Ásia
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   Muçulmanos
   Cristãos
   Outros
Católicos Baptizados
1.041.000
Circunscrições Eclesiásticas
7
Superfície
796.095
População
156.250.000
Refugiados
2.035.023
Desalojados
Paquistão

 

2008-2009 

 

Aspectos jurídicos e institucionais
O ano de 2008 iniciou-se com um escalar das tensões no seguimento do assassinato da antiga primeira-ministra Benazir Bhutto, morta em Rawalpindi no dia 27 de Dezembro de 2007, dois meses depois do seu regresso do exílio. Ao longo do ano, o país assistiu a novas ondas de ataques por parte dos Talibãs, cuja violência foi sentida com particular destaque em cidades como Lahore, Karachi e Islamabad. Porém, há já vários anos que a província fronteiriça do Noroeste tem sido o local da luta mais intensa contra o terrorismo.
Em Março, o Governo conseguiu chegar a umas frágeis tréguas com os extremistas. Em Maio, tentou consolidar o acordo, entregando o controlo e a administração do Vale de Swat ao movimento islamista Tehreek-e-Taliban Swat. Segundo o acordo oficial, que deveria ser implementado este ano, o Governo reconhece a autoridade Talibã naquela zona e o direito de implementar a justiça de acordo com a lei islâmica. Assinado com o objectivo de reduzir a violência extremista e limitar as suas incursões na zona norte do país, o acordo teve o efeito oposto, forçando muitos residentes a partir. Registaram-se centenas de episódios violentos envolvendo mulheres e minorias religiosas, em particular atentados à bomba contra escolas femininas e propriedades de não muçulmanos.


Em termos políticos, durante este ano assistimos à queda do Presidente Pervez Musharaff depois de um longo braço-de-ferro com o Partido Popular do Paquistão (PPP), liderado por Asif Ali Zardari, o marido de Bhutto e a Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz (LMP-N), do anterior primeiro-ministro Nawaz Sharif.


Os dois partidos ganharam eleições parlamentares realizadas no dia 18 de Fevereiro. Pediram a destituição do presidente Musharaff, tendo acabado por conseguir a sua demissão em Agosto. Porém, a coabitação entre o PPP e a LMP-N provou ser difícil e o Governo de coligação e os seus ministros acabaram por usufruir de uma margem de manobra muito estreita para conseguirem agir.


Além do acordo com os Talibã na província fronteiriça do Noroeste, as acções do Governo tiveram outro grande impacto sobre a aplicação da lei quando foram libertados sessenta juízes presos por Musharraf durante o estado de emergência que ele próprio impôs, em Novembro de 2007. No entanto, esta ordem, assinada pelo primeiro-ministro Yusuf Raza Gilani, depois de ter tomado posse no dia 25 de Março, não resolveu a questão sobre o modo como reintegrar os juízes suspensos.


Do mesmo modo, o destino do Juiz Iftikhar Mohammed Chaudhry representou uma grande dor de cabeça para o Governo, uma vez que, do mesmo modo que Musharraf nutria uma grande antipatia por ele, o líder de PPP temia-o já que Chaudhry poderia novamente vir a apresentar queixa contra ele após a sua reintegração.


A demissão de Musharaff conduziu à eleição de Zardari, no dia 6 de Setembro, enquanto décimo-primeiro presidente do Paquistão. As organizações da sociedade civil e os grupos humanitários ficaram pouco impressionados com a subida ao poder do marido da falecida Benazir Bhutto, devido às suas condenações em 1996 por acusações de corrupção, de assassinato e de tráfico de drogas. Ainda assim, Zardari conseguiu responder aos seus adversários e detractores ao conseguir unir o complexo mundo político do Paquistão em torno da luta contra o terrorismo.


Em Agosto e Setembro, os confrontos entre o Governo e extremistas islâmicos intensificaram-se no seguimento de uma ofensiva Talibã para tomar o controlo da parte norte do país. Islamabad respondeu com uma acção militar em larga escala, a qual por sua vez provocou uma nova onda de ataques por parte dos extremistas, tendo sido o mais sensacionalista de entre estes o ataque à bomba, em 20 de Setembro, contra o Hotel Marriott, na capital do Paquistão.


As Secções b) e c) do Artigo 295º do Código Penal Religioso do Paquistão, mais conhecidas colectivamente como a lei da blasfémia, continuam a afectar negativamente as minorias religiosas do país, pois os grupos islâmicos radicais usam-nas para atacar os não muçulmanos e apresentar queixas contra eles, assim como também em ajustes de contas entre muçulmanos.


Nesta área, o Governo não foi além de declarações gerais sobre um aumento dos cuidados a ter face às ofensas. Não obstante, o novo gabinete formado depois de a LMP-N deixar o Governo, concedeu aos Assuntos Minoritários o estatuto de ministério. Um membro católico da Assembleia Nacional (MNA), Dr. Shababz Bhatti, que também encabeça a Aliança de Minorias de Todo o Paquistão (APMA) foi nomeado para o cargo. Tal como a AsiaNews relatou no dia 3 de Novembro, o novo ministro prestou juramento em nome do “oprimido, subjugado e marginalizado” povo do Paquistão. A sua nomeação foi uma notícia bem-vinda e fez crescer a esperança por entre as minorias religiosas do país, especialmente entre os cristãos.


Em Maio, quando era apenas uma figura de segundo plano no Parlamento, Bhatti tinha pedido ao Governo a libertação imediata dos indivíduos detidos sob acusações infundadas de blasfémia, assim como a criação de novas regras para evitar os abusos dessa mesma lei.

Lei da blasfémia e discriminação religiosa
A lei da blasfémia continua a ser o maior instrumento de discriminação no país, e os membros das minorias religiosas, especialmente os cristãos, são os mais afectados, embora os muçulmanos não estejam imunes. Não só ocorre que muitos muçulmanos usam a lei para atacar e acusar indiscriminadamente os cristãos, os hindus, os sikhs e os parsis, como a usam também para exercer pressão sobre as autoridades e intimidar outros indivíduos e em várias situações. Um caso que é de salientar entre muitos outros é o de Robin Sardar, um médico cristão que foi preso no dia 5 de Maio na aldeia de Hafizabad.


Como relatou a AsiaNews, a polícia prendeu-o com base em acusações feitas por Muhammad Basir, um antigo empregado da clínica do médico, o qual fora despedido por não atender ao pedido do mesmo para que parasse com a propaganda religiosa dentro do estabelecimento médico.


Depois de perder o emprego, Basir declarou que ouvira Sardar insultar o profeta Maomé, uma acusação que valeu ao pobre médico cinco meses de detenção na prisão central de Gujranwala, antes de ter sido exonerado de todas as acusações. Falando à AsiaNews no dia 3 de Novembro de 2008, o Dr. Sardar afirmou: Jesus “salvou-me [. . .] Eu agradeço a Deus pelo facto de ainda estar vivo e de boa saúde. Infelizmente, tenho de viver escondido, mudando de localização de vez em quando.”


Outro caso esclarecedor envolve um jovem jornalista muçulmano, Sayed Perwiz Kambakhsh, que foi condenado à morte. Este jovem de 23 anos foi acusado de distribuir panfletos que difamavam os princípios sagrados do Islão. Desde a sua detenção, em Outubro de 2007, Kambakhsh tem vindo a proclamar a sua inocência. Ainda assim, foi condenado à morte, em Janeiro de 2008. Mais tarde, o Supremo Tribunal Afegão concordou em ouvir um recurso para comutar a sentença para prisão perpétua.


A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), uma organização que representa 600 mil jornalistas de 120 países, descreveu o julgamento como sendo uma “farsa”, afirmando por diversas vezes que o jovem jornalista foi torturado na prisão.


Devido à deterioração do estado de saúde de Kambakhsh, a FIJ apelou directamente ao presidente afegão, Karzai, pedindo-lhe que acelerasse o processo de recurso - o qual tinha sido adiado em várias ocasiões - na expectativa de que este fosse rápido e transparente. 


Lamentavelmente, a polícia vira frequentemente a cara a abusos da lei da blasfémia, e por vezes está mesmo envolvida em tais situações. Foi este o caso de Jagdeesh Kumar, de 22 anos. Empregado numa fábrica de couros, foi a primeira vítima hindu da lei da blasfémia, tendo sido morto pelos seus colegas de trabalho muçulmanos no início de Abril. Numa entrevista ao jornal Dawn no dia 27 de Abril, a sua irmã, Rameshri, descreveu como o seu irmão foi morto no local de trabalho e o modo como a sua família teve de suportar o ostracismo desde a sua morte. Afirmou ainda que, embora os três trabalhadores que espancaram o seu irmão até à morte tenham sido presos, não foram acusados de assassinato mas sim de “falta de informação à polícia de que se estava a praticar a blasfémia”.


De acordo com estatísticas providenciadas pela Comissão Episcopal da Justiça e da Paz da Igreja Católica do Paquistão, centenas de pessoas foram presas desde que a lei da blasfémia foi introduzida em 1986, e cerca de vinte e cinco pessoas foram de facto assassinadas. O pior de tudo é que os que foram mortos não foram condenados e executados, mas sim espancados até à morte por extremistas religiosos, por vezes mesmo enquanto se encontram sob custódia policial. Fontes locais afirmam que, até ao momento, 892 pessoas foram acusadas ao abrigo das provisões relativas à blasfémia que fazem parte do Código Penal, mas o número real é provavelmente bastante mais alto, pois os dados relativos a condenações efectuadas antes de 1995 não se encontram disponíveis.

Ataques explícitos contra cristãos
Além de muitos casos que envolvem acusações de blasfémia, os cristãos são também vítimas de ataques contra os seus lugares de culto, as suas instituições e enquanto indivíduos, especialmente em zonas tribais e em aldeias rurais. Um exemplo é o da Igreja de São Paulo, na aldeia de 'Chak 77-RB', 'Lohekay', aproximadamente a 30 km de Faisalabad, que foi atacada no dia 17 de Dezembro de 2008. Os atacantes queimaram uma bíblia e outros textos sagrados e deixaram uma carta a ameaçar os cristãos de que “irão arder no fogo do inferno” se não se converterem ao Islão.


O ataque não foi fortuito, tendo ocorrido imediatamente antes do Natal, uma altura simbolicamente importante. De acordo com um sacerdote local, o Padre Yagoob Yousaf, que chegou ao local do ataque logo depois da afronta, “esta é uma época santa para todos os cristãos” e este tipo de incidentes cria “medo e é um acto realizado para perturbar os cristãos na época do Advento”.


A discriminação religiosa é maior na província fronteiriça do Noroeste. O acordo entre os extremistas islâmicos e o Governo sancionou formalmente um processo de talibanisação que decorria já há alguns anos. A imposição da Sharia passou a dar aos tribunais islâmicos o poder absoluto naquela região.


Em Dezembro de 2008, a violência deflagrou em aproximadamente 60% da zona controlada pelos Talibãs do Vale de Swat, onde vive mais de um milhão de pessoas. Mais de 150 escolas foram destruídas, em particular escolas femininas. Nestas instituições, 95% das alunas são muçulmanas, embora as escolas sejam geridas principalmente por missionários e organizações cristãs. Agora, elas correm o risco de virem a ser encerradas.


Para as comunidades católicas e protestantes da região, cerca de 1000 pessoas no total, o futuro parece ser muito incerto. Muitos deles são operários e varredores de ruas; alguns trabalham em hospitais e alguns ensinam em escolas geridas por missões. Todos temem a discriminação e muitos começaram a fazer as malas para se mudarem para zonas onde a Sharia não seja imposta.


Desde o início do ano, os Talibãs têm perseguido tudo o que consideram ser anti-islâmico, como escolas, lojas que vendam vídeos e CDs, barbearias, assim como outras actividades públicas e empresariais.

Perseguição a xiitas e ahmadis
A discriminação religiosa não afecta só os não muçulmanos. Os xiitas e os ahmadis também são vitimizados, especialmente estes últimos pois são vistos como heréticos pelos sunitas.


No dia 18 de Janeiro, durante a primeira onda de ataques que varreu o país, um jovem de 15 anos fez-se explodir na grande mesquita xiita de Mirza Qasim Ali Imambargah, em Peshawar, capital da província fronteiriça do Noroeste.


No Paquistão, as rixas no seio do Islão são um perigo sempre presente, em particular no Norte. Embora as áreas públicas e os lugares de culto sejam especialmente vulneráveis a ataques, os territórios tribais transformaram-se na arena principal onde os confrontos têm lugar, com centenas de pessoas a serem mortas e a ficarem feridas.


Como foi relatado pela agência noticiosa DPA, nas duas primeiras semanas de Agosto, no começo de uma nova onda de confrontos entre o exército paquistanês e os Talibãs, novos confrontos entre sunitas e xiitas no distrito tribal de Kurram, uma zona predominantemente xiita situada na fronteira com o Afeganistão, causaram quase 300 mortos.


A violência sectária, ainda que frequentemente expressa em termos de ortodoxia islâmica, está frequentemente enraizada numa luta de poder entre a maioria sunita e a minoria xiita.


Em 2008, os ataques com motivação religiosa aumentaram. Durante o mês muçulmano de Muharram (10 de Janeiro a 8 de Fevereiro de 2008), quando os xiitas tomam parte em procissões por todo o país, o Governo destacou tropas adicionais para as áreas mais sensíveis.


Para os ahmadis, a situação é diferente. Cerca de três milhões têm por lar o Paquistão, principalmente no Punjab. Para os muçulmanos da corrente maioritária, eles são considerados heréticos porque não reconhecem Maomé como o último profeta. Permanentemente ostracizados, os ahmadis são alvos frequentes de acusações de blasfémia, por vezes com o apoio das autoridades.


Por exemplo, em Maio de 2008, o Governo paquistanês impediu que a comunidade ahmadi de Rabwa, uma das maiores no mundo, realizasse as celebrações centenárias da sua grande festividade denominada Jamaat Ahmadiyya Khilafat, a qual comemora o nascimento da comunidade ahmadi. Nessa ocasião, a polícia colocou os promotores do evento sob prisão domiciliária e registou um Primeiro Relatório de Informação (PRI) contra toda a população da cidade. “Os agentes chegaram e proibiram-nos de desfilar, [de fazer] refeições comunitárias, [e] até mesmo de usar fogo-de-artifício. Isto não é mais do que o último [exemplo de] violação dos direitos humanos no Paquistão”, declarou à AsiaNews Saleem-ud-din, o porta-voz da comunidade.


Em 2008, thepersecution.org, uma publicação on-line que segue com atenção a perseguição à comunidade ahmadi, relatou mais de noventa casos de muçulmanos ahmadi que foram presos pela polícia por razões religiosas.


Tal como os cristãos e outras minorias religiosas, os ahmadis são acusados de blasfémia, mas, no seu caso, as prisões são levadas a cabo com base nas Secções b) e c) do Artigo 298º do Código Penal do Paquistão, o qual identifica especificamente os ahmadis para lhes negar o direito de se considerarem muçulmanos, bem como o de pregar e de promover a sua fé em público. Na realidade, até mesmo a Constituição do Paquistão os descreve como não muçulmanos.

 

 

2007-2008 

Apesar das eleições deste ano, que foram ganhas pelo Partido Popular do Paquistão (teoricamente, um partido moderado e secular), nos últimos dois anos assistiu-se a um aumento drástico no número de ataques contra minorias religiosas por todo o país. Frequentemente estes "ataques" tomaram a forma de fatwas (éditos ou decisões por parte de tribunais islâmicos com consequências de vida e de morte para os abrangidos, inclusive não muçulmanos), mas também incluíram assaltos à mão armada contra locais de culto e o sequestro de membros de minorias religiosas. Sem dúvida o pior instrumento de repressão religiosa é a lei da blasfémia, a qual continua a causar cada vez mais vítimas. Esta lei refere-se na realidade ao Artigo 295, B e C, do Código Penal do Paquistão. A secção B refere-se a ofensas contra o Alcorão que são puníveis com prisão perpétua; a secção C refere-se a actos que enxovalham o profeta Maomé, puníveis com prisão perpétua ou com a morte. Em conjunto com a regulamentação hudud – um conjunto de castigos legais inspirados no Alcorão que incluem o açoitamento e o apedrejamento por actividades julgadas incompatíveis com a lei islâmica, como o adultério, o jogo, o consumo de álcool, crimes contra a propriedade - a lei da blasfémia é um exemplo da legislação mais sectária e mais fundamentalista que o país alguma vez teve. De acordo com alguns analistas, esta lei é uma das ferramentas utilizadas pelos fundamentalistas muçulmanos para atingir as minorias e empurrar cada vez mais o país para o caminho da islamização radical.
De acordo com a Comissão para a Justiça e a Paz, a União das Igrejas Cristãs do Paquistão e um grande número de organizações de direitos humanos, a lei de blasfémia "é má"; é "como uma espada de Damocles pendente sobre as minorias paquistanesas, além de ser uma clara violação dos seus direitos religiosos e humanos na medida em que estes são garantidos pela Constituição". 


Khalil Tahir, responsável pelo Fundo Adal, o qual ajuda a comunidade cristã a se defender contra falsas acusações, disse à AsiaNews que a maioria "dos acusados ao abrigo da lei da blasfémia são de minorias religiosas e sociais"; é por isso que é importante ajudá-los, diz ele, "nos tribunais e na prisão e também depois de serem libertados". Infelizmente, esta ajuda é necessária com muita frequência.
Pervez Masih, de 33 anos, era professor antes de ser acusado de blasfémia. Foi libertado no dia 8 de Abril de 2006, depois de cinco anos na prisão. O tribunal que o libertou considerou-o inocente e mesmo assim ele ainda vive debaixo da sombra das ameaças. Não pode sequer construir uma casa para si pois tem de estar constantemente a mudar-se.
Durante o seu julgamento, ele afirma que: “um alto funcionário da administração local convidou-me a adoptar o Islão e, em troca, eles retirariam as acusações contra mim. Eu recusei e a minha defesa não foi sequer considerada. Na prisão, vi pelo menos dez cristãos a serem forçados a converter-se. Eu tive sorte: Deus ajudou-me a permanecer forte na minha fé".

Ranjha Masih, um cristão de Lahore, enfrentou o mesmo calvário. Também ele foi condenado a prisão perpétua mas acabou por ser libertado em Novembro de 2006, depois de oito anos de prisão na solitária. Masih, de 58 anos, foi preso no dia 8 de Maio de 1998, o dia do funeral do Bispo John Joseph, que se suicidou com um tiro como protesto contra a lei da blasfémia. Logo depois do seu funeral, os cristãos locais manifestaram-se contra o governo. Foram lançadas pedras, com uma delas a atingir uma tabuleta de uma loja que continha um verso do Alcorão. Com base neste incidente, a polícia prendeu Masih e acusou-o de blasfémia.

Em 2003, um tribunal de Faisalabad condenou Masih a prisão perpétua por entre os protestos de muçulmanos locais que exigiam que ele fosse enforcado. Ao longo da sua sentença de prisão, a polícia manteve-o em prisão solitária “por razões de segurança”. Foi libertado graças aos esforços do Centro para a Assistência Judiciária Gratuita e Acordos (CLAAS) de Lahore. Agora ele espera imigrar para a Alemanha, mas uma carta anónima enviada a um jornal anunciou que ele sofrerá uma morte violenta "onde quer que se esconda".
O perigoso assunto da blasfémia não termina, no entanto, com os tribunais. Nos últimos anos, os muçulmanos tomaram cada vez mais a lei nas suas próprias mãos e aplicaram doses da sua versão de "justiça" contra os "blasfemos". Durante todo este processo, destruíram-se casas, hospitais, escolas e igrejas cristãs. Por exemplo, poucos na comunidade cristã do Paquistão conseguem esquecer o que aconteceu em Sangla Hill. Uma multidão enfurecida, composta de cerca de dois mil muçulmanos, destruiu uma aldeia inteira depois de terem sido incitados por uma falsa acusação de blasfémia levantada contra um dos aldeões. Depois deste ataque, que foi seguido por muitos outros, os líderes cristãos escreveram ao Presidente Musharraf, pedindo-lhe que "fizesse qualquer coisa, porque este fanatismo irá acabar por destruir o país a partir do seu interior".
Johnson Michael, o presidente do Fundo do Bispo John Joseph disse: "Conheci muitas pessoas na minha vida, mas nunca ninguém igual a estes sobreviventes. Eles são muito fortes nas suas convicções, uma força pela qual pagam todos os dias, mas que é o que dá força à comunidade inteira. O seu exemplo é, para mim, fonte de grande inspiração". De momento, a associação encontra-se a ajudar financeiramente os sobreviventes acusados de blasfémia, tentando encontrar-lhes uma casa e um emprego. Mas a sua missão é uma "verdadeira luta contra as vicissitudes".

Peter Jacob, secretário executivo da Comissão Episcopal para a Justiça e a Paz, afirmou: "Se alguém é acusado de blasfémia, mesmo se o tribunal o absolver, a sua vida torna-se impossível de suportar no Paquistão e esse indivíduo tem de viver escondido e na pobreza". Até mesmo os familiares perdem "todos os seus direitos sociais e [são] condenados a uma vida de ignorância e pobreza". Até agora, "ninguém foi enforcado por lei em resultado de acusações relacionadas com blasfémia, mas vinte e quatro pessoas foram mortas por extremistas que nunca foram detidos".

Ataques contra cristãos
Na noite de 25 de Dezembro de 2006, alguns muçulmanos tentaram pôr fogo à pequena igreja de Shahdaara. O padre da paróquia, Padre Samuel Raphael, contou à AsiaNews que o fogo ateado pelos criminosos queimou o tapete e alguns dos paramentos do altar, mas ninguém ficou ferido.
"Tratou-se, não obstante, de um acto de profanação de um local de culto e por isso avisámos a polícia, nomeando os três culpados", disse ele. Apesar da queixa formal, a polícia fez muito pouco. "Eles foram às casas dos três indivíduos mas, quando não os encontraram, foram-se simplesmente embora".

Num outro caso, Shahbaz Bhatti, presidente da Aliança das Minorias de Todo o Paquistão (APMA) contou que Martha Bibi, uma cristã da aldeia de Kot Nanak Singh (distrito de Kasur), foi acusada no dia 22 de Janeiro de 2007 de ter produzido observações derrogatórias sobre o Alcorão e de conspurcar o nome sagrado do Profeta Maomé. Ele afirmou que na zona onde Martha Bibi, o seu marido e os seus seis filhos vivem, existem doze famílias cristãs no meio de quinhentas famílias muçulmanas. O marido dela é um pedreiro que, com a ajuda da esposa, tem também um pequeno negócio de aluguer de ferramentas de construção. Em certa ocasião alugaram algum equipamento para a construção da Mesquita Sher Rabbani. Porque não lhes estavam a pagar, na manhã de 22 de Janeiro a Sra. Bibi foi ao local de construção para exigir o pagamento, mas este foi-lhe recusado. Ela pediu, então, a devolução do material alugado e, quando se preparava para o levar consigo, Muhammad Ramzan, Mohammad Akram e Muhammad Dilbar começaram a bater-lhe. Só a intervenção de transeuntes lhe permitiu escapar. Nessa noite, o imã da mesquita acusou Martha de blasfémia contra o Profeta Maomé e incitou os muçulmanos a atacar os cristãos.
Quando ouviram falar das acusações, ela e a família procuraram refúgio na casa de um vizinho. Quando a polícia chegou, Martha Bibi foi levada para a esquadra da polícia de Changa Manga onde foi acusada ao abrigo do Artigo 295 C do Código Penal do Paquistão, que impõe longas penas de prisão ou a pena de morte aos transgressores, caso sejam considerados culpados. Embora nenhuma prova contra ela fosse apresentada durante o seu julgamento, ela foi mantida na prisão durante cinco meses.
Em Fevereiro de 2007, o bispo católico de Faisalabad e dois muçulmanos - um jornalista e um académico - receberam ameaças de morte por terem tomado parte alguns meses antes numa reunião inter-fés numa madrassa local. Um grupo extremista, até então desconhecido, que se auto-intitula “Frente dos Soldados Islâmicos” reivindicou a responsabilidade pelos telefonemas e cartas ameaçadores e nos quais todos os três homens eram apelidados de "infiéis". O Monsenhor Joseph Coutts, que lidera a diocese de Faisalabad, tentou de imediato acalmar os ânimos, dizendo que "nós não vamos ser aterrorizados através de tais intimidações; nós vamos continuar com as nossas actividades inter-fés para assim atingir a harmonia social e a paz no país".

No Punjab, um cristão foi atacado no dia 23 de Março por uma multidão de cerca de cento e cinquenta muçulmanos que lhe bateram e o torturaram durante horas, depois de o acusarem de ter profanado um exemplar do Alcorão. O ataque terminou quando a polícia interveio mas, em vez de prender os agressores, eles levaram a vítima sob prisão por alegadamente ter violado o Artigo 295 B, ou seja a infame lei da blasfémia. Se for considerado culpado, o homem poderá vir a passar o resto da sua vida atrás das grades.
Num outro caso, Amanat Masih, de 50 anos, foi acusado de rasgar algumas páginas do Alcorão e de as queimar. De acordo com um comunicado de imprensa do Sharing Life, o grupo Protestante paquistanês que relatou o incidente, a multidão decidiu que ele era culpado e atacou a sua casa. Depois de arrombar a porta e entrar, arrastaram-no para fora e torturaram-no.

Sadiq Masih, um protestante de 45 anos, foi mortalmente ferido no dia 30 de Julho na sua própria casa por membros da família Chaudri, os seus anteriores empregadores. Ele tinha deixado de trabalhar na quinta daquela família, cansado do abuso infindável a que era sujeito por ser cristão.
Arif Khan, de 50 anos, um bispo baptista em Rawalpindi, e a esposa Kathleen, de 45 anos, ambos cidadãos norte americanos, foram assassinados no dia 29 de Agosto em Islamabad. Dois cristãos da cidade de Wana foram presos pelo crime, supostamente motivado por uma questão de "honra". Mas, de acordo com fontes cristãs locais, tudo não passou de um embuste. Quem verdadeiramente cometeu o crime foi de facto um muçulmano de nome Said Alam.

Perseguição contra Ahmadis
Num país muçulmano como o Paquistão, que tem uma maioria Sunita, os Ahmadis sofrem uma perseguição impiedosa. A comunidade foi fundada em 1889 por Mirza Ghulam Ahmad, um líder religioso indiano que afirmava ser um profeta enviado para revitalizar o Islão. Embora os Ahmadis digam que são muçulmanos, eles são vistos como um grupo herético pelos outros muçulmanos porque não reconhecem Maomé como sendo o último profeta. Por esta razão são perseguidos por extremistas muçulmanos em muitos países, incluindo a Indonésia e o Bangladesh. No Paquistão, uma lei adoptada nos anos setenta do séc. XX proíbe-os de se auto-denominarem muçulmanos.
Num relatório sobre a perseguição por eles sofrida em 2005, os Ahmadis denunciaram "os líderes religiosos e políticos e os meios de comunicação social pela sua responsabilidade" no seu infortúnio. O estudo reproduziu quase 1.400 artigos e outros escritos da imprensa paquistanesa que incitavam ao ódio contra esta, assim chamada, seita islâmica "herética". Incluídas nas provas estão resoluções nas quais os Ahmadis são chamados assassinos; acusações em como eles estão a conspirar contra o Estado; fortes exigências ao governo para tomar duras medidas contra eles para "desencorajar" as suas práticas religiosas.
O relatório, que reproduz recortes de jornais, acusa funcionários governamentais de apoiarem o incitamento ao ódio. Os líderes de topo, pode-se aí ler, mantiveram a política de perseguição iniciada há vinte e um anos pelo general Zia ul Haq. Na realidade, baseado nas evidências recolhidas, é óbvio que existe um acordo tácito entre os mullahs e o exército, contra os Ahmadis.

De acordo com o Relatório Anual da comunidade, entre 1984 e 2007, oitenta e sete membros dos Ahmadi morreram em "acidentes" ou na prisão. Na altura da sua publicação, foi referido que estavam pendentes acusações de blasfémia contra 3.533 indivíduos.



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