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Orar // Sementes de Esperança // Reflexão: MÉXICO


MÉXICO: “Guerra Cristera”, uma história esquecida
 


Superfície:
1.964.375 km2

População:
128.632.000 habitantes

Religiões:
Cristãos: 95,9 %
Agnósticos: 2,7%
Animistas: 1,1 %
Outros:0,3 %

Línguas:
Espanhol e 68 línguas autóctones


Há 90 anos um acordo celebrado entre o clero mexicano e o Governo de Calles punha fim às revoltas dos camponeses mexicanos cristãos que ficaram na História com o nome de “cristeros”. Tinham pegado nas armas logo após lhes terem recusado o acesso aos sacramentos, em 1926.

Duzentos mil mortos e, todavia, esta perseguição religiosa em pleno séc. XX luta para ter um lugar na História. Incluindo – e sobretudo – no México, lamenta Jorge Trasloshero, professor na universidade nacional do México, segundo o qual “não há lugar para os cristeros nem nos museus nem nos manuais escolares dos nossos filhos”.

De 1926 a 1929, várias regiões mexicanas rebelaram-se contra as tropas federais que fechavam as igrejas e proibiam o acesso aos sacramentos. As suas reacções primeiramente desordenadas e não violentas transformaram-se numa guerrilha de uma temível eficácia. Para surpresa geral, o exército mexicano revelou-se incapaz de superar a situação, apesar da brutalidade da sua política de repressão. O México ficou então numa situação inextricável: o Governo não podia ver-se livre dos grupos armados no seu território e os cristeros não tinham meios para deitar abaixo o Governo.



Como é que se chegou a essa situação?
Em 1920, o México saía de uma guerra civil que arrasou o país durante dois anos. Dois milhões de mexicanos (1,5% da população) tinham perdido a vida durante os confrontos. O vencedor, Álvaro Obregón, chegou ao cargo de presidente na sequência de um golpe de Estado final, em 1920. Ele e o seu sucessor, o presidente Plutarco Calles, queriam instituir uma nação poderosa e moderna. Temiam que pusessem em causa a sua autoridade, adquirida recente e dispendiosamente, e não suportavam nenhuma forma de oposição. Calles afirmou num discurso em Guadalajara, a 20 de Julho de 1934: “Devemos aproveitar a consciência da juventude; porque o jovem e a criança pertencem à revolução, (…) à comunidade, ao corpo colectivo!”

Este novo Estado, que se considerava revolucionário e que ameaçava tornar-se totalitário, tinha a Igreja no seu caminho. Desde antes da violência de 1926 que as duas entidades estavam em conflito. “1926-1929 é apenas a parte visível de uma guerra contra o Catolicismo que durou de 1914 a 1948”, informa Jorge Trasloshero.

Calles, utilizando a lógica do seu antecessor até ao fim, impôs a aplicação de leis violentamente anti-religiosas que tinham sido promulgadas, mas nunca aplicadas, na Constituição de 1917, em plena guerra civil. Entre outras disposições, elas prevêem que o Estado se autorizava a confiscar os bens da Igreja e que o Governo podia afixar o nome dos sacerdotes em cada localidade. Os sacerdotes deviam estar registados junto do Governo, o que constituía um primeiro passo para a criação de uma Igreja nacional, submetida ao Estado. Diante desta perspectiva, os bispos do país decidiram suspender o culto, esperando uma reacção massiva dos Mexicanos, forçando o Governo a recuar.”


O último dia de culto

O ministro do Interior da época, Adalberto Tejeda, saudou a confrontação com alarde: “A Igreja tomou o partido de seguir no sentido dos nossos desejos decidindo-se pela suspensão do culto: nada nos poderia agradar mais […] Temos o clero preso pelo pescoço e tudo faremos para o estrangular.”

Nas zonas rurais cristãs, o último dia de culto, fixado para 31 de Julho de 1926, foi vivido como um apocalipse. Os fiéis precipitavam-se para receber o Eucaristia, o sacramento da reconciliação e até para se casar. Após anos de luta pacífica contra o Governo, incluindo boicotes, greves e manifestações, muitas províncias entraram em estado de insurreição. Os Mexicanos manifestavam-se sem armas e abriam as igrejas fechadas, mas os seus movimentos foram reprimidos de forma sangrenta pelas tropas federais. Os oficiais tiravam fotografias às suas vítimas torturadas de forma prazenteira, esperando suscitar o medo nos Mexicanos. Eles atacavam sob bandeiras negras, com tíbias cruzadas ao som de gritos como “Viva o demónio! Viva o grande diabo!”

Mas nas zonas rurais os agricultores organizavam-se. Armavam-se com espingardas de caça, elegiam chefes e resistiam. Mal armados, respondem às forças federais graças à sua motivação excepcional. O artilheiro Félipe Angeles, que tinha sido conselheiro de Pancho Villa durante a guerra civil antes de se unir aos cristeros, sabia apreciar a sua combatividade: “Os soldados, de sandálias e roupas brancas, com o espírito ainda cheio da sua aldeia […] estavam em chama, não se detinham perante o esforço, e atravessavam aquela linha para além da qual já não temos amor-próprio, nem procuramos manter a vida.”


“Eles não eram santos, mas heróis”
“Não podemos defender a fé de armas em riste. Defender a fé foi o que fizeram os mártires que preferiram morrer a apostatar. Por outro lado, podemos defender o direito à liberdade religiosa com as armas quando estiverem esgotados todos os outros recursos. Foi o que os cristeros fizeram. Eles não eram santos, mas heróis civis”, analisa Jorge Trasloshero.

Após as repressões sangrentas, os deslocamentos forçados da população, as forças federais tiveram de admitir que não conseguiriam reprimir a rebelião dos cristeros. Poderiam eles ter derrubado o Governo? “Nunca, em momento algum”, assegura Jorge Trasloshero. Este Governo era “trazido nas palminhas” pelos EUA, que reabasteciam o seu exército. Ninguém o poderia derrubar e o presidente Calles percebeu que a única solução seria o clero mexicano voltar a restabelecer o culto.


“Estão a vender-nos!”
Aproximou-se então dos bispos, propondo-lhes concessões. “Excepto os cristeros, ninguém queria a guerra. Nem o Governo, nem o clero, por isso era lógico que ela acabasse. Mas os cristeros iriam ser sacrificados”, constata Jorge Trasloshero. “É uma tragédia grega, pois os cristeros tinham razão para pegar em armas, mas os bispos não erraram em negociar para pôr um fim a um conflito sangrento e sem solução”, conclui. Ao ver surgir os acordos de 1929, o general cristero Gorostieta gritou: “Estão a vender-nos!” Com efeito, os acordos foram assinados e os combatentes depuseram as armas logo que as igrejas reabriram as portas. O Governo, que tinha assinado as garantias para não perseguir os antigos combatentes, traiu os seus compromissos e desenvolveu a partir de então uma guerra contra os chefes cristeros. A maioria foi executada durante o período após 1929.

Quer isto dizer que a rebelião dos cristeros foi um fracasso? Segundo Jorge Trasloshero, obviamente que não. O Governo mexicano permaneceu anti-clerical, mas entendeu que era perigoso atacar o Catolicismo popular. Com a sua resistência rude, os agricultores pobres e desprezados das zonas rurais demonstraram o apego inabalável à sua fé. O jovem Estado mexicano teve de integrar progressivamente a noção de liberdade religiosa, ainda desconhecida nesse início do séc. XX.  


Oração
Para
que o povo Mexicano não esqueça a sua história e continue a alimentar a sua fé no testemunho heróico dos seus antepassados, nós Te pedimos Senhor!


 
 
       

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25-05-2019

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