a polícia não interveio. Duas pessoas foram feridas, uma com gravidade acabaria por falecer mais tarde no hospital. De acordo com o jornal The Hindu, o homem que morreu era um dos fundamentalistas; o outro ferido era um cristão. Porém, o Times of India citou um polícia que declarou que o homem que morreu era cristão.
Cerca das 23h no dia 25 de Setembro, uma multidão de cerca de 700 pessoas encheu as ruas, violando o recolher obrigatório imposto pelas autoridades. Armados com machados, espadas e barras de ferro, atacaram e incendiaram a casa das Missionários da Caridade, que então se encontrava vazia, na aldeia de Sukananda. O edifício, na posse das Irmãs da Madre Teresa de Calcutá, foi destruído por fanáticos hindus; assim como tudo o resto da propriedade adjacente de cerca de 2 hectares. A igreja local sofreu o mesmo destino, pois a fúria dos atacantes durou até cerca das 2h da madrugada.


Às quatro da madrugada do dia 30 de Setembro, membros de organizações radicais hindus invadiram as aldeias cristãs de Rudangia, Telingia e Gadaguda, todas no bloco G. Udayagiri. As pessoas foram atacadas, ainda enquanto dormiam, com machados, paus, lanças e facas. Uma mulher cristã, Ramani Nayak, foi morta mas o seu marido e as duas filhas conseguiram escapar. Foram feridas cerca de dez pessoas. Depois de forçar os residentes a fugir, os atacantes invadiram as casas e usaram coquetails Molotov para as incendiar.


Lalji Nayak vivia em Rudangia. Foi torturado para o forçarem a renunciar à sua fé cristã, mas morreu no dia 1 de Outubro em consequência das lesões sofridas. O Padre Manoj Nayak, da residência do bispo em Bhubaneswar, declarou, “eles [os assaltantes radicais hindus] colocaram-lhe uma faca no pescoço e ameaçaram-no de morte se não renunciasse ao Cristianismo, mas Lalji Nayak, embora estivesse a sangrar com gravidade, recusou abandonar a sua fé. Morreu no hospital no dia 1 de Outubro.”
No dia em que Lalji morreu, foram atacadas pessoas feridas dentro do hospital. O Padre Oscar Tete, superior dos Missionários de Caridade, o ramo masculino da Ordem da Madre Teresa, declarou à AsiaNews: “No dia 1 de Outubro, uma multidão entrou no Hospital Governamental de Berhampur, causando um tumulto. Vinham por causa das seis vítimas e só foram” impedidos de prosseguir mesmo antes de “atacarem esses seis pacientes. Os cristãos são agora alvos dentro do próprio hospital do Governo”.
Um grupo de extremistas hindus matou dois cristãos tribais, pai e filho, na noite de 2 para 3 de Outubro, na aldeia de Sindhupanka, distrito de Kandhamal. O nome do homem era Dushashan Majhi, e o do seu filho de 15 anos, Shyam Sunder Majhi. Os dois estavam a dormir no que restava da sua casa, destruída alguns dias antes por radicais hindus. Foram arrastados para o exterior e mortos com um machado.


Dushashan era o líder da comunidade cristã, muito respeitado e influente. Os grupos fundamentalistas têm agora como objectivo principal a eliminação dos líderes comunitários de modo a acabar com as actividades dos cristãos e pôr um fim ao que eles chamam de “conversões forçadas”.
Uma fonte local declarou à AsiaNews, “Dushashan era um importante líder comunitário e tinha-se candidatado às eleições para o conselho local da aldeia no ano passado. Recentemente, Dushashan apresentara queixa contra alguns extremistas que tinham incendiado uma igreja na aldeia durante a violência que se seguiu ao assassinato do Swami Lakshmanananda. [. . .] Estes fundamentalistas”, declarou a fonte, estavam decididos a “terem como objectivo atingir líderes cristãos influentes e eliminá-los de forma sistemática”.


No dia 7 de Outubro, dezenas de cristãos viram as suas casas serem atacadas e incendiadas na aldeia de Sukuli, distrito de Kalahandi (Orissa), que faz fronteira com Kandhamal. Também no dia 7 de Outubro, em Phiringia e Sujeli (G. Udayagiri), mais seis casas foram atacadas e destruídas. No dia 8 de Outubro, na aldeia de Balligada, foram saqueadas e em seguida incendiadas vinte e cinco residências cristãs.


Por causa da dificuldade em coligir os dados, os números oficiais tenderam a subestimar a extensão da violência. Porém, a partir de 20 de Setembro, o Conselho Cristão de Toda a Índia (CCTI) conseguira já recolher a seguinte informação sobre a violência desde que esta deflagrou no dia 24 de Agosto: cinquenta e nove cristãos mortos, 177 igrejas destruídas ou danificadas, 4.300 casas incendiadas, treze escolas e colégios destruídos, 50 mil refugiados em fuga e 18 mil feridos.
A destruição afectou o país inteiro. Em Orissa, foram destruídas 300 aldeias, 4.300 casas incendiadas, 50 mil pessoas ficaram sem casa; cinquenta e sete pessoas mortas, dez padres, pastores e religiosas feridos; duas mulheres violadas por grupos de malfeitores, 18 mil homens, mulheres e crianças feridos, 149 igrejas destruídas, treze escolas e colégios destruídos.


Em Karnataka, foram atacadas dezanove igrejas e vinte religiosas e leigas foram feridas. Em Kerala, “apenas” três igrejas foram danificadas, mais quatro em Madhya Pradesh. Em Nova Deli, destruíram apenas uma igreja, mas tentativas sem sucesso foram feitas contra mais quatro. Em Tamil Nadu, uma igreja foi atacada. Em Uttar Pradesh, foram assassinados um padre e uma funcionária administrativa.


No final de Novembro, o CCTI relatou que tinham sido assassinados pelo menos 118 cristãos. Aproximadamente 10 mil (especialmente Dalits e tribais) tinham sido forçados a procurar abrigo em campos de refugiados, impossibilitados de voltar para as suas casas, frequentemente destruídas, com medo dos extremistas hindus. Outras fontes sugeriram que o número de mortos estaria na realidade mais próximo dos 500, com muitos corpos a serem enterrados em campas sem marca ou cremados.


No início de Dezembro, o chefe do Governo do Estado de Orissa, em resposta a uma pergunta de legisladores, admitiu a enormidade da destruição que se seguiu à morte do Swami Lakshmanananda. Um relatório provisório assinalou que 4.215 casas e pelo menos 252 igrejas ou outros locais de culto tinham sido incendiados ou destruídos.
A polícia conseguiu pôr fim à maior parte da violência apenas em meados de Outubro; mas o problema deixara completamente de existir em Orissa ou noutras partes do país.
Em Tamil Nadu, uma igreja protestante em Coimbatore foi vandalizada no dia 1 de Outubro por grupos de militantes que partiram as janelas com pedras. No dia 12 de Outubro, a igreja de Santo António em Yedavanahalli, perto de Bangalore (Karnataka), foi incendiada.


No dia 22 de Outubro, grupos de fundamentalistas tentaram incendiar a Igreja da 'Pequena Flor' em Tikamgarh, Madhya Pradesh. No domingo, dia 19 de Outubro, em Gonikopa (distrito de Kodagu, Karnataka), quatro seminaristas da Sociedade Missionária Indiana foram atacados por uma turba de militantes do VHP. Como faziam todos os fins-de-semana, os seminaristas estavam a visitar as famílias dos trabalhadores dos cafezais. Acusados de “conversão forçada”, foram espancados e arrastados até uma esquadra da polícia. Só a intervenção do Bispo, Monsenhor Thomas Antony Vazhapilly, permitiu a sua saída em liberdade depois de muitas horas de detenção.


No dia 15 de Novembro, às 12h30, um grupo de vinte fundamentalistas hindus do VHP e grupos seus aliados entraram na 'Igreja de Deus' em Bhayander (Mumbai), muito perto da esquadra de polícia de Navgar. De acordo com depoimentos de testemunhas oculares, o grupo declarou que tinha informação específica sobre conversões que estavam a acontecer naquele local. Depois de gritarem ofensas e insultarem os presentes, começaram a espancá-los. Em seguida agarraram o pastor da igreja, o Reverendo Felix Fernandes, empurraram-no, arrancaram-lhe as roupas, espancaram-no até ele perder a consciência, e acabaram por deixá-lo na rua.


Os ataques continuaram também em Orissa. As autoridades locais não os conseguiram parar, dois meses depois de eles terem começado. O Padre Manoj Digal, responsável dos assuntos rurais do centro social da diocese de Cuttack-Bhubaneswar, declarou à AsiaNews (20 de Outubro de 2008) que “todas as noites, desafiando o recolher obrigatório imposto das 22h até às 5h da manhã, grupos de extremistas hindus vagueiam pelas aldeias nestas áreas remotas com lanternas, trazendo a destruição a todos os lugares por onde passam. Na noite de 19 de Outubro, várias casas que pertenciam a cristãos foram incendiadas na área de Ratingia e Kurmingia. As poucas casas que foram poupadas à destruição em Agosto foram agora completamente arrasadas”.


“Depois da destruição física e das vítimas humanas”, acrescentou o padre, era agora “a vez dos animais. Galinhas, cabras, búfalos e bois” foram “roubados. Em várias aldeias, depois da destruição das casas que pertenciam aos cristãos, os extremistas” mataram “as cabras e as galinhas e celebraram no meio das ruínas da aldeia cristã”.
Invasões semelhantes aconteceram no hospital dos Missionários de Caridade (a Ordem da Madre Teresa) em Srasananda. A instituição, que trata pacientes leprosos e com tuberculose, foi destruída por extremistas hindus em Dezembro de 2007. Parcialmente reconstruída, foi novamente atacada em Agosto.


Oscar Lete, o superior da casa, pôde visitar a aldeia e ver o que restava do hospital. “Desta vez”, declarou à AsiaNews, “os extremistas destruíram realmente tudo: colchões, travesseiros, persianas, portas, tudo foi destruído. Os animais domésticos foram roubados, assim como a nossa comida. Ficou tudo desolado e despojado”.
Nesta altura, uma mudança na estratégia estava a caminho. Erradicar completamente a presença de famílias e instituições cristãs da área. Ao destruir casas e todas as outras propriedades, ao saquear e matar o gado, fariam com que fosse altamente improvável que os cristãos voltassem para casa.


“Pelo menos 12 mil cristãos”, declarou o Padre Manoj, “abandonaram os campos de refugiados montados pelo Governo e migraram para os estados fronteiriços onde terão de começar uma vida nova com absolutamente nada, nem mesmo um documento de identificação. É uma tremenda tragédia humana, uma violação extremamente grave dos direitos humanos”.


Os ataques perpetrados pelos fundamentalistas hindus não só são brutais como também cirurgicamente precisos para extirparem o cancro cristão, segundo declarou o Monsenhor Thomas Thiruthalil, Bispo de Balasore e presidente do Conselho dos Bispos Católicos de Orissa, à AsiaNews no dia 11 de Novembro de 2008.
“A situação [em Orissa] é precária”, explicou o bispo. “As pessoas têm medo e o medo da violência paira em absoluto; além disso, as pessoas estão apavoradas com a hipótese das conversões forçadas ao Hinduísmo [. . .]. Os nossos sacerdotes estão a voltar lentamente às paróquias (ou ao que resta delas), mas também eles são perseguidos pelo medo. Eles são os alvos principais para eliminação ou reconversão por parte dos fundamentalistas hindus e os seus pais e famílias têm frequentemente sido compelidos a voltar ao Hinduísmo, forçados a rapar as cabeças e a beber água misturada com estrume e urina de vaca, e a executar cânticos hindus”.


No final de Novembro, uma fonte contou ao CCTI que os fundamentalistas hindus estavam a oferecer dinheiro, roupas ou outros bens de primeira necessidade àqueles que conseguissem matar os líderes cristãos, destruir as suas propriedades ou queimar as suas igrejas. Dependendo do alvo, eram oferecidos prémios diferentes. O “preço corrente” para um padre ou um pastor era de cerca de 170 Euros, confirmou Faiz Rahman, presidente da ONG Good News India. São também oferecidos alimentos, gasolina e bebidas alcoólicas. “Objectivos diferentes têm preços diferentes”, relatou a ONG britânica Release Internacional, reportando as palavras do porta-voz do CCTI, e estes podem variar “desde o assassinato à destruição de igrejas ou de propriedades cristãs”.


Uma consequência de tudo isto é que milhares de famílias partiram para outros estados. Os cristãos que insistiram em ficar em Orissa põem as suas vidas em risco. Por exemplo, duas cristãs foram mortas em Kandhamal no final de Novembro. Depois de ficarem num campo de refugiados, voltaram para casa na altura das colheitas, na expectativa de providenciarem comida para as suas famílias. Uma delas, Bimala Nayak, de 52 anos, foi atingida com um machado e lançada para a floresta. O corpo dela foi encontrado mais tarde, cortado em três pedaços, perto da aldeia de Gubria. Ela deixara o campo de refugiados de Nuagaon. A outra mulher, Lalita Digal, de 45 anos, foi morta em Dodabali no dia 25 de Novembro. Estava a viver no campo de refugiados de K. Nuagam e, no dia 21 de Novembro, foi até à sua aldeia para colher arroz, ficando com alguns amigos hindus. Testemunhas oculares disseram que ela foi arrastada e desapareceu em seguida.


Na noite de 25 para 26 de Novembro, as casas de duas famílias cristãs e a de um hindu foram incendiadas na aldeia de Tiangia, tendo este último também sido atingido porque ousou acolher cristãos. No dia 25 de Novembro, em Tiangia, a aldeia nativa do Padre Bernard Digal, as autoridades do distrito tinham reunido os residentes para celebrar um 'encontro de Paz', garantindo aos cristãos um regresso seguro aos seus locais de residência.


No dia 16 de Dezembro pelas 18h30, Yuvraj Digal foi assassinado. Catequista muito respeitado e líder cristão local, encontrava-se em casa com o filho da aldeia de Tikabali (Kandhamal). De acordo com declarações feitas pelo seu filho Bidyadhar, na proximidade da aldeia de Sitapanga eles cruzaram-se com “um grupo de cerca de cinquenta pessoas” que “o reconheceram, o fizeram parar, o insultaram e o espancaram impiedosamente”, acusando-o de estar envolvido no assassinato do Swami Lakshmanananda Saraswati. O filho conseguiu escapar; Yuvraj foi encontrado morto no dia 18 de Dezembro.


Apesar do posicionamento estratégico das forças de segurança para prevenir incidentes, em Kandhamal as tensões permaneceram elevadas durante o Natal de 2008. Os ataques continuaram. No dia 23 de Dezembro, duas pequenas lojas na cidade de Sugadabadi foram incendiadas. O mesmo aconteceu no dia 26 de Dezembro a um centro cristão na aldeia de Bakingia. Em várias aldeias, a missa da meia-noite foi celebrada à tarde de modo a que os participantes não tivessem que viajar de noite. Nos campos de refugiados, mais de10 mil pessoas desalojadas celebraram o Natal sob protecção do exército.


O início de 2009 não foi melhor do que o começo de 2008. Nas primeiras horas de 1 de Janeiro, extremistas hindus incendiaram a Igreja do Deus Ressuscitado, no distrito de Davangere (Karnataka), e ameaçaram o pastor (Fonte: Christian Legal Association).
Até esta altura, nada tinha sido feito para encontrar e castigar os culpados dos milhares de ataques, das destruições perversas, dos espancamentos e assassinatos que começaram em Agosto, frequentemente na presença de todos.
Com o passar dos meses, os líderes comunitários cristãos denunciaram uma e outra vez a falta de interesse das autoridades não só na prevenção da violência, mas também em encontrar e processar os que a causaram ou em ajudar as dezenas de milhares de vítimas confinadas a campos de refugiados sem condições adequadas de saneamento ou de alimentação.


As queixas sobre a violência de Dezembro de 2007 tinham sido registadas mesmo antes do início da violência em Agosto. No dia 20 de Março, o Arcebispo Vincent Concessao, muitos deputados e líderes de grupos religiosos desfilaram em Nova Deli, desde Jantar Mantar até ao edifício do Parlamento, exigindo justiça para as vítimas.
Mais tarde, em Maio, o Irmão Oscar Tete, superior local dos Missionários da Caridade em Shanti Nivas, um centro cristão no distrito de Kandhamal, denunciou a falta de interesse das autoridades de Orissa. Na realidade, os serviços de telefone e de electricidade ainda não tinham sido restabelecidos no campus cristão no distrito de Kandhamal e os purificadores de água continuavam sem ser reparados (AsiaNews, 12 de Maio de 2008).


Em Agosto, o Monsenhor Raphael Cheenath, Arcebispo de Cuttack-Bhubaneswar, em Orissa, fez declarações imediatamente antes da onda de violência. Ele afirmou, “O Governo central deu-nos garantias de que receberíamos uma indemnização, mas até agora tudo o que recebemos foi 1,6 milhões de rupias indianas (cerca de 23.300 Euros) para reconstruir os nossos dispensários, os centros informáticos, etc. O valor total dos danos anda à volta de pelo menos 30 milhões de rupias. Mas a destruição de igrejas, conventos e outros edifícios religiosos não conta para as autoridades (AsiaNews, 20 de Agosto de 2008)”.


Quando a violência anti-cristã recomeçou, a polícia pareceu estar mais desprevenida do que indiferente em relação à escala da violência. Na realidade, quando tentou intervir, transformou-se num alvo para os atacantes. Em Setembro, em Krutamgarh (Kandhamal), a polícia abriu fogo contra militantes hindus para os impedir de incendiar algumas casas cristãs. Alguns dias mais tarde, na noite de 15 de Setembro, uma turba de cerca de 500 hindus dirigiu-se num frenesim a uma esquadra da polícia local onde incendiaram vários veículos. Um polícia foi morto.


Dada a escalada de violência, o exército poderia ter sido chamado, mas não o foi porque as autoridades locais subestimaram a gravidade da situação durante semanas a fio. Os meios de comunicação social nacionais e internacionais embarcaram na mesma onda e deram ao genocídio em progresso uma escassa cobertura, com a excepção de alguns artigos dispersos que viram a violência em termos de uma série de incidentes isolados.


Mais ainda, ao abrigo da lei indiana, o Governo central em Nova Deli não pode intervir directamente nos assuntos locais dos estados indianos a menos que um pedido seja feito pelo Governo do estado. Sendo assim, as autoridades de Orissa estavam livres para gerir a situação do modo que achassem mais apropriado.
Por esta razão, Abraham Mathai, vice-presidente da Comissão de Minorias Maharashtra, exigiu que Orissa fosse colocado sob jurisdição presidencial directa. Numa declaração feita no dia 25 de Setembro de 2008, disse, “A violência em Kandhamal dura há 45 dias, sem pausas e sem empecilhos por parte da estrutura do estado. Será que devemos proclamar este estado enquanto cúmplice ou enquanto patrocinador de actos de terror provocados por multidões?”


Na sua maneira de ver, “com um aumento [na] anarquia e um Governo estatal impotente e disfuncional, o único modo de conter esta situação é invocar o Artigo 356 e demitir o Governo de Orissa e entregar a administração ao exército. . . . A inacção do Governo do estado de Orissa para conseguir conter, até agora, a violência, apenas incentivou estas forças comunais a levarem a cabo ataques semelhantes em outros estados como, por exemplo, Karnataka, Chattisgarh, Madhya Pradesh, Kerala, etc”.
A situação era tal que, no dia 4 de Janeiro de 2009, o Supremo Tribunal da Índia, em resposta a uma petição feita pelo Monsenhor Raphael Cheenath, Arcebispo de Cuttack-Bhubaneswar, pediu ao Governo de Orissa para aumentar as medidas de segurança para proteger os cristãos. O Tribunal foi mais longe e criticou o Estado por não intervir quando o pogrom começou no fim de Agosto.

O destino da Irmã Meena Barwa, de 29 anos, uma religiosa que foi violada no dia 25 de Agosto em Baliguda, tornou-se um símbolo da posição vacilante das autoridades de Orissa e a da sua tentativa de encobrir a questão da perseguição. Depois de ser atacada, a religiosa foi lesta em apresentar uma queixa na qual identificou alguns dos seus atacantes. As médicas que a examinaram na noite do estupro elaboraram um relatório que substancia o crime.
Ainda assim, a polícia inicialmente nada fez, pelo menos até que os jornais indianos começaram a publicar histórias sobre a violência hindu contra mulheres, e em especial este caso de violação. No dia 1 de Outubro, mais de um mês depois do incidente, três activistas hindus, Mitu Patnaik, Saroj Ghadai e Munna Ghadai, foram presos. Todos eles provenientes de Baliguda (Orissa).


No dia 3 de Outubro, 38 dias depois de os factos acontecerem, Naveen Patnaik, o chefe do Governo do estado de Orissa, pronunciou-se contra o acto “selvagem” e “vergonhoso”. O inspector principal da esquadra da polícia de Baliguda foi suspenso. Porém, os meios de comunicação social e as organizações fundamentalistas iniciaram uma campanha para minimizar o incidente. Enquanto o líder do BJP, Advani, condenou o acto como “um crime vergonhoso”, os líderes de outros grupos fundamentalistas associados, como o Bajrand Dal, exprimiram “suspeitas”, sugerindo que a religiosa poderia ter “consentido”. De modo semelhante, uma multidão de pelo menos 5 mil mulheres hindus radicais participou num protesto no dia 12 de Outubro em K Nuagaon no qual reivindicaram que, em caso de violação, o “violador tem de casar com a vítima” por respeito à tradição.
Numa declaração pública depois de dois meses de silêncio, a Irmã Meena leu uma declaração na qual pedia justiça. Nesta ocasião, referiu que a polícia foi “muito afável com os violadores” e que não acreditaram nela. Ela não ligou. “Narrei tudo em detalhe à polícia, o modo como fui atacada, violada, levada para longe da polícia, como me fizeram desfilar meia nua e como os polícias não me ajudaram quando eu pedi ajuda chorando amargamente. . . Tiveram medo de nos manter na esquadra da polícia, dizendo que a multidão poderia atacar a esquadra da polícia”.

Violência como esta conduziu a uma reacção por parte da Igreja Indiana. Alguns dos seus líderes mais proeminentes manifestaram-se contra os acontecimentos, explicando que a religião não era o único motivo, sugerindo que, pelo contrário, factores políticos mais subtis estariam em jogo.
“Manter os marginalizados na ignorância e na pobreza para os continuar a explorar”, declarou o Padre Cosmon Arockiaraj numa entrevista à AsiaNews (11 de Janeiro de 2008). Para o secretário executivo da Comissão das Castas e Tribos Identificadas (CCTI) da Conferência Episcopal Católica da Índia, o verdadeiro objectivo da violência era o desejo de parar o trabalho de desenvolvimento da Igreja com os Dalits.


O clérigo afirmou que a maioria das propriedades que sofreram ataques pertencia a Dalits e a Tribais em “Phulbani e Kandhamal, áreas largamente habitadas por residentes de castas inferiores em vez de áreas em grandes cidades como Cuttack e Bhubaneswar, lugares de prestigiadas escolas cristãs”.
Para o Padre Arockiaraj, “os que monopolizam os negócios no estado não querem ver Dalits e Tribais serem alfabetizados e desenvolvidos economicamente porque assim poderiam sair da sua ignorância e da sua pobreza, e deste modo seriam explorados menos facilmente” pelas castas superiores. Por contraste, a Igreja “trata estas pessoas com dignidade, oferecendo aos marginalizados uma educação e formação profissional através das suas escolas rurais e albergues”. Dá-lhes deste modo um pouco de esperança num futuro melhor e um maior conhecimento dos seus direitos.


Peritos referiram que a violência durante a época de Natal de 2007 parecia ser organizada. Centenas de hindus radicais não se juntaram “espontaneamente” longe de casa, armados com espadas, paus e espingardas para se embrenharem em comportamentos violentos. Para o Padre Augustine Kanjamala, um clérigo verbita que ensina na Universidade de Mumbai, a violência foi ainda mais bem organizada em Agosto.


Quando ocorreram ataques simultâneos em 35 lugares diferentes no estado de Orissa, sem resistência no primeiro dia (25 de Agosto) de uma longa onda de violência, só poderiam fazer parte de um plano organizado dirigido aos cristãos e às suas instituições. Quando os radicais hindus fizeram um apelo para uma greve geral em Orissa dois dias depois do assassinato do swami, no dia 23 de Agosto, eles demonstraram uma elevada capacidade de organização num espaço de tempo muito curto.
“Com 40% da população composta por Tribais e Dalits (expatriados), Orissa é um dos estados mais subdesenvolvidos do país”, declarou o Padre Kanjamala. “O distrito de Kandhamal, que assistiu a elevados níveis de violência anti-cristã na última década, é também o local onde um número significativo de conversões cristãs teve lugar durante o mesmo período. Assim como os Dalits que adoptam o Cristianismo alcançam o progresso sócio-económico, muitos Tribais seguiram o mesmo caminho nos tempos mais recentes. Deste modo, enquanto a população cristã de Orissa representa menos de 2%, a população cristã no distrito duplicou na última década alcançando a marca dos 5%. Isto explica todo o rancor contra os cristãos”.


“Um outro factor gera também oposição aos cristãos. Torna-se cada vez mais claro que, onde os missionários cristãos actuam, acontecem importantes mudanças sociais. As pessoas desenvolvem-se, agem e vivem com maior dignidade. Assim, como resultado da educação, mesmo a educação básica, os Tribais e os Dalits já não se encontram disponíveis para serem usados como mão-de-obra barata na agricultura. O seu sentido de dignidade e a sua educação deu-lhes a coragem para protestar contra a exploração e a opressão” (AsiaNews, 28 de Agosto de 2008).


O Padre Nithiya, secretário-geral da Comissão Indiana para a Justiça e Paz, acredita também que o VHP e o Bajrang Dal estavam a tentar forçar os cristãos a converterem-se em hindus. “Este plano”, declarou ele, “não têm apenas motivos políticos, mas faz parte de um esquema para eliminar os cristãos da face de Orissa”, declarou o padre.
Na sua opinião, existiu um plano real com diferentes fases, que incluía ameaças contra os Dalits e Tribais de modo a que eles se convertessem ao Hinduísmo depois de um determinado tempo.


“No dia da conversão, os cristãos têm de assinar um documento no qual admitem que escolheram converter-se livremente. Se se recusarem a assinar, são torturados e mortos. Mesmo se se tornarem hindus, têm ainda de pagar uma multa entre 1.000 e 1.500 rupias (cerca de 15 a 22 Euros)”. Os que se recusam a tornar-se hindus são destituídos de todos os seus bens mundanos (casas, terrenos e mais), ou ainda pior.


O que é mais relevante é o facto de que a violência foi perpetrada em pleno dia, em cidades, nas estradas principais, com um nível de arrogância que apenas um sentido de impunidade pode providenciar.


O Sangh Parivar (uma organização aglutinadora para grupos hindus militantes) iniciou mesmo a “purificação” dos terrenos onde as casas e as igrejas cristãs estavam antes de serem queimadas em Agosto, relatou o CGCI. As fundações foram destruídas e os respectivos buracos preenchidos; os sinais de marcação das fronteiras entre os campos foram retirados dos terrenos de cristãos, que foram em seguida divididos entre os membros do grupo.
“O seu objectivo é usar meios fraudulentos para se apropriarem das propriedades cristãs”, declarou o presidente do CGCI, Sajan K George, “demonstrando que não existia nenhuma presença cristã, nenhuma casa cristã, nenhuma igreja cristã. Estou preocupado com a possibilidade de eles poderem começar a construir templos hindus em terrenos onde antes existiram casas e igrejas cristãs”. Ao fazê-lo “os radicais hindus querem esconder da opinião pública as provas da sua brutalidade contra pessoas inocentes agora que os indianos viram o que os seus ataques fizeram”.


O Governo de Orissa (liderado por partidos nacionalistas hindus) demonstrou o seu preconceito anti-cristão quando disse que desafiaria uma promessa feita pelo primeiro-ministro Indiano, Manmohan Singh, que foi corroborado pelo Supremo Tribunal, de providenciar ajuda na reconstrução das igrejas destruídas. E fê-lo declarando que “dar indemnizações a instituições religiosas é contra as políticas seculares do estado”, quando na realidade a sua recusa é delineada de modo a satisfazer os desejos dos grupos fundamentalistas que juraram não permitir a reconstrução de quaisquer das igrejas destruídas durante os dias de violência.


Para os cristãos, a provação não terminou quando se fixaram nos campos de refugiados. Pelo menos 50 mil pessoas colocaram-se em fuga por causa da violência de Agosto. Exceptuando as roupas que vestiam, muito poucos conseguiram levar consigo qualquer coisa de valioso quando fugiram para a floresta. Esta afluência de pessoas em larga escala conduziu à abertura de mais campos, enquanto que os que foram montados para lidar com a primeira onda de refugiados criada pela violência do Natal de 2007 foram ampliados.
Mesmo assim, como explicou Sajan George, grupos fundamentalistas hindus entraram nos campos à força para intimidarem os refugiados e para “os reconverter ao Hinduísmo” (AsiaNews, 13 de Setembro de 2008).


“Os cristãos estão a ser tratados como animais”, declarou o Padre Ajay Singh, director do Jan Vikas, um centro para a acção social gerido pela diocese de Cuttack-Bhubaneswar. “Deram-lhes apenas um cobertor por família e os serviços de saúde pública e de higiene são simplesmente inexistentes. Mas o que é mesmo mais trágico é o facto de que eles não são sequer autorizados a rezar e, pelo contrário, são vigiados de perto pelas forças de segurança. As mulheres estão particularmente vulneráveis; não lhes é permitido obter qualquer espécie de aconselhamento, de modo que a sua saúde emocional está a deteriorar-se rapidamente” (AsiaNews, 16 de Outubro de 2008).
A situação não é muito melhor para os padres e irmãs que, uma vez dentro dos campos de refugiados, tiveram de se disfarçar e evitar falar sobre religião com medo de vinganças por parte dos fundamentalistas hindus. Em vez de proteger as actividades religiosas, a polícia manteve-se atenta nos campos para se assegurar de que nenhuma actividade religiosa aconteceria de facto.


“Estou aqui como parte da equipa médica”, declarou uma religiosa no campo de Raikia (distrito de Kandhamal). “Se as autoridades descobrem que somos religiosas, mandam-nos embora. Estou aqui vestida com roupas étnicas, usando pulseiras, brincos e até mesmo a 'tikka'; deste modo, estamos disfarçadas. As mulheres encontram-se gravemente traumatizadas. Infelizmente, nós só podemos falar com elas sobre os problemas médicos; não podemos, sequer, aconselhá-las, pois estamos a ser continuamente vigiadas” (AsiaNews, 22 de Setembro de 2008).


Além disso, tais campos têm falta de tudo; os refugiados não podem trabalhar; e as crianças não podem ir à escola. Para o Governo de Orissa, estes campos tiveram de ser fechados o mais cedo possível.


O Padre Manoj Digal, do centro de serviço social da arquidiocese, declarou à AsiaNews, no dia 18 de Outubro de 2008, que “Um dos três campos de ajuda em Baliguda foi encerrado no dia 15 de Outubro e 900 pessoas foram mandadas embora. É ridículo. Estas pessoas não têm nenhum sítio para onde ir, estão indefesas; além disso, apenas lhes deram 10 kg de arroz por família. Como irão elas viver? O Governo não lhes deu sequer tendas: onde irá ficar a nossa gente? Perderam tudo e estão reduzidos a nada, ainda para mais. O medo iminente da reconversão ao Hinduísmo significa que, se voltarem às suas aldeias, apenas aí podem ficar se forem hindus”.
Por fim, muitos refugiados tiveram que deixar Orissa e ir para outros estados. Milhares de cristãos saíram dos campos de refugiados, não para irem para casa, mas para se mudarem para outro lugar, não levando nada com eles.


Representantes do Partido Comunista da Índia-Marxista-Leninista (CPI-ML) visitaram as áreas afectadas nos dias 15 e 16 de Outubro, inclusive os campos de refugiados. J P Minz escreveu sobre o que viram na edição de Novembro de 2008 do Liberation.


Ao contrário do que declarou o Governo, de que quinze campos de refugiados, com 12.641 pessoas, tinham bastantes alimentos, medicamentos e escolas para crianças, o grupo que visitou os campos de Phulbani, Tikabali, J Udaygiri e Rakiya constatou a existência de rações inadequadas, falta de medicamentos, e nenhuma ajuda para as mulheres grávidas. Descreveu uma situação na qual os cristãos estavam a viver numa atmosfera de terror, com medo de voltarem para as suas aldeias.


À luz da situação, Sajan K. George solicitou às Nações Unidas que fizessem algo sobre a decisão do Governo de Orissa de fechar os campos de refugiados no distrito de Kandhamal.
Numa carta enviada às Nações Unidas, Sajan escreveu, “O New York Times no dia 3 de Setembro de 2008 relatou que tinham sido destruídas ou danificadas 1.400 casas e 80 igrejas. Os números reais em Orissa são mais do dobro. … Dezenas de milhares estão sem casa, morando nas florestas ou em campos de ajuda do Governo, onde as condições de vida são desumanas, destituídos de alimentos e dos medicamentos básicos, situação que causa muitas mortes. A comunidade cristã parece ter perdido toda a fé no Governo para proteger a vida e a propriedade dos seus cidadãos, especialmente quando diz respeito à minoria cristã que constitui uns meros 2,5% da população do país”. “Por esta razão, os cristãos de Orissa expressam o desejo de serem considerados refugiados Prima Facie [. . .] para que possam estar cobertos por uma moldura legal para proteger a sua dignidade humana de violações de direitos e de maus-tratos. Actualmente, eles, em conjunto com dezenas de milhares, são um povo sem pátria, pois as leis do Governo da Índia não são aplicadas no estado de Orissa. Precisam de alimentos, de abrigo e de medicamentos”.


Sem se deixar intimidar, o Governo de Orissa começou a fechar os campos de refugiados, mandando embora as pessoas com pequenas somas de dinheiro: 10 mil rupias (cerca de 147 Euros), 50 kg de arroz e um rolo de polietileno para consertarem as suas casas danificadas da melhor maneira possível. Muitos conseguiram voltar às suas aldeias para viver no meio das ruínas do que fora outrora a sua casa, usando folhas de plástico como telhado e alguns pedaços de madeira ou uma planta como paredes. No entanto, o problema principal permaneceu, isto é, como proteger os que fugiram temendo pelas suas vidas, agora que estão de volta à aldeia onde foram alvo de perseguição.
Uma resposta surgiu de Kesamati Pradhan, um residente da aldeia de Kajuri que, em conjunto com outras vítimas, apresentou uma queixa no Supremo Tribunal de Orissa contra o facto de se forçarem as vítimas de Kandhamal a evacuar os campos de ajuda sem “as adequadas medidas protectoras para a sua vida, sem assistência e sem compensação pelos danos sofridos”.

Católicos
Na manhã de 22 de Setembro, o Padre Samuel Francis, mais conhecido como Swami Astheya (aquele que não sente ganância), foi encontrado morto na capela do seu ashram na aldeia de Chota Rampur, a 27 km de Dehradun, na diocese de Suffragan da arquidiocese de Agra. As mãos foram amarradas atrás das costas, a boca amordaçada e a testa exibia sinais de ferimentos.


Para a polícia, um roubo que correu muito mal não podia ser excluído como uma possível causa do crime, mais ainda porque o ashram foi saqueado e uma mulher que sofria de problemas psicológicos foi encontrada morta no seu armazém.


As tentativas de usar a lei como uma ferramenta de perseguição não pararam por toda a Índia. Os cristãos continuam ainda a ser presos acusados de converter pessoas sob falsos pretextos ou por violência sexual.


No dia 12 de Fevereiro, por exemplo, em Madhya Pradesh, duas meninas, de 12 e 15 anos respectivamente, acusaram o Padre Joseph Kappiliparampil de assédio e abuso. Ambas estavam a viver num albergue para raparigas, gerido pelo padre católico em conjunto com uma escola. Fontes locais disseram que as duas não gostavam de algumas das regras rígidas impostas pelo padre e pelas irmãs que o ajudavam. Isso não impediu um grupo de cerca de 300 nacionalistas hindus, em conjunto com activistas do Bajrang Dal, de atacar o albergue, deter o padre e, depois de o maltratarem, terem feito com que ele e uma das irmãs fossem presos.


Para o Padre Hans Puthiakulangara, porta-voz da diocese de Ujjain, as organizações fundamentalistas tentam exercer influência sobre as crianças para conseguir que elas “difamem a Igreja”. O Arcebispo Leo Cornelio, o Bispo Sebastian Vadakel da diocese de Ujjain e o Conselho Episcopal de Madhya Pradesh e Chattisgarh condenaram o uso das jovens para manchar a reputação do padre e desacreditar a Igreja. “É o método mais odioso e desavergonhado de que as organizações fundamentalistas fazem uso para se afirmarem (AsiaNews, 14 de Fevereiro de 2008)”. As igrejas e as escolas da diocese pararam as suas actividades regulares em protesto, e uma delegação foi falar com o governador para exigir justiça.


A polícia está também numa situação particularmente difícil em relação aos cristãos. Tal foi perfeitamente visível num incidente recente. No dia 7 de Março, um grupo de Dalits cristãos do distrito de Villupuram (Tamil Nadu) entrou em greve de fome para protestar contra a discriminação no seio da sua paróquia por parte de membros de uma casta superior, a Vanniyar.


Três meses antes, Dalits da igreja de São Jabamalai Annai, em Earyur, tinham construído uma igreja chamada Saghaya Madha (Nossa Senhora do Salvamento Perpétuo) e pediram que lhes fosse permitido criar a sua própria paróquia, separada e com um pároco próprio.
Dois grupos políticos, o Viduthalai Chiruthaigal Katchi (VCK) e o Ambedkar Makkal Iyakkam (AMI) apoiaram esta reivindicação. O VCK afixou mesmo cartazes que pediam o fecho de São Jabamalai e o reconhecimento da nova paróquia.


Cerca de 500 cristãos da casta superior responderam a tais exigências criando um alvoroço, atacando Dalits e incendiando mais de trinta cabanas habitadas por Dalits.
A polícia disse que quando tentaram intervir para parar o protesto foram atacados com pedras e por isso foram “forçados” a abrir fogo contra os agressores. M Periy Nayagam, de 40 anos, e A. Magimai, de 24 anos, foram mortos e mais de quarenta pessoas ficaram feridas.
Para o secretário do CCTI, Padre G Cosmon Arockiaraj, devem ser proibidas todas as formas de discriminação infligidas aos Dalits cristãos, tanto no seio da comunidade cristã como na sociedade em geral.


Porque “a comunidade cristã é entendida como sendo uma entidade una”, explicou, “o Governo não reconhece para os Dalits cristãos os mesmos direitos dos outros Dalits”.
No sistema de castas indiano os estados concederam benefícios específicos e estabeleceram cotas favoráveis em escolas e no serviço público para os Dalits de modo a compensar pelos vários séculos de posição social inferior” (AsiaNews, 10 de Março de 2008). “Na Índia, mais de 65% de todos os cristãos são Dalits, mas os cristãos representam apenas 2,3% de uma população de 1,1 mil milhões de pessoas”.


Na noite de 12 de Novembro, três cristãos foram presos sob a acusação de “induzirem” a conversão de alguns residentes de um subúrbio de Bangalore. Os líderes das associações cristãs iniciaram rapidamente uma campanha para os conseguir libertar.


De acordo com uma informação prestada por líderes cristãos em Karnataka ao Conselho Cristão de Toda a Índia (CCTI), um homem, Chandrashekhar, e duas mulheres, Kamlamma e Sandhya, foram convidados para a casa da irmã do homem, no bairro de Jeevanahalli em Bangalore, para rezarem pela saúde do filho dela. Quando deixaram a casa no final de uma vigília, foram abordados por um grupo de cerca de quinze militantes do Bajrang Dal, a ala jovem do VHP. Os fanáticos espancaram o homem e depois chamaram a polícia, acusando os três de induzirem um grupo de habitantes à conversão. Um homem de negócios confirmou as falsas acusações perante a polícia de Fraser Town.
De acordo com a irmã de Chandrashekhar, ela chamou-o para rezar pela saúde do seu filho doente e rejeitou tais acusações como sendo “infundadas”. Sam Paul, secretário para os assuntos públicos do CCTI, declarou, “Este é um de muitos exemplos de cristãos que são falsamente acusados de conversões forçadas por forças Hindutva. Eles são, obviamente, inocentes. A triste realidade é que, na Índia de hoje, o assédio legal de cristãos inocentes é um lugar-comum”.
Entretanto, na noite de 11 de Novembro, a igreja católica na aldeia de Tiangia, onde o Padre Bernard Digal nasceu, foi totalmente arrasada. A igreja, que tinha escapado a um anterior episódio de violência porque ainda se encontrava em construção, ia ser inaugurada em breve.

Em alguns Estados indianos, a liberdade religiosa é restringida por leis “anti-conversão”, adoptadas sob a influência do hiper-nacionalismo hindu. Ostensivamente, estas leis são criadas para proteger a liberdade de consciência mas, na realidade, elas descriminam os cristãos e outras religiões em favor do Hinduísmo.
A conversão do Hinduísmo para outras religiões é proibida e castigada porque o Hinduísmo é considerado a religião “natural” do povo indiano. Isto significa que os cristãos e os muçulmanos não podem ser “convertidos” ao Hinduísmo, mas devem ser autorizados a re-adoptar a religião dos seus antepassados.
Baseadas em tal pretexto, estas leis são usadas como um instrumento cego para ataques durante cerimónias de baptismo ou contra pessoas acusadas de proselitismo. Dão também à polícia uma desculpa para prender ou apresentar queixas contra os padres e os crentes.
Em Gujarat, em Março de 2008, o governador recusou-se a assinar uma controversa lei sobre a liberdade religiosa (na realidade uma lei anti-conversão) aprovada pela legislatura local em 2006, com o fundamento de que era “discriminatória” para com as minorias religiosas.
A legislatura estatal reintroduziu uma versão mais antiga que aprovara em 2003. Para efeitos da lei, os jainistas e os budistas foram classificados como hindus, enquanto os católicos e os protestantes foram definidos como cristãos.
A lei anti-conversão de Gujarat de 2003, que nunca foi implementada, tinha como objectivo impedir as conversões do Hinduísmo ao Cristianismo. Sob as suas condições, se um hindu quiser tornar-se cristão, ele ou ela tem de informar primeiro um magistrado do distrito para obter a sua autorização. Caso contrário, a conversão não é válida.
Ainda em Março de 2008, a Assembleia Legislativa do Estado Ocidental de Rajastão adoptou uma nova lei anti-conversão depois de dois anos de intensas deliberações. A nova lei proíbe conversões obtidas pela “força, coerção ou fraude”. Qualquer indivíduo considerado culpado de tal contravenção pode ser condenado a cinco anos de prisão e a uma multa de 50 mil rupias (cerca de 737 Euros).


Um primeiro esboço da lei passou na Legislatura Estatal em 2006, mas o governador estatal, Pratibha Patil, recusou-se a assiná-la, mandando-a de volta à assembleia para ser reformulada. Tal acção não provocou nenhuma mudança significativa.
Além de Rajastão, cinco outros estados indianos aprovaram leis anti-conversão: Arunachal Pradesh, Gujarat, Madhya Pradesh, Chhattisgarh e Himachal Pradesh.
Se havia alguma dúvida sobre a natureza descaradamente discriminatória da lei, a massiva reconversão de milhares de cristãos ao Hinduísmo providencia a prova necessária. No dia 27 de Abril de 2008, numa recente e altamente publicitada e extravagante cerimónia que atraiu muitos meios de comunicação social locais, foram reconvertidos 1.793 tribais cristãos ao Hinduísmo, em Borivli (Mumbai), e sob os auspícios do líder hindu, Swami Narendra Maharaj. De acordo com Maharaj que conduziu o ritual do shuddikaran (purificação), foram reconvertidas 42.200 pessoas nas áreas tribais de Maharashtra e Gujarat.
Mais ainda, ele acusou os cristãos de usarem métodos de “sedução e enganosos” para converter os hindus, insistindo que é necessária “uma lei anti-conversão”, porque “ninguém deveria ser convertido, qualquer que fosse a sua religião”. Por esta razão, criticou os partidos políticos que “se recusaram a tomar uma posição firme sobre a lei de conversão do Governo” e expressou a esperança de que um “grupo de pressão” poderia ser criado para proteger os “interesses” hindus.
No dia 14 de Abril, na cidade de Tirunelveli (Tamil Nadu), outros mil Dalits cristãos foram devolvidos à fé hindu. Os organizadores do evento declararam que planeiam reconverter mais cerca de 20 mil cristãos em Villupuram durante os próximos meses.


O que aconteceu no dia 5 de Setembro, aniversário da morte da Madre Teresa de Calcutá, é ainda mais indicativo do que está a acontecer. Naquele dia, activistas do Bajrang Dal atacaram quatro irmãs Missionárias da Caridade numa estação de comboios em Durgh, no estado indiano central de Chhattisgarh, acusando-as de “rapto e de conversão forçada” de quatro crianças de um e dois anos de idade, as quais as irmãs estavam a transportar desde a casa delas em Raipur para o centro de caridade Shishu Bhava em Bhopal.
Os radicais hindus forçaram as religiosas a sair do comboio e entregaram-nas à polícia entoando durante todo o tempo slogans anti-cristãos. As irmãs mostraram à polícia os documentos de identificação das crianças e as suas autorizações de viagem, e ainda documentação adicional trazida mais tarde por outras religiosas da casa do grupo em Bilaspur.
Apesar dos documentos, as crianças foram-lhes retiradas e alojadas temporariamente num hospital do Governo em Durgh. Ao mesmo tempo, as autoridades judiciais verificaram todos os papéis e documentos de identificação apresentados pelas Irmãs, que passaram a noite de 5 de Setembro na prisão, à espera que todos estes assuntos ficassem resolvidos.


Depois de alguns dias, quando foi provado que as acusações eram falsas, as crianças foram devolvidas às religiosas mas, em vez de processarem uma queixa contra os que tinham feito falsas acusações, a polícia ordenou às religiosas que não mencionassem o caso “para o seu próprio bem” porque os activistas hindus, frustrados pelo resultado, estavam a manipular a opinião pública contra elas.


Na realidade, o Sangh Parivar organizou uma manifestação pública contra o que apelidou de “tráfico de crianças pelas irmãs da Madre Teresa”. Tal fez com que a polícia colocasse o convento das Irmãs sob vigilância 24 horas por dia.

 

2007-2008 

Após a adopção da Constituição de 1950, a União Indiana tornou-se um Estado federativo. Actualmente é constituído por vinte e oito estados que gozam de considerável autonomia política e administrativa, para além de outros sete territórios administrados directamente pelo Governo central.

Leis Anti-Conversão
Apesar do Artigo 25º da Constituição garantir o direito a professar qualquer religião escolhida e o direito a mudar de religião, algumas leis “anti-conversão” ainda estão em vigor em muitos estados, impondo uma média de três a cinco anos de prisão, assim como pesadas multas, a quem se dedicar a “actividades relacionadas com a conversão”. Muitos peritos legais defendem que tais leis são constitucionalmente dúbias, dado que nenhum estado pode adoptar legislação que viole a Constituição Indiana. Para além disto, tais leis apenas se aplicam àqueles que convertem hindus a outras religiões e não a quem, por quaisquer outros meios, converta outros ao hinduísmo.

Leis semelhantes estão em vigor em estados como Orissa, Madhya Pradesh, Chhattisgarh, Arunachal Pradesh, Gujarat e Tamil Nadu. Neste último, a lei foi anulada graças a um decreto governamental, mas o mesmo foi deliberadamente ignorado pelas autoridades locais. Em 2006 e 2007, outras leis anti-conversão foram adoptadas e vários Governos locais e outras instituições públicas demonstraram, de forma mais aberta e sistemática, o seu apoio aos nacionalistas hindus que se opõem à liberdade religiosa.

Em Madhya Pradesh, estado governado pelo Partido Bharatiya Janata (BJP), dominado por hindus, a lei anti-conversão em vigor foi reforçada a 25 de Julho de 2006. Na sua forma actual e emendada, esta requer que qualquer pessoa deve assinar uma declaração diante de um juiz, indicando a intenção de se converter, pelo menos um mês antes da cerimónia de conversão; caso contrário, podem ser impostas uma multa de até 1.000 rupias e uma pena de prisão efectiva. Após esta fase inicial, a lei requer que a polícia “verifique as credenciais do sacerdote ou da organização” antes da realização da referida cerimónia, para garantir quer esta não é “realizada à força ou por meios de dissuasão”.
Por outro lado, qualquer padre ou pastor que não informe as autoridades da sua intenção de presidir a cerimónias de conversão pode ser multado em cinco mil rupias e enfrentar até um ano de pena de prisão. O nome e endereço de qualquer futuro convertido, assim como a data da cerimónia, devem ser fornecidos pelo sacerdote ou pelo responsável da cerimónia de conversão.

A 3 de Agosto de 2006, o estado de Chattigarsh, dominado pelo BJP, aprovou uma lei que torna obrigatória a quem pretenda mudar de religião a necessidade de uma autorização por parte de um magistrado distrital, pelo menos um mês antes da conversão, algo que pode ser negado pelas autoridades. Caso tal requisito não seja cumprido, o culpado incorre numa multa de entre cinquenta mil a cem mil rupias e numa pena de prisão até três anos. A mesma pena pode ser também aplicada a qualquer pessoa envolvida em “conversões forçadas”, mas nenhum castigo está previsto para quem pretenda regressar ao hinduísmo, efectivamente definido como a religião ancestral e original do povo indiano. Desta forma, as cerimónias de “reconversão” ao hinduísmo organizadas por activistas hindus são legitimadas. As mesmas formam parte integrante de um programa apelidado de “Ghar Vapasi” ou “Regresso a Casa”, que tem por alvo os dalit cristãos e recorre amiúde a intimidação e ameaças para atingir os seus fins. Neste caso específico, contudo, o governador de Chattisgarh adiou, em Setembro de 2007, a implementação da lei.

A 29 de Dezembro de 2006, o estado de Himachal Pradesh aprovou uma lei que pune quem converta indivíduos através do recurso a “meios fraudulentos”. Quem desejar mudar de religião deve alertar as autoridades distritais com um mês de antecedência. Caso contrário, arrisca um mês de prisão e/ou uma multa no valor de mil rupias. Mas o aspecto mais preocupante desta legislação é o facto de ter sido aprovada num estado governado pelo supostamente secular Partido do Congresso (CP) que, até então, havia sempre criticado as legislações anti-conversão.

Também o Rajastão aprovou a sua própria lei anti-conversão a 26 de Março de 2006. Esta impõe penas de dois a cinco anos de prisão e pesadas multas a “quem leve a cabo actividades de conversão por meios de sedução ou fraudulentos”. No entanto, a então governadora estatal, Pratibha Patil (que um ano depois ascendeu à Presidência da Índia), recusou-se a assinar a proposta de lei, por esta “parecer afectar o direito fundamental dos cidadãos à liberdade de religião, garantido pela Constituição a todos os cidadãos indianos”. A 20 de Junho de 2006, acabou por enviar a proposta de lei ao anterior Presidente, para que este verificasse a sua constitucionalidade.
Tais leis estão amplamente em vigor, e em algumas regiões são detidos indivíduos simplesmente por alegada tentativa de conversão de hindus. Muitos outros foram também alvo de detenção, simplesmente por acusações de ofensa aos sentimentos religiosos de outrem.

Natal de Martírio em Orissa
A liberdade religiosa sofreu um forte golpe em 2007. Aparentemente, a “ideia de uma Índia enquanto estado secular foi seriamente comprometida”, à medida que o país divergiu rapidamente rumo ao sectarismo hindu. O resultado final de tal facto permanece indefinido.
A urgência de tal situação foi tristemente exemplificada pelos eventos do Natal de 2007, quando cristãos foram literalmente “caçados” em alguns distritos do estado oriental de Orissa. Os mortos e a destruição resultantes de tais actos apenas encontram paralelo numa qualquer guerra civil. Para além de dezenas de feridos, nove pessoas perderam a vida, cinco das quais assassinadas a 27 de Dezembro, quando um grupo de extremistas hindus atacou residências cristãs na aldeia de Barakhama, distrito de Kandhamal; duas outras foram abatidas a tiro por forças de segurança, numa altura em que os cristãos haviam saído às ruas para protestar contra a violência dirigida contra os mesmos, e outras duas haviam sido vitimadas na sequência de anteriores episódios de violência. Ao todo, setenta igrejas e instituições cristãs foram atacadas, destruídas ou incendiadas; cerca de 600 residências de cristãos foram danificadas ou destruídas; e cerca de cinco mil pessoas foram afectadas por tais eventos. Em muitas ruas, montes de cinzas e destroços foram aquilo que sobrou da destruição. E, durante todos estes episódios de violência anti-cristã, as forças de segurança ou qualquer outra autoridade não intervieram uma única vez.
A centelha que despoletou a conflagração surgiu na aldeia de Bamunigam, perto da esquadra policial de Daringibadi Bloch, no distrito de Kandhamal. A AsiaNews descreveu os incidentes, recorrendo a testemunhas oculares, e citando o Monsenhor Raphael Cheenath, Arcebispo de Cuttack-Bhubaneswar. A 24 de Dezembro, “perto das oito da manhã, um grupo de fundamentalistas removeu, recorrendo à força, as decorações natalícias que haviam sido colocadas, com a permissão das autoridades, pelo grupo Ambedkar Baniko Sangho. Quando […] os membros protestaram, os hindus responderam que as celebrações natalícias deveriam parar, e poucos minutos depois mais de 200 extremistas atacaram os cristãos com paus, espadas e espingardas. Apesar dos cristãos se colocarem em fuga, os seus oponentes abriram fogo, ferindo com gravidade dois deles. Em seguida, saquearam e devastaram dezenas de lojas e residências pertencentes a cristãos, agredindo quem quer que se encontrasse nas mesmas. Nessa mesma noite, e durante a missa da meia-noite, foram arremessados explosivos à residência episcopal em Bhubaneswar.”
“No Dia de Natal, 25 de Dezembro, os atacantes regressaram em força e destruíram as igrejas na zona de Bamunigam. Depois cercaram e queimaram as residências e propriedades de cristãos, gritando aos mesmos que se fossem embora.”

No dia anterior, “às duas da tarde de 24 de Dezembro, entre 400 e 500 pessoas atacaram e devastaram a igreja paroquial católica em Balliguda. Nessa noite, incendiaram a igreja, o convento nas imediações, os escritórios paroquiais, a clínica, e duas residências estudantis. Depois, invadiram a cidade e incendiaram a igreja Baptista, atacando ainda uma igreja Pentecostal. No dia seguinte, 25 de Dezembro, regressaram, ameaçando todos os padres e cristãos e alertando-os de que nada deveriam relatar à polícia.”
“Nesse mesmo dia, uma multidão destruiu um convento em Phulbani, e o novo autocarro escolar do mesmo. Ao meio-dia destruíram a igreja paroquial e a residência do padre em Pobingia. Por sorte, tanto os sacerdotes como as irmãs que se tinham reunido para celebrar o Natal haviam sido avisados, tendo conseguido fugir a tempo.”
“De acordo com testemunhas, a polícia nunca interveio, apesar de estar presente no local dos delitos. Em Bamunigam, pelo menos vinte polícias assistiram em silêncio aos ataques. As autoridades chegaram mesmo a pedir aos padres da paróquia de Phulbani para não levarem a cabo quaisquer celebrações, para evitar mais problemas. Mais de metade das vinte e quatro paróquias de Kandhamal viram-se impossibilitadas de celebrar a Missa de Natal, por medo da violência.”
“Em toda aquela região, e durante três dias, os atacantes destruíram cinco igrejas paroquiais, quarenta e nove igrejas em aldeias, seis conventos, seis residências paroquiais, assim como o pequeno seminário em Baliguda e a clínica de Sarshnanda em Pobingia. Numa verdadeira caça aos cristãos, centenas de casas foram destruídas ou incendiadas. Na paróquia de Barakhama, 400 casas foram destruídas e cinco pessoas foram mortas, registando-se danos em lojas e veículos. A casa de formação dos Capuchinhos foi destruída. Sem oposição, os atacantes derrubaram portas e quebraram janelas, reuniram a mobília no meio das salas e pegaram fogo à mesma.”
“Mas a violência prosseguiu durante os dias seguintes, e novamente no início de 2008, com o recurso a ameaças, agressões e devastação.”
Centenas de cristãos fugiram rumo à floresta, sem abrigo, comida ou água. Mais de um mês depois, muitos ainda aí se encontravam, hesitantes quanto a se poderiam ou não regressar.

Para as vítimas, não há dúvida que os ataques foram cautelosamente planeados, com centenas de extremistas (mais de 200 em Bamunigam e de 400 a 500 em Balliguda) a reunirem-se em apenas meia hora, bem organizados e empunhando espingardas e espadas, provenientes de outras aldeias para assim não serem reconhecidos, e levando a cabo os actos violentos durante horas e dias a fio.
As Missionárias da Caridade (MC) da Madre Teresa de Calcutá estiveram entre as vítimas dos ataques, e também estas se viram forçadas a fugir para a floresta. A Irmã M. Suma, superiora regional das MC, afirma que “ninguém poderia imaginar a imensidão do terror dirigido contra a comunidade cristã nesta região de Orissa em finais de Dezembro.”
“Temos três residências em Kandhamal”, explicou, “e todas as nossas irmãs se viram forçadas a fugir em conjunto com outros cristãos que procuravam salvar-se da fúria dos extremistas hindus. Escaparam apenas com a roupa que traziam vestida, escondendo-se nas florestas sem nada para comer ou qualquer abrigo do frio invernal.”
Entretanto, em Sasanada, extremistas danificaram outra residência das MC, localizada junto a uma pequena igreja onde os residentes se reuniam para a Missa Dominical. A capela foi completamente destruída e profanada.

“Ver a estátua de Maria destruída e queimada e a residência dos MC completamente saqueada foi um momento esmagador”, afirma a Irmã Suma. De igual modo, os “conventos em Baliguda e Phulbanii foram incendiados por uma turba extremista que, empunhando espadas e outras armas, entrou no convento gritando 'Morte aos cristãos'. Infelizmente, praticamente todos os conventos que visitámos tinham a mesma história trágica para contar.”
“Eram dez da noite no dia 25 de Dezembro”, afirma o Irmão Oscar Tete, um veterano de 25 anos com os MC, “quando um grupo de oitenta extremistas hindus irrompeu na nossa propriedade, a Shanti Nivas, armados com espadas, machados, paus e barras de ferro. Para evitar a violência, movemos os trinta e três doentes, todos hindus, para o piso superior do nosso hospital; vinte e dois deles eram muito idosos, sofrendo de má nutrição, tuberculose e diabetes.”
“A dado momento, os extremistas correram atrás de mim, de três outros irmãos e de outros seis habitantes locais, atirando pedras, mas graças à protecção da beata Madre Teresa ninguém ficou ferido.”

“Os extremistas viraram então as atenções para a capela, destruindo a mesma; arrasaram-na; nem uma pedra ficou em pé. Os artigos religiosos e símbolos da nossa fé foram profanados. Partiram a estátua da Virgem Maria e incendiaram-na. Destruíram o altar e tudo o resto, incluindo cópias da Bíblia, queimando tudo.”
O sanatório também foi devastado, assim como as cozinhas. Nos dias que se seguiram, os missionários e os seus pacientes receberam comida e ajuda de residentes da área, ao passo que as autoridades continuavam a destacar-se pela ausência. Durante dias os padres permaneceram escondidos na floresta durante a noite, auxiliando os doentes durante o dia. Apenas a 9 de Janeiro de 2008 a polícia acorreu, duas semanas depois dos actos violentos.
Por toda a região a intervenção das autoridades foi diminuta e desfasada, granjeando críticas tanto internas quanto externas. A 29 de Dezembro de 2007, a organização Human Rights Watch (HRW) anunciou que há anos que grupos extremistas hindus como o Vishwa hindu (VHP) e o Bajrang Dal (BD) estão envolvidos em campanhas de violência contra cristãos. Este grupo de defesa dos direitos humanos afirmou ainda que o Governo estadual havia falhado na tentativa de enfrentar este problema, mostrando-se pouco preparado para enfrentar a onda de violência mal esta eclodiu, deixando a população indefesa por dias sem conta. Para a HRW, caso não ocorra uma intervenção decisiva que garanta a todos o direito a professar a sua religião de escolha, e uma identificação e punição daqueles que incitam ao ódio religioso graças a um sentido de impunidade, a “identidade secular da Índia está em sério risco.”

Por seu turno, o Cardeal Telesphore Toppo, responsável máximo da Conferência Episcopal Católica Indiana, afirmou, pouco após os incidentes, que a “Índia é um grande país, uma república democrática secular;” e por este motivo, rogou que “as autoridades façam justiça aos cristãos.”
Suspeita-se que os atacantes têm ligações ao VHP, considerado o braço religioso extremista do BJP, o partido nacionalista hindu.
Para além da violência bem organizada, financeiramente dotada e apoiada pelo poder político perpetrada pelos grupos extremistas hindus, o verdadeiro problema reside no uso do nacionalismo por parte de alguns partidos políticos como o BJP, o qual deteve o poder federal desde 2004, encontrando-se agora na oposição, mas ainda a cargo de vários Governos estaduais. Para estes grupos políticos, os missionários cristãos são “emissários de um Ocidente corrupto”; culpados de converter os dalit com o recurso à fraude, ao dinheiro e à violência, desenvolvendo actividades sociais com este intuito. Para eles, qualquer conversão religiosa é uma “ofensa” que deve ser punida como qualquer outro crime; para eles a luta contra o Cristianismo é uma batalha “em nome da unidade, da integridade e da segurança da Índia.”

Outras perseguições por parte das autoridades públicas
Para além da adopção de leis anti-conversão, as autoridades em estados liderados por partidos nacionalistas hindus tendem a cercear a liberdade de expressão pública de outras religiões, especialmente a dos cristãos.
O seu alvo prioritário tende a ser a propriedade de cristãos. Em Chhattisgarh, o Governo apropriou-se de propriedades da Igreja Católica sob o pretexto de que as mesmas devem ser devolvidas aos originários donos tribais. Só na Diocese de Jashpur subsistem centenas de casos pendentes contra cristãos tribais acusados de oferecer terrenos à Igreja.
A 2 de Fevereiro de 2006, o Governo demoliu o muro que circunda a Igreja de São Francisco, na Paróquia de Patalgaon (Jashpur), danificando um centro de retiro católico, e justificando o acto com o facto de tais construções terem sido erigidas ilegalmente sobre terra tribal. Sete padres, três irmãs e outros católicos foram detidos por alegada ocupação ilegal.

O Padre Babu Joseph, porta-voz da Conferência Episcopal Católica Indiana, declarou à AsiaNews que “é irónico que o Governo considere as igrejas e as instituições de ensino cristãs que pertencem e são administradas por tribais como, efectivamente, não-tribais. A questão que se levanta é, muito naturalmente: de quem são, afinal?”
Tanto os cristãos tribais como os não cristãos acorreram em defesa da Igreja. A 22 de Janeiro de 2007, mais de oitenta mil saíram às ruas para protestar contra uma decisão de um tribunal local que ordenava as Irmãs da Sagrada Cruz a devolver cinco hectares de terra a tribais, terra na qual haviam já construído o seu mosteiro e uma escola. O juiz decidiu que uma lei impedia os não-tribais de comprar terras de comunidades rurais. No entanto, os terrenos em que os missionários católicos haviam construído “não nos foi roubada”, afirmou um manifestante, “tendo sido vendida legalmente à Igreja pelos nossos antepassados, sendo actualmente utilizada em nosso auxílio. Ficamos contentes com a construção de escolas e de hospitais”, hoje erigidos em terras disputadas, dado que “nos educam e providenciam cuidados médicos” sempre que necessário.
Em Março de 2007, residentes da aldeia de Jamjunwani protestaram contra uma tentativa de apropriação de terras onde uma capela se encontrava erigida há já trinta anos, construída num local doado à Igreja pelo pai de um sacerdote tribal.
Outro enorme factor de discriminação é o financiamento estatal dos dalit. Os governos na Índia têm adoptado planos de apoio aos dalit, para compensar séculos de estatuto social inferior. Mas, em inúmeras ocasiões, a Comissão Nacional para as Castas/Tribos recusou-se a atribuir aos dalit cristãos e muçulmanos subsídios e apoios, afirmando que apenas os dalit hindus tinham direito a tais regalias.
Em alguns estados, como é o caso de Jharkhand, as autoridades tentaram apropriar-se de verbas (muitas vezes indispensáveis à sobrevivência) dos dalit convertidos, reclassificando estes últimos como uma minoria cristã e não como dalit. Em Chhattisgarh, os dalit cristãos viram mesmo ser-lhes negados serviços essenciais como os de saúde e de educação.

Em  Andhra Pradesh, o Governo tentou criar um sistema de apartheid virtual, banindo os não hindus de locais sagrados hindus. Desde 23 de Julho de 2007, uma lei estatal impede outras religiões de levar a cabo acções de propaganda junto de locais de fé hindus, como Timurala Divya Kshetram, todas as Timurala Tirupati Devasthanams e os templos da cidade de Tirupati, assim como dezanove outras cidades naquele estado, que possuem grandes templos. Em resultado desta lei, os não hindus estão praticamente impedidos de viver, de se movimentarem ou de levar a cabo quaisquer actividades em tais locais.
Extremistas de Andhra Pradesh pretendem ainda ir mais longe ao impedir os cristãos de levarem a cabo qualquer actividade social. A 25 de Junho de 2006, por exemplo, quatro missionárias da caridade foram agredidas durante uma visita a um hospital na cidade santa hindu de Tirupati. As religiosas estavam no Hospital Público de Ruia, de visita a doentes terminais de SIDA, quando cerca de cinquenta membros do Dharma Parirakshana Samithi hindu (Grupo de Defesa da Religião Hindu) irrompeu no hospital, interpelando as religiosas e acusando-as de tentar converter os moribundos. Os atacantes apresentaram-se rodeados de jornalistas e operadores de câmara, tendo retido as irmãs até às oito da noite, altura em que a polícia chegou ao local, para deter as religiosas sob a acusação de “proselitismo”. Acabariam por ser libertadas após a intervenção do Bispo Metropolitano de Hyderabad, Monsenhor Marampudi Joji.

Em Março de 2006, o estado de Gujarat apropriou-se da casa de leprosos em Ahmadabad, despedindo as seis religiosas católicas responsáveis pelo local até então, e expulsando-as do Convento Avé Maria que havia sido a sua residência durante os últimos sessenta anos. Muitos dos doentes dos quais as religiosas se ocupavam afirmaram-se dispostos a segui-las para onde quer que estas fossem. “Fizeram tudo por nós”, afirmou Babban Sitapur à UCA News. “Nem mesmos os nossos familiares mais próximos tratam de nós como elas o fazem.”

Ataques contra o sistema escolar
Instituições educacionais católicas são amiúde criadas para auxiliar os sectores mais pobres da sociedade, caso das comunidades tribais ou dos dalit, isto é, grupos que, de outra forma, não teriam direito a uma educação adequada. Ainda assim, alguns estados pretendem encerrar as mesmas ou colocá-las sob controlo estadual directo.
Em Kerala, por exemplo, uma lei de 2006 garante ao estado o direito de determinar se uma comunidade constitui uma minoria ou não, e é sob este pressuposto que decide quantas escolas pode dirigir e em que proporção alunos de minorias podem frequentar as mesmas. E, apesar de os cristãos representarem apenas 19% da população deste estado, não são considerados uma minoria, perdendo assim o direito a dirigir as suas próprias escolas, as quais devem assim ser colocadas sob controlo estadual, apesar do facto das escolas cristãs estarem em actividade neste estado há pelo menos 150 anos.
O Padre Paul Thelakat, porta-voz do Sínodo da Igreja Siro-Malabar, afirmou à AsiaNews que “a divisão entre o Governo Marxista de tendência esquerdista de Kerala e a Igreja começou […] com os colégios profissionais auto-financiados iniciados pela Igreja. Foi uma mudança paradigmática na educação em Kerala, onde o ensino profissional e de qualidade é uma premente necessidade, e onde milhares de estudantes procuravam, e ainda procuram, educar-se em instituições exteriores ao controlo do Estado. O Partido Marxista e o seu ramo jovem estão ainda entrincheirados no sistema anterior, o qual está a definhar, especialmente devido à politização das escolas e das universidades. A educação de qualidade tornou-se dispendiosa e já não pode ser gratuita. O Governo afirma estar a agir em defesa dos pobres, mas demonstra falta de visão, procurando apenas mais votos, e recusando-se a agir de acordo com o veredicto do Supremo Tribunal no que toca aos colégios profissionais auto-financiados.”
Em 2006, o estado de Bengala Ocidental emendou a Lei de Comissão de Serviço Escolar, que agora requer que as escolas minoritárias e instituições cristãs aceitem pessoal docente e programas de ensino seleccionados pelo Governo, caso pretendam manter o apoio financeiro público.
As escolas cristãs também se encontram excluídas de um programa governamental, o Sarva Shiksha Abhiyan, o qual proporciona fundos e assistência a crianças entre os seis e catorze anos.

Em contraste, nas escolas do Estado está em marcha uma tentativa de “hinduisar” o ensino. Em Maddhya Pradesh, por exemplo, o Governo propôs que as escolas estatais levem a cabo a “adoração do sol”, organizando massivas cerimónias de Sūrya namaskāra ou “Saudação ao Sol”, tal como ocorreu a 25 de Janeiro de 2007, uma prática inspirada por um dos originários ensinamentos do ioga.
E, no entanto, as escolas católicas são tidas em boa conta e elogiadas por todos. Em 2007, o ministro Indiano para o Desenvolvimento e Desenvolvimento de Recursos Humanos, Muhammad A. Fatmi, afirmou ser necessário “reconhecer a preciosa contribuição que as escolas católicas têm feito ao país.” Este facto ganha ainda maior relevância quando se constata que, de acordo com a UNICEF, mais de sessenta milhões de crianças na Índia não frequentam a escola durante um único dia das suas vidas.
Apesar deste facto, as escolas cristãs tornaram-se também alvo de acções violentas por parte de extremistas hindus. De acordo com números oficiais fornecidos pela Igreja Católica, mais de cem episódios de violência contra instituições ou pessoal cristãos ocorreram em 2007, menos que os 215 episódios registados em 2006 e mais que os 200 registados em 2005 (Fides). Os incidentes violentos são muitas vezes “anunciados”, como foi o caso em Julho de 2007, quando mais de 250 hindus de Sangh Parivar devastaram uma escola dirigida pelas Irmãs Franciscanas da Nossa Senhora da Graça, na aldeia de Vikas Nagar, perto da cidade de Dehra Dun (Uttarakhand). A escola havia recebido ameaças por parte de representantes do BJP há já algum tempo, tendo informado as autoridades acerca das mesmas; estas últimas, no entanto, nada fizeram.

Violência
Sajan K. George, líder do Concelho Global de Cristãos Indianos (GCIC), afirmou que esta organização havia “reunido provas documentais de mais de 500 casos de violência anti-cristã” ocorridos “por todo o país” entre Janeiro de 2006 e Novembro de 2007, em resultado do “sinistro ódio religioso por parte de forças da Hinduvta (organização que defende o nacionalismo hindu), a coberto da organização Sangh Parivar, e por grupos como o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) e do Partido Bharatiya Janata.”
Numa carta endereçada ao primeiro-ministro Manmohan Singh em Dezembro de 2007, o GCIC listou os variados incidentes violentos contra indivíduos e locais de culto. Na mesma, o grupo de direitos cristãos afirma que o propósito de tais actos é “criar uma atmosfera de medo e terror”, acrescentando que “este tipo de ameaça à liberdade interna é pior que ataques terroristas.” Alguns “elementos do Hindutva tiveram ainda a temeridade de protestar contra a polícia por esta tentar encontrar os culpados”. Geralmente, os atacantes operam por “subsistir um clima de impunidade sobre quaisquer actos de violência cometidos contra não hindus.” Amiúde, a polícia recusa “acusar ou investigar as ocorrências;” ao invés, e em alguns casos, “inclui mesmo o nome dos atacantes na lista de vítimas.”
Mesmo os líderes do BJP e membros deste partido já estiveram envolvidos em ataques desta natureza.
É impossível contabilizar todos os casos nos quais católicos e outros cristãos foram vítimas de violência física ou de perdas materiais. Mas aqui se apresentam alguns exemplos significativos.

Católicos
O Padre Eusébio Ferrão, de 61 anos, pároco da Igreja de São Francisco em Macasana (Goa), foi morto na noite de 17 de Março de 2006. A agência noticiosa Fides revelou que alguns paroquianos o haviam encontrado no seu leito, asfixiado até à morte com uma almofada. O padre escrevia para um jornal local, comentando a violência sectária na região. A 21 de Março, Amit Shukla e Manish Dubey, ambos de Allahbad (Uttar Pradesh), foram detidos após confessarem o crime durante um interrogatório.
Em finais de 2006, um líder católico em Jammu-Kashmir, Bashir Tantry, foi alvejado por um atacante desconhecido. Para a polícia, o assassinato foi provavelmente motivado por questões religiosas, dado que o Sr. Tantry era um antigo muçulmano que se havia convertido ao Catolicismo.
A 29 de Janeiro de 2006, mais de cem activistas da organização hindu Bajrang Dal gritaram palavras de ordem e arremessaram pedras ao Monsenhor Thoas Dabre, Bispo de Visai e a três padres que visitavam a aldeia de Ghosali (Maharastra), onde iam inaugurar um novo abrigo para órfãos e crianças da rua. Os atacantes acusaram os padres de planearem a conversão das crianças.

A 25 de Julho de 2006, atacantes desconhecidos aprisionaram dois missionários Salesianos, o Padre Soby Thomas (vice-director do Liceu Salesiano local) e o Padre Vinod, em Hebbagodi (Bangalore), tendo depois agredido os mesmos com paus.
A 10 de Setembro de 2006, em Lucknow (Utar Pradesh), um grupo de militantes nacionalistas hindus invadiu uma escola dirigida pelas Irmãs do Loreto, arrombando o portão de entrada, pilhando e devastando as instalações, incluindo a capela.
A 18 de Novembro de 2006, a escola teológica liderada pelas Irmãs Carmelitas em Carmelaram, nos arredores de Bangalore, foi invadida. Como se não bastasse, os atacantes profanaram ainda a pequena Gruta Mariana da escola, destruindo a estátua de Nossa Senhora.
A 30 de Novembro de 2006, cerca de cinquenta extremistas atacaram a Escola Secundária para Raparigas no Convento Ávila em Misore (Karnataka), irrompendo pela mesma, agredindo o pessoal, e acusando os responsáveis escolares de realizarem conversões. A polícia lançou uma investigação contra o director da escola.
Entre 17 e 18 de Dezembro de 2006, fundamentalistas hindus atacaram os padres da Igreja de São Tomás, num subúrbio de Bangalore, também responsáveis por uma escola nas imediações. Atacaram mais tarde a viatura que transportava o Arcebispo de Bangalore, Monsenhor Bernard Moras. O Padre Anthony Samy, que acompanhava o arcebispo, afirmou que “a polícia estava presente, mas como meros espectadores. Eram em número suficiente para intervir. Pelo menos, podiam ter-nos alertado que seria preferível não seguir em direcção ao portão de entrada da escola.”

A 14 de Maio de 2007, perto de Ranchi (Jharkhand), o Padre George Minj foi agredido por atacantes não-identificados que terão mesmo tentado matá-lo. A Irmã Teresa Kindo, que acompanhava o sacerdote na altura, foi também agredida.
Na madrugada de 17 de Julho, o Padre V. Michael, sacerdote católico na Missão Chuhari em Bettiah, foi atacado na sua residência.
A 20 de Agosto de 2007, extremistas do Bajrang Dal e hindus do Jagrutika Samiti, do distrito de Chitragurda (Karnataka) distribuíram panfletos escritos no dialecto local Kanada, ordenando aos cristãos para “abandonarem imediatamente o território indiano, ou regressarem à religião-mãe que é o Hinduísmo”. Caso contrário, “serão mortos por todos os bons indianos, que assim demonstrarão a sua virilidade e o seu amor pelo país”. O panfleto descrevia os crimes “cometidos pelos cristãos”, como “tratar todos com amor, educar os órfãos para os converter, oferecer cuidados médicos aos que não têm meios para o obter, ignorar o sistema de castas, aceitar o casamento por consentimento, e aceitar as trocas comerciais entre povos que não se deveriam associar uns aos outros.”

A 22 de Setembro de 2007, o Supremo Tribunal em Orissa condenou Dara Singh pelo assassinato do Padre Arul Dross, pároco da Igreja de Anandpur, o qual foi morto a 1 de Setembro de 1999. O Tribunal reconheceu a particular “brutalidade” do acto, dado que Dara Singh e dez cúmplices atiraram setas ao sacerdote antes de incendiarem a igreja. Singh, cujo verdadeiro nome é Rabindra Kumal Pal, havia já sido condenado à morte, em 22 de Setembro de 2003, pelos homicídios do missionário Australiano Graham Staines e dos seus dois filhos, de sete e nove anos, os quais morreram queimados enquanto dormiam num carro no distrito de Keonjhar (Orissa) a 23 de Janeiro de 1999.
A 26 de Outubro, em Raseli (Madhya Pradesh), cinco religiosas Claretianas foram agredidas com paus por alguns activistas do Dharma Raksha Samiti (Conselho de Protecção da Religião), um grupo extremista que apoia o sati, o ritual suicida das viúvas hindus.
Em Novembro, o Convento das Irmãs da Caridade de Nazaré, em Rajgir, e o das Irmãs do Sagrado Coração perto de Muzaffarpur, ambos em Bihar, foram atacados e saqueados. Os atacantes roubaram dinheiro e disseram às religiosas para se irem embora.
A 5 de Dezembro de 2007, cerca de 150 extremistas hindus atacaram a Igreja da Divina Misericórdia, em Pitampura, a Norte de Nova Deli, a qual está ainda em construção mas que conta já com todas as necessárias autorizações. Arrasaram todas as paredes já construídas e destruíram todo o equipamento de construção (Fides).

Outras confissões religiosas cristãs
A violência contra outras confissões religiosas cristãs não é menos intensa que aquela dirigida contra os católicos. Aqui se documentam alguns dos episódios mais significativos.
S. Stanley, de 58 anos, proprietário de um edifício utilizado como igreja residencial, foi esfaqueado até à morte a 10 de Fevereiro de 2007 em Kalliyoor, perto de Thiruvanandapuran, capital de Kerala. Um grupo de jovens sob a influência do álcool havia gritado palavras de ordem anti-cristãs em frente à residência; quando o proprietário saiu à rua para os confrontar, foi agredido e esfaqueado em frente à sua esposa, que também sofreu agressões.
A 8 de Junho de 2006, o Pastor Prem Kumar, da Igreja do Sul da Índia, foi encontrado morto, com a cabeça esmagada e o corpo mutilado.
Em finais de Novembro de 2006, Bashir Ahmad Tantray, um muçulmano convertido ao Cristianismo, foi assassinado por dois fundamentalistas muçulmanos em pleno dia, em Mamoosa, distrito de Baramulla (Jammu). Temendo mais violência, a aldeia decidiu não lhe dar um enterro cristão, preferindo organizar um funeral segundo os ritos islâmicos.
Goda Israel, de 29 anos, Pastor protestante da Missão Internacional Emanuel, foi encontrado morto a 20 de Fevereiro de 2007 no distrito de Krishna (Andhar Pradesh). Havia sido ameaçado por fundamentalistas hindus dadas as suas actividades de evangelização.

Manzoor Ahmad Chat, 33 anos, cristão evangélico que ainda não havia sido baptizado pela Igreja da Voz de Salem, foi raptado e morto por fundamentalistas muçulmanos no dia 14 de Abril de 2007. Depois de o decapitarem, deixaram a sua cabeça dentro de uma caixa em frente a uma mesquita. As suspeitas recaíram sobre os militantes Hizbul, auto-proclamados “guerreiros da liberdade”, ou seja, extremistas muçulmanos cujas actividades se expandem ao Paquistão e à Índia.
Hermanta Das, 29 anos, hindu convertida ao Cristianismo Baptista, foi agredida até à morte em Junho de 2007 em Chand Mari, perto de Guwahati (Assam).
Ajay Topno, de 38 anos, cristão evangélico que trabalhava na Radio Trans World, foi morto a 19 de Setembro de 2007 perto da aldeia de Sahoda, distrito de Ranchi (Jharkhand). Extremistas hindus da região haviam já ameaçado atacar cristãos, “culpados” de, na sua opinião, levarem a cabo conversões.
Vipin Mandloli, de 27 anos, hindu convertido ao Evangelismo, morreu a 14 de Outubro de 2007 dos ferimentos de bala, perto da aldeia de Aaamkut (Madhya Pradesh).
MC Elias, 47 anos, polícia cristão e membro dos Ministérios da Voz de Salem, foi morto a 26 de Outubro no campus da Universidade de Changanassery, distrito de Kottayam (Kerala). De acordo com o ministro do Interior de Kerala, “activistas do BJP” foram os responsáveis pelo assassinato.

Na noite de 20 de Novembro de 2007, fundamentalistas hindus atacaram a igreja pentecostal na aldeia de Mandwa, distrito de Jagdalpur (Chhattisgahr). Aqueles que se encontravam no interior foram amarrados e sujeitos a maus-tratos físicos; entre eles encontrava-se o Pastor Sudroo, que morreria em consequência dos ferimentos. Os atacantes incendiaram então a igreja. Apesar de alguns dos culpados serem conhecidos, o Fórum Cristão de Chhattisgahr denunciou a polícia por não ter investigado o incidente.
Sajan George afirmou à AsiaNews que, em Dezembro de 2007, “radicais do Sangh Parivar tentaram matar o Pastor Bikay Charan Sethi em Bamunigam. Sofreu queimaduras em cinquenta por cento do corpo após ter sido atacado com um projéctil à base de gasolina.”
Na noite de 28 de Maio de 2006, na aldeia de Nadia (Madhya Pradesh), um grupo de extremistas inspirados pela Hindutva atacou e raptou duas mulheres e três homens cristãos. As mulheres foram violadas e os homens sofreram ferimentos graves de armas de fogo. Quando se dirigiram à esquadra policial para apresentarem queixa pelo sucedido, o Inspector Thakur prendeu-os.

As mulheres “foram violadas como punição por mudarem de religião e se terem convertido ao Cristianismo”, afirma Indira Iyengar, membro da Comissão Estatal de Minorias de Madhya Pradesh. As autoridades, “quer as civis, quer as policiais ou as jurídicas, não ouviram o que as mulheres tinham para dizer e não lhes fizeram justiça”, adiantou. Uma das mulheres afirmou que “a polícia disse que as nossas queixas eram falsas. Recusaram-se a ouvir. Agora, não temos a quem recorrer.”
A 24 de Janeiro de 2006, em Ramchandrapur (Uttar Pradesh), mais de 200 hindus agrediram o Pastor Ram Prakash e outros cristãos. Quando o clérigo se deslocou à polícia para apresentar queixa, foi preso, devido à lei local anti-conversão. Maltratado na prisão, foi libertado sob fiança, apenas para voltar a ser detido, acusado de causar tensões sociais. Três líderes da Igreja do Nazareno foram presos sob semelhantes acusações a 26 de Janeiro em Jabalpur (Madhya Pradesh).
A 25 de Janeiro de 2006, em Jhabua (Madhya Pradesh), um grupo de sete polícias agrediu dois clérigos protestantes numa residência. Quando os prenderam, ordenaram-lhes que cessassem “todas as actividades cristãs”. Não se sabe se foi tomada qualquer acção contra os polícias em questão.
A 1 de Maio de 2006, em Seikmaijing (Manipur), hindus demoliram a igreja e agrediram alguns cristãos, alertando-os de que se deveriam ir embora; isto em protesto contra o facto de uma personalidade local se ter tornado cristã.

A 30 de Junho de 2006, um grupo de extremistas hindus ateou fogo a uma igreja pentecostal em Shivani, no distrito meridional de Harda (Madhya Pradesh), destruindo as Bíblias que aí se encontravam e ameaçando matar o pastor.
A 8 de Outubro de 2006, uma multidão de extremistas hindus saqueou e destruiu um abrigo para mulheres viúvas e uma escola para crianças desfavorecidas na aldeia de Danupura, em pleno coração do distrito de Varanasi (Uttar Pradesh); ambas as instituições estavam a cargo de um casal cristão dos Estados Unidos, acusado de proselitismo e de conversões forçadas.

Há alguns anos a esta parte que os extremistas celebram o Natal à sua maneira, numa escalada de violência anti-cristã. Em 2006, Arun Pannanal, secretário-geral do Fórum Cristão de Chhattisgarh, afirmou que “na véspera de Natal, cerca de cinquenta veículos ocupados por nacionalistas hindus atravessaram as ruas de Raipur, capital daquele estado do centro da Índia (Chhattisgarh), alertando os habitantes de que iriam impedir qualquer espécie de celebração natalícia”. Não satisfeitos com isso, “agrediram uma professora a qual acusaram de distribuir Bíblias na escola. Apesar de esta acusação ser falsa, a mulher foi detida pela polícia, acusada de conversão forçada.”
Pelos mesmos motivos, membros de um pequeno grupo hindu, o Dharma Sena, atacaram o Pastor Philip Jagdella, um clérigo cristão que estava a oferecer alguns doces a crianças, no dia 17 de Dezembro. Também este último se encontra agora detido.
No Punjab, a polícia local deteve um clérigo das Igrejas Comunitárias do Bom Pastor, ameaçando-o de graves consequências caso “celebrasse o Natal falando sobre Cristo.”
Dois outros líderes protestantes receberam semelhante tratamento. Foram detidos a 23 de Dezembro e libertados no dia seguinte após terem sido alertados de que “não mais deveriam pregar o Evangelho”.

Em Raupur (Chhattisgarh), a 2 de Fevereiro de 2007, um grupo de nacionalistas hindus atacou um encontro de pastores cristãos, acusando-os de levarem a cabo conversões em massa em prol do Cristianismo. Cerca de trinta dos 120 participantes no encontro foram agredidos; outros foram assaltados.
A 22 de Fevereiro de 2007, extremistas demoliram uma igreja em construção em Bhubaneswar (Orissa). A 28 de Fevereiro, um grupo de hindus atacou o Believers Church Bible College, em Jharsuguda (Orissa), agredindo os estudantes e o pessoal, e danificando o interior do edifício.
A 7 de Março de 2007, o Pastor protestante Reginald Howell foi agredido com barras de aço quando rezava junto a deficientes em Hanumangarh (Rajastão). No hospital, os médicos recusaram-se a tratá-lo, temendo uma reacção retaliatória por parte dos extremistas. A polícia também se recusou a aceitar a queixa apresentada pelo Reverendo Howell, tendo, pelo contrário, forçado o mesmo a deixar o estado e a regressar à sua aldeia na província vizinha do Punjab.
A 4 de Abril de 2007, em Orissa, activistas do Sangh Parvivar e da Rastriya Swayamsevak Sangh (RSS) demoliram uma igreja evangélica luterana e danificaram os pertences do pastor.

A 7 de Junho de 2007, em Hessarghatta (Karnataka), uma turba constituída por jovens nacionalistas hindus agrediu o Pastor protestante Laxmi Narayan Gowda, obrigando-o a caminhar nu pelas ruas de Bangalore com uma tabuleta pendurada ao pescoço que dizia “Sou aquele que andava a converter pessoas”. Após isto tentaram atear-lhe fogo. Antes da sua conversão, o Pastor Gowda era membro da Rastriya Swayamsevak Sangh (Compass).
Na noite de 14 de Outubro de 2007, dez extremistas atacaram a New India Bible Church em Wayanad (Kerala), ferindo com gravidade o Pastor protestante T. C. Joseph e a sua esposa, Ammini.

O que sucedeu à Missão Emanuel no início de 2006 tipifica o planeamento sistemático que acompanha os ataques a que os cristãos estão sujeitos. “A conspiração contra a Missão Emanuel começou em 2002 quando o BJP chegou ao poder no Rajastão”, escreveu John Dayal, responsável máximo da União Católica Indiana. “Os orfanatos e os hospitais cristãos foram encerrados, as suas contas bancárias foram congeladas, e quem aí trabalhava foi dispensado. As piores consequências foram sentidas por quem era acolhido por tais instituições.”

A situação ficou fora de controlo quando “foram tomadas medidas contra o arcebispo e o seu filho, o Reverendo Samuel Thomas, este último posteriormente detido em Uttar Pradesh. Todos os dias se podiam ler na imprensa ataques contra eles, os quais faziam parte de uma campanha diária de difamação orquestrada por nacionalistas hindus, que foram autorizados a colocar a cabeça do líder protestante a prémio. Tudo isto começou com a publicação de um livro intitulado Haqeekat, supostamente publicado pela Missão liderada por Thomas, e que alegadamente incluía passagens injuriosas para os sentimentos religiosos dos devotos hindus.”
“O Arcebispo M. A. Thomas tem estado em actividade em Kota há mais de trinta anos. A sua missão é independente e com um carisma próprio: cuidar dos órfãos e providenciar-lhes escolas e hospitais. Apesar de não fazer parte da Igreja Católica e não estar afiliado a qualquer das Igrejas Protestantes, trabalhando de forma independente, é muito popular junto dos habitantes e o seu currículo levou mesmo o Governo a atribuir-lhe a condecoração Padma Shree há três anos. Apesar disto, ainda suscita reacções hostis.”
“Logo após a subida ao poder do BJP em 2002, inquéritos clandestinos foram lançados contra todas as suas instituições. Foi alvo de inquéritos criminais e de auditorias financeiras, levados a cabo pelo departamento que lida com o registo de sociedades e organizações de caridade. Em todos estes anos, nunca foi considerado culpado de nada. Agora, e sem aviso, as suas organizações foram encerradas e as contas bancárias congeladas. Isto levou a uma escassez dos recursos à disposição dos orfanatos. Contaram-nos que, durante três dias, a comida dos orfanatos teve de ser cozinhada a lenha, dado o gás de cozinha ter acabado. No hospital, os pacientes não puderam receber cuidados médicos, já que os polícias de vigia ameaçaram que, caso tal sucedesse, o pessoal seria detido e o hospital encerrado. Entre os pacientes encontravam-se crianças com tuberculose, incluindo uma em estado de coma.”

“A própria família Thomas está aterrorizada. Mandados sem direito a fiança foram emitidos contra o pai, o filho, e o seu pessoal; alguns foram detidos devido ao livro controverso que ofende os hindus [...] Samuel Thomas foi preso em Noida em circunstâncias dúbias, e apenas a intervenção policial impediu que fosse linchado.”
Devido a tais acusações de conversões forçadas e “difamação contra o Hinduísmo”, o Governo do Rajastão retirou, em Fevereiro de 2006, todas as licenças à Emmanuel Ministries International (EMI). Um mês depois, congelou todas as posses da EMI, medida entretanto revertida por um tribunal. O presidente da EMI, Samuel Thomas, esteve preso de 17 de Março a 2 de Maio de 2006 por ofender sentimentos religiosos hindus.

Muçulmanos
A minoria muçulmana na Índia também tem sido alvo do extremismo hindu. E, em algumas regiões, tal situação tem o potencial de escalar a um nível que fique fora de controlo, transformando-se em verdadeiras disputas sectárias.
Em Aligarh (Uttar Pradesh), muçulmanos e hindus confrontaram-se em Abril de 2006, em torno de uma disputa durante uma festividade. Na sequência dos incidentes, duas pessoas morreram e oito ficaram feridas.
A 1 de Maio, as autoridades em Vadodara (Gujarat) demoliram uma mesquita com 300 anos, apesar dos pedidos de muçulmanos locais, que pretendiam vê-la preservada como monumento nacional. Na tentativa de dispersar a multidão de manifestantes, a polícia matou dois muçulmanos. Os confrontos que se seguiram a este incidente levaram à instauração de, praticamente, uma guerrilha urbana muçulmana; lojas e carros foram incendiados, e após dias de violência, seis pessoas morreram, e outras quarenta e duas ficaram feridas.

Em Julho de 2006, em Bhiwandi (Maharashtra), muçulmanos protestaram contra a construção de uma esquadra policial perto de um cemitério muçulmano. Também aqui a resposta policial levou à morte de dois muçulmanos. Estes últimos, por seu turno, mataram dois polícias, e incendiaram autocarros e edifícios públicos; dezoito pessoas ficaram feridas, entre as quais treze agentes da polícia.
Nesse mesmo mês, várias bombas explodiram em comboios de Mumbai, matando cerca de 200 pessoas e ferindo outras 700. Segundo as provas recolhidas, estes actos terroristas pretendiam gerar mais confrontos entre hindus e muçulmanos.
A 8 de Setembro de 2006, uma série de bombas deflagrou numa área perto de uma mesquita e de um cemitério em Malegaon (Maharashtra), cidade predominantemente muçulmana, quando milhares de fiéis se reuniam para celebrar o Shab-e-barat, rito durante o qual os muçulmanos rezam pelos seus mortos. A carnificina fez trinta e oito mortos e mais de cem feridos.

Em Maio de 2007, uma bomba explodiu numa concorrida oração de sexta-feira numa mesquita em Charminararea (Hyderabad), matando doze pessoas e ferindo outras quarenta.
Na Caxemira sob administração Indiana, grupos rebeldes muçulmanos permanecem activos, e sempre dispostos a ter como alvo a população civil. Em Abril de 2006, pelo menos trinta e cinco hindus, todos civis, foram mortos em dois ataques. O primeiro deixou treze pessoas mortas no distrito de Udhampur; o segundo vitimou vinte e duas no distrito montanhoso de Doda.
Estes foram os mais violentos ataques desde 2003, altura em que a Índia e o Paquistão acordaram num cessar-fogo na região. Peritos em segurança acreditam que o Lashkar-e-Toiba (LeT ou Exército dos Puros), um grupo islamista pro-Paquistão, se encontra por detrás dos ataques anti-hindus (os quais são uma minoria em Caxemira). Nos últimos dez anos, os activistas do LeT são acusados de levar a cabo pelo menos dezassete massacres, os quais resultaram na morte de 270 hindus.
Entretanto, a investigação ao massacre ferroviário de Godhra prossegue. Em 2002, o Sabarmati, um comboio expresso foi detido e incendiado, matando cinquenta e nove pessoas. Isto despoletou uma onda de violência durante a qual, segundo números oficiais, 790 muçulmanos e 294 hindus foram mortos, tendo outras 2.500 pessoas ficado feridas. Fontes não oficiais afirmam que o número de muçulmanos mortos é de vários milhares.

Em Outubro de 2007, quinze hindus foram condenados a prisão perpétua por queimarem vivos onze muçulmanos (entre os quais duas mulheres e uma criança) durante confrontos sectários em 1992-1993. Na altura, extremistas hindus provocaram incidentes muito graves que resultaram em milhares de mortos, a maioria dos quais muçulmanos. Os instigadores de tal violência não foram ainda presentes à justiça. A comissão de inquérito criada para investigar os confrontos foi encabeçada pelo Juiz B.N. Srikrishna, então membro do Supremo Tribunal de Mumbai. Concluiu que o Shiv Sena (grupo armado hindu) e o seu líder, Bal Thackery, foram os responsáveis pelas acções anti-muçulmanas. Concluiu ainda que a administração local, liderada pelo BJP, havia conspirado com os culpados, e que a polícia assistira impávida enquanto o massacre tinha lugar. Apesar de tudo, as conclusões da comissão foram muito simplesmente ignoradas pela investigação oficial.

 

 

 



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