2008-2009
A conjuntura no Iraque em 2008, cinco anos depois da queda de Saddam Hussein, é de instabilidade. Os cristãos, em especial, estão a pagar um preço elevado em termos de sangue e de perseguições.
Em primeiro lugar, o perigo de uma divisão ao longo das linhas étnico-confessionais está ainda pendente sobre o país; por sua vez, tal situação alimenta a violência contra as minorias religiosas. Neste caso, além da violência entre sunitas e xiitas, os cristãos são o alvo de muita violência, embora não se insiram na linha de divisão confessional.
No período que antecedeu as eleições locais de Janeiro de 2009, todos os grupos tentaram assegurar a vitória demonstrando a sua força e poder, e isolando-se do resto da nação.
A questão de Kirkuk (e Mossul) ainda está por resolver. Os curdos querem anexar a cidade mas têm a oposição dos árabes sunitas e xiitas. Em Mossul e Kirkuk, os cristãos são pressionados a escolher entre um ou o outro lado. Tal está ligado a um plano de alguns legisladores cristãos para assegurar a segurança cristã através da criação de um enclave cristão nas Planícies de Nínive. Isto asseguraria também uma vitória curda num referendo sobre Kirkuk e criaria uma zona tampão entre as regiões árabes sunitas e curdas. Na realidade, muitos ataques em Mossul parecem ser motivados por um desejo de assustar os cristãos, de modo a que estes se mudem para Nínive ou para o estrangeiro.
Ao mesmo tempo, a vaga das tropas dos EUA que se iniciou em 2007 teve alguns resultados positivos contra os terroristas em Bagdade, assim como nas cidades do sul e do centro do país, mas somente porque estes últimos se deslocaram para norte, para Mossul, onde o exército dos EUA não tem tido grande presença. Fontes locais contaram à AsiaNews (Abril de 2008, p. 17) que a cidade se encontra sob controlo terrorista a 90%.
“A Al Qaeda está a tentar conseguir uma posição no Iraque”, declarou o General Mark Hertling, comandante das tropas dos EUA no Norte do Iraque, “e Mossul é a base de operações que eles escolheram para lançar os seus ataques”. Tal tornou-se possível devido à infiltração de militantes estrangeiros provenientes da Arábia Saudita, da Jordânia, do Iémen e do Paquistão, através da fronteira síria (AsiaNews.it, 9 de Outubro de 2008).
Mossul
Terroristas islâmicos, como também os criminosos comuns que usam o Islão para enriquecer, começaram também a falar sobre a criação um “governo islâmico” na cidade. Isto inclui forçar os não muçulmanos a escolher entre a conversão ao Islão, o pagamento da jizya (imposto municipal islâmico para os não muçulmanos) ou a morte.
Entretanto, os ataques contra igrejas e instituições cristãs aumentaram o nível de receio. Entre 6 e 17 de Janeiro de 2008, uma série de explosões atingiu Bagdade e Mossul. Nesta última, a Igreja caldeia da Virgem Imaculada foi atacada. A igreja caldeia São Paulo foi também quase totalmente destruída. A entrada de um orfanato gerido pelas religiosas caldeias al-Nour, uma igreja nestoriana e o convento das religiosas dominicanas de Mossul Jadida foram também alvo de ataques (Ver AsiaNews.it, 6 e 17 de Janeiro de 2008).
De acordo com vários bispos e peritos, existe um plano, não apenas contra os cristãos, mas também contra a elite intelectual e a classe profissional da cidade, incluindo os muçulmanos. Os cristãos representam apenas 3% da população da cidade, mas representam 35% dos que possuem um curso superior. De acordo com o Monsenhor Paulos Faraj Rahho (AsiaNews Magazine, Janeiro de 2008, p. 16), “forçar estas pessoas a fugir significa impedir o país de se voltar a erguer das cinzas. Significa a propagação da ignorância, a qual nutre o terrorismo. Este plano está a ser levado a cabo no resto do Iraque. Médicos, advogados, professores e jornalistas são agora os alvos. O plano foi criado por aqueles que gerem a política internacional e pelos vizinhos do Iraque. Nenhum deles quer que o Iraque seja livre e independente porque seria muito forte. Em conjunto, éramos uma grande potência intelectual e económica. Manter o país fraco e dividido faz com que o domínio [estrangeiro] seja mais fácil”.
O Monsenhor Rahho, de 66 anos, sofria de problemas de coração e precisava de medicação. Ele foi raptado no dia 29 de Fevereiro, provavelmente por fundamentalistas islâmicos, e morreu em cativeiro no início de Março de 2008. O seu corpo foi encontrado no dia 13 de Março num terreno abandonado nos arredores de Mossul depois de os seus sequestradores terem avisado funcionários da Igreja (Ver AsiaNews Magazine, Abril de 2008, pp. 15-18). A morte do bispo causou uma onda de choque por toda a comunidade cristã e foi extensamente condenada por líderes mundiais e por destacados muçulmanos do Iraque.
Desde essa altura, o exército dos EUA prometeu uma maior segurança em Mossul, mas a situação, de facto, piorou. Em Outubro, uma nova onda de assassinatos confessionais atingiu a cidade numa altura em que o primeiro-ministro Maliki se comprometeu a atribuir um tratamento mais justo aos cristãos e a conceder-lhes uma maior representação no Parlamento. No espaço de algumas semanas, foram mortas catorze pessoas, cinco casas foram destruídas por bombas e mais de 10.000 pessoas fugiram para Nínive.
No dia 4 de Outubro, Hazim Thomaso Youssif, de 40 anos, foi morto em frente à sua loja de vestuário, enquanto Ivan Nuwya, de 15 anos, foi atingido a tiro mortalmente no exterior da sua casa, bem perto da mesquita de Alzhara, no bairro de Tahrir. No dia 6 de Outubro, Ziad Kamal, um lojista deficiente de 25 anos, foi atingido a tiro mortalmente. A loja do jovem estava situada no bairro de Karama, mas ele foi levado da sua loja pelos atiradores para um sítio não muito longe, onde foi morto a tiro. No dia seguinte, Amjad Hadi Petros e o seu filho foram mortos no seu local de trabalho, no bairro de Sukkar. Eles foram considerados “culpados de serem cristãos”. Num outro ataque nesse mesmo dia, um grupo fundamentalista entrou numa farmácia e matou um empregado, também ele cristão. No dia 8 de Outubro, um caldeu de 38 anos, Jalal Moussa, foi assassinado a tiro em frente à sua casa, no bairro de al-Noor (Ver AsiaNews Magazine, Novembro de 2008, p.23). No dia 12 de Novembro, um gang de adolescentes armados, com idades entre os 16 e os 18 anos, contratado por grupos criminosos, atacou violentamente uma casa no bairro de Alqahira e matou uma mãe e as suas duas filhas. Tratou-se sem dúvida de uma morte premeditada porque Lamia e Walàa Sobhy Salloha foram atingidas à queima-roupa e morreram imediatamente. Os assassinos viraram depois a sua atenção para a mãe delas, Selma Giargis, que foi atacada com uma faca. Acabaria por morrer mais tarde, no hospital, devido aos ferimentos (AsiaNews Magazine, Dezembro de 2008, p. 20).
O êxodo
Como resultado da violência, centenas de famílias cristãs deixaram Mossul e viajaram para as Planícies de Nínive. Muitas famílias iraquianas, que estavam a planear voltar ao país depois de terem fugido para a Síria, mudaram de ideias. Neste momento, existem 100.000 refugiados cristãos na Síria, 30.000 na Jordânia e muitos milhares no Líbano, no Egipto e na Turquia. Cerca de 7.000 famílias de Mossul, de Bagdade e de Bassorá encontraram refúgio em aldeias localizadas nas Planícies de Nínive (AsiaNews Magazine, Junho-Julho de 2008, p. 19).
Representatividade reduzida
A nova lei das eleições locais, adoptada pelo Parlamento do Iraque no dia 3 de Novembro, fez crescer o medo e o desespero entre os cristãos porque reduziu ainda mais o seu número nos conselhos municipais. A lei concedeu às minorias seis lugares de um total de 440: três para os cristãos (em Bagdade, Nínive e Bassorá), um para os Iazidis e um para os Shabaks em Nínive. O último foi para os Sabeus na capital. Antes da nova lei, os cristãos detinham seis lugares.
Para o Monsenhor Louis Sako, Arcebispo caldeu de Kirkuk, “a actual lei anula a quota fixada por tradição para os cristãos (e para as outras minorias). Intimidá-los e fazer com que se vão embora, e negar-lhes a representatividade são duas faces da mesma moeda” (AsiaNews.it, 22 de Outubro de 2008).
O Monsenhor Shlemon Warduni, Bispo Auxiliar caldeu de Bagdade, declarou que os lugares não são mais do que “uma esmola” se tomarmos em conta o facto de que a comunidade é uma das mais antigas do país e uma das mais afectadas pela guerra (AsiaNews.it, 11 de Novembro de 2008).
2007-2008
A 15 de Outubro de 2005, o Iraque aprovou a sua nova Constituição, a qual proclama o Islão como “religião oficial” estabelecendo também que “nenhuma lei pode contradizer as provisões estabelecidas pelo Islão” (Art. 2.1 a). O texto estabelece também que o Estado defende a democracia e as liberdades básicas, bem como os totais direitos de todos os crentes [Artigos 2.1 b) e c) e 2.2], garantindo direitos administrativos, políticos, culturais e educacionais para todos os diversos grupos étnicos iraquianos, incluindo os Turquemenes, os Caldeus e os Assírios, os quais são mencionados de forma específica (Art. 121).
A situação dos cristãos
Os cristãos, contudo, não estiveram envolvidos na elaboração da nova Constituição, tendo em vão requerido a supressão – ou, no mínimo, uma emenda - para o Artigo 2.1a (30 Giorni, No. 10-2005). A sua fraquíssima representação no Parlamento eleito a 15 de Dezembro de 2005 (apenas três lugares num total de 275) não lhes permite influenciar o resultado aquando da votação de leis. Para além disto, a indicação da religião de cada indivíduo continua a marcar presença nos bilhetes de identidade, o que torna fácil a identificação dos cristãos.
Entre as vantagens derivadas da queda do regime de Saddam Hussein (2003), pode realçar-se o facto de todos os centros educacionais anteriormente nacionalizados terem agora sido devolvidos às Igrejas, sendo actualmente possível providenciar instrução religiosa nessas escolas (sobre este tema, consultar as declarações do Bispo Auxiliar Jacques Issac, dos Caldeus de Bagdade, na France-Catholique, edição No. 3026, de 26 de Maio de 2006). As Igrejas contam também com tribunais próprios, para todas as questões relacionadas com o seu estatuto próprio.
Por fim, e pela primeira vez na história do Iraque, aos cristãos tem sido possibilitada a organização de dezenas de partidos políticos denominacionais. Contudo, e de acordo com o Monsenhor Georges Casmoussa, o Arcebispo siro-católico de Mossul, os cristãos não têm real influência em termos institucionais ou jurídicos. Para além disto, muitos cristãos na província de Mossul têm sido privados do direito ao voto (ver Les Irakiens chrétiens: rumeurs, réalités, enjeux, uma mesa redonda organizada em Paris pela Oeuvre d'Orient, a 23 de Novembro de 2007).
Nada disto, contudo, é suficiente para garantir que os cristãos possam permanecer em segurança no Iraque. De acordo com o Arcebispo Jean-Benjamin Sleiman, da comunidade de rito latino em Bagdade, “uma perspectiva clara obriga a que se reconheça que tudo aponta para a dissolução do Cristianismo no Iraque. No actual quadro institucional, o qual torna a sharia a única fonte de legislação, não há lugar para os cristãos. Estes têm de escolher entre recolherem-se em si mesmos ou perderem-se entre os demais” (L'Homme nouveau, No. 1382, 11 de Novembro de 2006). Durante o discurso frente ao Senado Francês, em Paris, a 12 de Julho de 2007, o Arcebispo Sleiman afirmou, entre outros temas focados, que “eles (os cristãos) sentem amiúde ser vítimas de uma conspiração ou de um plano para uma reorganização política”. O Patriarca dos Caldeus, Cardeal Emmanuel II Delly, por sua vez, afirmou: “Sofremos porque temos o nome de cristãos” (30 Giorni, No. 6/7-2007). E, de facto, a ineficaz autoridade do Estado, acantonada no interior da Zona Verde fortificada no centro de Bagdade, coloca os cristãos numa situação extremamente precária. São vítimas de todos os tipos de violência, infligida por gangues ao estilo da Máfia, tirando proveito da sua vulnerabilidade, e por movimentos islâmicos que desejam reduzir os cristãos ao estatuto de dhimmis (“súbditos protegidos” submetidos ao poder muçulmano) ou obrigá-los a deixar o país. A agressão islâmica aumentou desde a proclamação, em Outubro de 2006, em Bagdade e nas regiões com maioria sunita, de um “Estado Islâmico do Iraque” por um ramo iraquiano da Al Qaeda conhecido como a “Aliança dos Embalsamados”, em reacção à aprovação pelo Parlamento de uma lei que cria um Estado Federal (Le Monde, 17 de Outubro de 2006).
Em Dora, um distrito maioritariamente sunita no Sul de Bagdade, onde os Cristãos eram outrora numerosos, encontram-se agora “sujeitos a uma efectiva purga religiosa”, afirma o Arcebispo Caldeu de Kirkuk, Louis Sako (Zenit, 24 de Junho de 2007). Três quartos dos Cristãos abandonaram o distrito (Joseph Yacoub, Les chrétiens engloutis dans la nuit irakiénne, Oasis, No. 6, Outubro de 2007, p. 93).
Os Patriarcas das Igrejas Caldeia e Assíria lançaram um apelo conjunto: “Os cristãos são vítimas de chantagem, de sequestros, sendo forçados a fugir de muitas partes do Iraque, particularmente aquelas controladas pelo denominado 'Estado Islâmico do Iraque' [...] enquanto o Governo permanece em silêncio, recusando-se a adoptar medidas radicais para colocar um travão nessas ocorrências” (Reconquête, Paris, No. 238, Maio de 2007).
Violência Anti-cristã
Assim, os cristãos iraquianos são diariamente vítimas de actos de violência e de intolerância. A seguinte é uma lista de ocorrências reportadas em 2006 e 2007.
A 29 de Janeiro de 2006, duas igrejas foram atacadas em Kirkuk. Um rapaz de treze anos, membro do coro, Fadi Raad Elias, foi morto, juntamente com outros três crentes cristãos. De acordo com o Arcebispo Sako, é complicado descobrir quem são exactamente os autores de tais crimes, de entre “extremistas, fundamentalistas, islamitas, criminosos comuns libertados por Saddam Hussein antes da invasão americana. Certos movimentos pretendem ‘purificar a sociedade’ de todos os elementos não muçulmanos, e impor a Lei Islâmica na sociedade, apesar de muitos iraquianos não saberem distinguir entre cristãos ocidentais e orientais” (Églises du Monde, No. 131, 3 tr. 2006).
A 12 de Abril de 2006, o Padre anglicano Andrew White relatou o sequestro e assassinato de quatro membros do programa de evangelização Alfa que com ele trabalhavam. Em Maio de 2006, um cristão que tinha procurado refúgio em Erbil (Curdistão) revelou o que sucedera a um dos seus correligionários: “Rimon, um dos meus vizinhos cristãos, tinha uma loja de discos; foi raptado e assassinado. Os terroristas enviaram um vídeo à sua família, onde se assistia à sua tortura. Decapitaram-no lentamente, e depois mergulharam a sua cabeça em água a ferver, segurando-a pelo cabelo” (Le Figaro, 15 de Maio de 2006).
A 15 de Julho de 2006, o Padre Raad Kashan foi sequestrado enquanto viajava de táxi em Bagdade. Desaparecido durante quarenta e oito horas, foi agredido e queimado nas costas e nas mãos com cigarros. Em seguida foi libertado, mas avisado: “Sabemos onde vives... Se não nos pagares 200 mil dólares dentro de dois dias, viremos à tua procura” (Le Monde 2, 28 de Outubro de 2006).
A 15 de Agosto de 2006, o Padre Saad Syrop Hanna, professor no maior seminário caldeu em Bagdade, foi raptado enquanto conduzia o seu automóvel. Libertado três semanas depois, foi hospitalizado. Em meados de Setembro, o Padre Bassel Yeldo, secretário do Patriarca Delly, foi sequestrado durante vinte e quatro horas (Le Monde 2, 28 de Outubro de 2006).
A 8 de Outubro de 2006, o Padre Amer Iskander, pároco da Igreja Siro-Ortodoxa de Santo Efrém, em Mossul, foi raptado. Os raptores pediram um resgate de 350 mil dólares e um pedido de desculpas da parte da Igreja pelos comentários proferidos por Bento XVI em Regensburg, declarações das quais a Igreja Siro-Ortodoxa procurara já distanciar-se. Foi encontrado decapitado a 11 de Outubro (Églises du Monde, No. 133, 1 tr. 2007).
A 9 de Outubro de 2006, pouco após o discurso de Regensburg, um sacerdote siro-ortodoxo, Padre Boulos Iskandar, foi raptado em Mossul por um grupo auto-intitulado “Os Leões do Islão”, os quais, para além de um resgate no valor de 280 mil euros, exigiram que trinta proclamações, nas quais se apresentavam desculpas pelas “palavras ofensivas do Papa em relação ao Islão”, fossem espalhadas pelas paredes de todas as igrejas da cidade. Quatro dias mais tarde, o seu corpo decapitado foi encontrado, a Leste de Mossul. Nesse mesmo dia, um outro sacerdote, Padre Joseph Petros, foi assassinado em Bagdade (Le Monde 2, 28 de Outubro de 2006; Saint-Pierre d'Antioche Bulletin, França, No. 36, Novembro de 2007).
A 19 de Novembro de 2006, o Padre Douglas Youssef Bazi, pároco da igreja caldeia de Santo Elias, em Bagdade, foi raptado e libertado nove dias mais tarde. Em 4 de Dezembro, um outro sacerdote, o Padre Samy Raiys, reitor do seminário caldeu, foi sequestrado durante seis dias em Bagdade e posteriormente libertado (La Croix, 7 de Dezembro de 2006 e 12 de Dezembro de 2006).
A 26 de Novembro de 2006, Mundher Aldayr, Pastor protestante em Mossul, foi assassinado no centro da cidade (Joseph Yacoub, Oasis, No. 6, Outubro de 2007, p. 92).
A 26 de Março de 2007, duas religiosas caldeias, Fawzeiyah e Margaret Naoum, foram mortas por esfaqueamento no seu convento em Kirkuk (Zenit, 29 de Março de 2007).
A 23 de Abril de 2007, uma bomba explodiu na aldeia cristã de Tale-Esqof, perto de Mossul, matando vinte cristãos assírio-caldeus (Joseph Yacoub, Oasis, No. 6, Outubro de 2007, p. 92).
Em Maio de 2007, a Radio Vaticana noticiou o sequestro de sete cristãos que viajavam num minibus. Foram obrigados a parar num ponto de controlo a cargo de rebeldes que, contudo, envergavam uniformes das forças de segurança. Os seus corpos foram encontrados na estrada para Bakouba, junto aos restos calcinados do veículo em que se faziam transportar. Nessa mesma altura, foram descobertos em Bagdade os corpos de vinte e quatro cristãos; era óbvio que tinham sido torturados antes de serem assassinados (Zenit, 21 de Maio de 2007). Ainda nesse mês, uma bomba explodiu num automóvel perto de uma escola, numa aldeia cristã no Norte do Iraque; dez pessoas morreram, entre as quais duas crianças, e outras cento e quarenta ficaram feridas, entre estas duas religiosas Dominicanas de um convento nas proximidades, que ficou, também bastante danificado (Reconquête, No. 238, Maio de 2007).
A 21 de Maio, o Padre Nawzat Hanna, sacerdote caldeu, foi raptado e libertado dois dias depois, em Bagdade (Zenit, 22 de Maio de 2007).
A 3 de Junho de 2007, um outro sacerdote caldeu, Padre Raghid Aziz Ganni, e três sub-diáconos que o acompanhavam, Basman Yousef Daoud, Wahid Hanna Isho e Gassan Issan Bidawid, foram abatidos após a Missa Dominical em Mossul (La Croix, 5 de Junho de 2007; Églises du Monde, No. 135, 3 tr. 2007). O Padre Ganni, que leccionava no seminário maior caldeu (o qual havia sido transferido para esta região; ver abaixo), era também responsável por duas paróquias, São Paulo e Espírito Santo. Nos meses anteriores ao seu assassinato, havia recebido três cartas ameaçadoras, as quais exigiam que nunca mais entrasse numa igreja, celebrasse missa ou organizasse e falasse em encontros (Famiglia Cristiana, 16-22 de Junho de 2007).
Por sua vez, o Arcebispo Louis Sako afirmou que: “O actual Governo parece incapaz de garantir a segurança ou aplicar a lei; não há milícias cristãs para defender os Cristãos; assim, um cristão é um indivíduo particularmente vulnerável [...]. Em Dora (Bagdade), os Cristãos estão a ser sujeitos a uma verdadeira purga religiosa” (Zenit, 24 de Junho de 2007).
No início de Junho de 2007, um sacerdote caldeu, Padre Hani Abdel Ahad, e quatro jovens crentes que o acompanhavam, foram raptados em Bagdade. Todos foram libertados alguns dias depois (Zenit, 18 de Junho de 2007).
Durante o mesmo mês, seis estudantes foram sequestrados quando regressavam, de autocarro, da Universidade de Mossul. O Arcebispo siro-católico de Mossul, Georges Casmoussa, comentou o incidente: “O autocarro fazia parte de um projecto organizado pela Igreja para transportar 1000 estudantes cristãos que habitam nas aldeias nas imediações de Mossul. Em resultado deste incidente, os autocarros não estarão disponíveis no próximo ano, e, assim, cerca de 1.500 estudantes cristãos – mais de metade dos quais raparigas – correm o risco de não poderem prosseguir os seus estudos” (Mesa Redonda organizada em Paris pela Oeuvre d'Orient, 23 de Novembro de 2007).
A 6 de Julho de 2007, um sacerdote caldeu, Padre Georges Ata, o seu filho e dois outros membros da sua família, foram raptados na região de Sleiman Bek, 200 km a Nordeste de Bagdade. Os raptores exigiram uma “significativa quantia em dinheiro em troca da sua libertação” (Zenit, 6 de Julho de 2007). Foram libertados a 11 de Julho.
A 13 de Outubro de 2007, dois sacerdotes siro-católicos, Padre Mazer Ishoa Mattoka, pároco da Igreja de São Tomás em Mossul, e o seu vigário, Padre Pios Affas, foram sequestrados no distrito de Faisaliya, no Norte da cidade, enquanto se dirigiam a pé para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima onde iria ter lugar um funeral (Zenit, 17 de Outubro de 2007 e 23 de Outubro de 2007). Os raptores haviam exigido um resgate (La Croix, 16 de Outubro de 2007).
Também em 2007, o jornalista iraquiano Sahar El Haieri foi assassinado em Bagdade na sequência da publicação de um artigo no qual escrevera sobre os Cristãos, e que concluíra da seguinte forma: “Se um Governo forte não garantir a sua segurança, é de temer que os Cristãos desapareçam completamente desta região do mundo” (do Saint-Pierre d'Antioche Bulletin, nº 36, Novembro de 2007).
A esta lista devem ser acrescentados centenas de outros cristãos anónimos que sofreram o mesmo destino. “Centenas de famílias cristãs estão a ser arruinadas, juntamente com as suas crianças. CD's contendo imagens de execuções têm sido depositados nas suas caixas de correio para aterrorizar os cristãos, persuadindo-os a abandonar os seus locais de culto, a converterem-se [ao Islão] ou a deixar o Iraque imediatamente, sob pena de sofrerem o mesmo destino daqueles mostrados nos vídeos” (Saint Pierre d'Antioche Bulletin, No. 36, Novembro de 2007).
A violência é também dirigida aos cristãos que não cumprem as leis islâmicas. Uma médica cristã, refugiada em Dohouk (Curdistão), revelou tudo aquilo a que tinha sido sujeita durante os estudos de especialidade na capital. “Nas últimas semanas em Bagdade, fui forçada a utilizar um chador para sair à rua. Os extremistas raparam o cabelo a duas estudantes, agredindo as mesmas por não usarem o véu, tendo depois exposto as suas fotografias no complexo universitário, com o aviso: “Não mostrem o cabelo, ou rapá-lo-emos e matamo-las” (Le Monde 2, 28 de Outubro de 2006).
Uma advogada cristã de Mossul, Ilham Sabah, explica que usa o véu dado temer ser morta caso não o faça; as milícias insultam as mulheres cristãs, queimando-as ou matando-as caso se recusem a vestir-se como as mulheres muçulmanas (Saint-Pierre d'Antioche Bulletin, No. 36, Novembro de 2007).
Cartas anónimas têm sido endereçadas a cristãos, os quais são considerados dhimmis. O Arcebispo Georges Casmoussa abordou este tema num relatório apresentado ao Conselho Episcopal, em Niniveh, a 12 de Outubro de 2006: “Será que os cristãos não mais poderão gozar a honra da normalidade? 'Vocês são traidores (kafir)'. 'São lacaios dos americanos'. 'Têm de pagar a djizya (imposto especial imposto pelo Alcorão cf. 9, 29) como todos os outros'. Estas são algumas das expressões humilhantes que preenchem as intimidatórias e ameaçadoras cartas anónimas recebidas pelos cristãos, para os obrigar ao pagamento de resgates exorbitantes em dólares americanos, resgates esses que são impostos pelos moudjahidin (guerreiros muçulmanos)” (ver também Zenit, 21 de Maio de 2007).
Muitas destas cartas, contendo uma bala Magnum de calibre 22, ordenam aos destinatários que deixem o local onde se encontram num prazo máximo de três dias (La Croix, 12 de Julho de 2007).
Em Dora, os cristãos têm sido forçados a abandonar as suas casas, nada levando com eles, e sendo mesmo obrigados ao pagamento de um “imposto de saída”. Têm então apenas uma hipótese: podem permanecer no distrito apenas se concordarem em oferecer uma filha ou irmã para casamento com um muçulmano (Églises du Monde, No. 135. 3 tr. 2007). De acordo com o Cardeal Delly, “especialmente em Badgade e Mossul, mas também em Kirkuk e em Basra, estes grupos violentos têm por hábito bater à porta de residências de cristãos e forçar as famílias a pagar logo uma soma de dinheiro, quase como uma 'multa', por vezes obrigando a família inteira a assumir publicamente a conversão ao Islão, e forçando o pai a oferecer imediatamente uma das filhas como 'noiva' a um dos jovens membros do gangue. Por fim, ordenam que abandonem imediatamente aquela morada e que deixem o país, ‘porque esta não é a vossa pátria’. Recentemente, centenas de famílias foram forçadas a emigrar e dezenas obrigadas a 'converter-se' ao Islão. E, como se não bastasse, há ainda os sequestros; ao que sei, muitos dos que recusaram a conversão foram assassinados” (30 Giorni, No. 6/7, 2007).
Os agressores atacam também os locais de culto. Em Junho de 2007, um convento de religiosas caldeias do Sagrado Coração, no distrito de Dora, em Bagdade, uma praça-forte islâmica, foi atacado por um grupo de terroristas, aproveitando a ausência das duas religiosas que aí habitavam. Quando regressaram, as Irmãs encontraram o convento saqueado e transformado numa base para operações militares (Reconquête, Paris, No. 238, Maio de 2007). Nesse mesmo dia, duas igrejas foram atacadas na mesma zona de Bagdade, a Igreja de São João Baptista e a de São Tiago, a qual, aparentemente, foi transformada numa mesquita (Zenit, 8 de Junho de 2007).
Durante o mesmo ano, as cruzes em todas as igrejas em Dora foram removidas por islamitas. Foram posteriormente devolvidas aos legítimos donos, mas o clero não ousou voltar a colocá-las aos seus devidos locais (Églises du Monde, No. 135, 3 tr. 2007).
Confrontadas com constantes ameaças, as sete igrejas em Dora foram encerradas (Joseph Yacoub, Oasis, No. 6, Outubro de 2007). Para além disto, e na sequência dos sequestros, em 2006, do reitor e do pro-reitor da Colégio Babel, os Padres Samy Raiys e Salem Basel Yaldo, em Setembro desse ano, a Igreja Caldeia decidiu transferir tanto o Colégio Pontifício como o seminário maior de São Pedro, os quais estavam situados no mesmo distrito de Dora. Em Janeiro de 2007, estas duas instituições retomaram as suas actividades em Ankawa, perto de Erbil, no Curdistão iraquiano (Églises du Monde, No. 135, 3 tr. 2007). Os edifícios em Dora foram então requisitados pelas tropas americanas (Joseph Yacoub, Oasis, No. 6, Outubro de 2007). Em Bagdade, também os Dominicanos foram obrigados a encerrar o seu centro educacional para leigos, o qual havia sido inaugurado perto da Catedral Latina de São José.
O Curdistão, província que goza de grande autonomia e onde os cristãos se encontram mesmo representados nas instituições estatais (com um ministro e cinco representantes no Parlamento nacional curdo, o qual conta com 111 membros eleitos), tem acolhido muitas famílias cristãs. Ao todo, cerca de 100 mil pessoas aí rumaram, após fugirem de Bagdade e de Mossul. Algumas regressaram, efectivamente, à sua província de origem, a qual haviam sido forçadas a abandonar na sequência da repressão exercida sobre os Curdos por parte do regime de Saddam Hussein. Mas viram-se agora impossibilitadas de recuperar a posse das quintas que anteriormente possuíam e, em resultado disto, enfrentam muitas dificuldades na busca de trabalho. Para além disto, estes cristãos não falam a língua Curda, não se sentindo seguros no que toca a um futuro no Curdistão, como um deles explicou: “Os Cristãos não têm futuro no Iraque; até as crianças lhe dirão o mesmo. Hoje em dia, os líderes curdos constroem-nos casas para ficarem bem vistos. Mas o extremismo vai chegar, como aconteceu em Basra. Não pode ser detido. Não se pode mudar o Islão; um dia chamam-te 'irmão', no outro, matam-te” (Le Monde 2, 28 de Outubro de 2006).
Finalmente, na cidade de Basra, no Sul do Iraque, cidade maioritariamente Xiita, a pressão sobre os Cristãos é tão forte que o Arcebispo Caldeu Djibraïl Kassab teve de deixar a cidade. Deve também ser realçado que os cristãos locais se sentem ameaçados pela chegada de missionários americanos neo-protestantes, os quais se começaram a estabelecer no Iraque durante o embargo internacional (1991-2003) a coberto de organizações de apoio humanitário. Desde a invasão de 2003, estes missionários têm-se espalhado pelo país, alugando edifícios por toda a parte, os quais transformam em templos (ver La Croix, 19 de Maio de 2006). Referindo-se a estes pregadores, o Arcebispo Sleiman afirmou: “Têm apenas um lema, que é a liberdade de religião. Contudo, e na minha opinião, não respeitam as Igrejas que aqui estão presentes há muito. Para além disso, ao pretenderem converter muçulmanos, geram imensa suspeição. O seu proselitismo não respeita a mentalidade iraquiana. Os Cristãos iraquianos têm raízes culturais e uma perspectiva histórica semelhante à dos Muçulmanos. Não se pode aqui chegar com uma atitude imperialista e implantar, simplesmente, o Cristianismo. Esta atitude apenas aumenta, e exponencialmente, os sentimentos de suspeição para com os Cristãos” (Zenit, 2 de Abril de 2007).
Para escapar ao caos em que se encontram mergulhados, os Cristãos abandonam o Iraque rumo a países vizinhos, onde esperam conseguir vistos para o Ocidente. No final de 2007, contavam-se entre vinte e cinco e trinta mil na Jordânia, 100 mil na Síria, quatro mil na Turquia, alguns milhares no Líbano (ver Mesa Redonda organizada pela Oeuvre d'Orient, 23 de Novembro de 2007). No Iraque, de entre uma população de vinte e oito milhões de habitantes, contam-se não mais de 200 a 300 mil cristãos, quando em 2003 se contavam cerca de 800 mil (Églises du Monde, No. 135, 3 tr. 2007).
Muçulmanos
A guerra civil que coloca frente a frente milícias xiitas e milícias sunitas provocou uma situação de grave insegurança que também afecta a vida religiosa de ambas as comunidades. A identificação de movimentos religiosos com movimentos políticos, típica do mundo islâmico, torna extremamente difícil distinguir entre as verdadeiras motivações por detrás dos numerosos e sanguinários atentados e ataques a mesquitas aquando de cerimónias religiosas, funerais e matrimónios. Ambas as comunidades choram os milhares de vítimas causadas por um ódio homicida ao qual, com extrema dificuldade, os elementos mais racionais do mundo islâmico iraquiano procuram pôr fim.
Mandeanos
Para além dos Cristãos, outras minorias não muçulmanas têm sido vítimas de perseguição, não recebendo protecção por parte das autoridades. Entre estas encontram-se os Mandeanos, seguidores de uma religião dualista que surgiu nos primeiros séculos da era moderna, inspirada por São João Baptista. Em Março de 2007, a BBC noticiou numerosos casos de violações e agressões, entre os quais o caso de uma criança de nove anos, raptada por extremistas e obrigada a saltar para uma fogueira dado ser Mandeana. De acordo com Kanzfra Sattar, um dos cinco “bispos” Mandeanos, esta comunidade está a ser confrontada com o “genocídio”: “Alguns não nos consideram 'Povos do Livro' [Judeus e Cristãos]. Vêem-nos como descrentes. Em resultado disto, acreditam ter o direito de nos matar”. Acredita-se que mais de 80% desta comunidade com cinquenta mil membros tenha fugido do país, rumo à Síria ou à Jordânia (La Croix, 7 de Março de 2007).
Yazidis
Destino semelhante tem sido o reservado aos Yazidis, a maioria dos quais habita na região em redor de Mossul, e no Curdistão. Seguidores de uma religião sincretista que mistura o Zoroastrianismo, o Maniqueísmo, o Nestorianismo e o Judaísmo, foram reconhecidos pela Constituição de 2005, a qual autoriza a sua religião. Os Yazidis contam com três lugares no Parlamento nacional e dois no Parlamento Autónomo Curdo. Contudo, e aos olhos dos muçulmanos, eles são pagãos e, assim, não têm quaisquer direitos. Desde a invasão americana em 2003, pelo menos 1000 civis shabak (um ramo dos Yazidis) foram mortos por Sunitas na região de Mossul e quatro mil viram-se forçados a abandonar as suas casas.
A 23 de Abril de 2007, um grupo de homens armados parou um autocarro que transportava Yazidis da sua aldeia em Deshika, a 10 km de Mossul, matando vinte e três destes. A 15 de Agosto de 2007, ocorreram quatro ataques simultâneos com viaturas armadilhadas, que tiveram por alvo cidadãos Yazidis, causando a morte de 200 destes (La Croix, 16 de Agosto de 2007).