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FOLHA DE ORAÇÃO

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INTENÇÃO NACIONAL

 

Por todos os que sofrem ou passam por algum tipo de provação existencial, para que possam ser iluminados e ver no seu sofrimento e provação a sua participação na Cruz gloriosa do Senhor do qual nos vem a salvação.



A CORAGEM DE ARRISCAR

 

Quando era capelão militar, prestei serviço religioso durante um ano no Regimento de Transmissões, em Lisboa. No primeiro dia em que fui visitar a Unidade, ao apresentar-me ao comandante, um Coronel de Engenharia, ele disse-me: Senhor Capelão, nós temos aqui uma missão muito importante a seu respeito. Qual é essa missão?, perguntei-lhe. Pôr em causa os fundamentos da sua fé, foi a sua resposta. Ao que eu respondi: isso vai ser muito importante para mim, pois tenho vivido num ambiente eclesial protegido, de modo que esse desafio será para mim muito salutar. Mas, Senhor Comandante, não se esqueça que também eu tenho uma missão muito importante para desempenhar nesta Unidade, respondi-lhe. E ele: não me diga, Senhor Capelão, que pretende converter-nos, obrigar-nos a todos a ir confessar-nos e a ir à Missa!... Não, Senhor Comandante, de modo nenhum. Não tenho nenhuma pretensão de converter seja quem for, Senhor Comandante. Faz parte da minha missão pôr em causa os fundamentos da sua incredulidade! Nesse primeiro dia ficámos por ali na nossa conversa.

Na vez seguinte, quando fui cumprimentá-lo, disse-me: Vamos então começar a nossa missão? Com certeza, Senhor Comandante. Que questão tem então para me colocar que vá pôr em causa os fundamentos da minha fé? É esta, respondeu-me. Senhor Capelão, se Deus existe e é bom, como você acredita, como é que explica então a existência do sofrimento, sobretudo dos inocentes, as injustiças e de tantas coisas más que acontecem pelo mundo? E você, Senhor Comandante, que não acredita, como explica as mesmas coisas, o sofrimento, sobretudo dos inocentes, as injustiças e todos estes males que nos afectam e que tornam pesada e triste muitas vezes a nossa vida? À minha pergunta, que lhe devolvia a sua, ele reagiu imediatamente dizendo: mas sou eu que faço as perguntas, Senhor Capelão! Mas, Senhor Comandante, eu sou como o Principezinho de Saint-Éxupery, que responde perguntando!...

É evidente que a minha atitude o perturbou profundamente e ele verificou que afinal são as mesmas questões que interpelam tanto os crentes como os descrentes. O sofrimento, a morte, todos os males que afectam a nossa vida são comuns a todos; não são provocados pela crença nem pela descrença; o que distingue uns e outros é o modo como enfrentam estas questões, como as interpretam, como as integram no processo da existência. Tempos mais tarde, o meu Comandante disse-me: Senhor Capelão, façamos um pacto de não-agressão! Mas, Senhor Comandante, eu nunca o agredi! Apenas me limitei a devolver-lhe as questões que me levantava, porque elas são comuns a nós os dois e tanto minam os fundamentos da minha fé como os fundamentos da sua incredulidade. Afinal o que significa crer? O que é que alguém pretende comunicar quando diz que não tem fé? Com isso o crente ou o descrente vive melhor os paradoxos e as contradições da própria existência?

Os antigos gregos tinham um mito que representava a existência humana como um homem que tinha de empurrar uma pedra enorme por uma encosta acima. Quando chegava ao cimo, faltavam-lhe as forças e escorregava para baixo e tinha de recomeçar o seu trabalho. Era o mito de Sísifo. Talvez por isso é que na minha terra natal as pessoas ainda respondam dizendo “empurrando”, quando lhes perguntam “como está?”.

Quando a um jovem que eu acompanho há quatro anos lhe foi diagnosticado um cancro no sistema linfático, a mãe, lavada em lágrimas, perguntava: mas o que fizemos de mal para que este filho tenha esta doença terrível? Nessa altura, eu respondi: vamos procurar descobrir o que é que Deus nos quer dizer com esta “visita”! E assim tem sido! Vivendo na fé esta doença, ele chegou a dar este testemunho a um grupo de universitários: agora acredito verdadeiramente que Deus existe, porque nesta doença o Senhor tem manifestado o Seu amor por mim e por todos os que me acompanham!

É a cruz gloriosa, de que fala o precónio pascal, da qual nos vem a salvação. Se o Senhor revelou a Sua divindade – “verdadeiramente este homem era o Filho de Deus”, exclamou o centurião romano ao vê-lo “morrer assim” (Mc 15,39) -, será também na nossa cruz, no peso da nossa própria existência, levada com Ele, que vamos também encontrar o Deus que nos ama e que na cruz nos revela o Seu amor por cada um de nós, como exclama S. Paulo: “Ele amou-me e entregou-se por mim” (Gl 2,20).

Hipnotizado pelas sereias do conforto e do prazer, o homem de hoje tem medo do sofrimento como o diabo da cruz! Mas o peso da existência é uma lei da vida. Sempre que fui acompanhar este jovem nas suas quimioterapias ao IPO vi tantos doentes!... O cancro não fora provocado nem pela fé nem pela incredulidade. Mas viver a doença (e as provações da vida) na fé ou na incredulidade, não é a mesma coisa. Aquelas palavras de Jesus – “vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei” (Mt 11,28) - tornaram-se verdade neste jovem que tem sentido o conforto do Senhor na sua doença!

Acreditar hoje passa por aqui! Acreditar é ter confiança em alguém; e acreditar em Deus passa por esta confiança de sentir-se amado nas provações e nas dificuldades da vida. Por aqui passa o risco da fé!

 

Pe. José Jacinto de Farias, scj

Assistente Espiritual da Fundação AIS

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Lançamento do Relatório Liberdade Religiosa no Mundo 2018 | PORTO


25-01-2019

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