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7-8-2018

Iraque: Apesar da crise, os cristãos regressam às suas casas na Planície de Nínive


Quase nove mil famílias cristãs já regressaram às suas casas na Planície de Nínive, no Iraque, quatro anos depois de terem sido forçados a fugir perante a violência do Estado Islâmico (ISIS).

Na noite de 6 para 7 de Agosto de 2014 cerca de 120 mil cristãos do Iraque viram-se forçados a fugir das suas terras na Planície de Nínive, nas margens do rio Tigre. A partir daquele momento, a fúria dos militantes do auto-proclamado Estado Islâmico destruiu mais de 13 mil casas, das quais 1.234 foram totalmente devastadas. Estes são os dados fornecidos pela Comissão de Reconstrução de Nínive, criado em 2017 pelas Igrejas Caldeia, Sírio-católica e Sírio-ortodoxa do Iraque, em colaboração com a Fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

Neste momento já voltaram 8.815 famílias o que representa cerca de 44% das 19.452 famílias forçadas a fugir por causa da invasão dos jihadistas. Das 13.168 casas que foram registadas para serem renovadas 4.765 casas, cerca de 35%, já foram renovadas.

Dos cristãos da Planície de Nínive chegam-nos histórias de esperança, mas também relatos dos momentos vividos há quatro anos. O Padre Georges Jahola, sacerdote sírio-católico da Diocese de Mossul-Kirkuk-Curdistão e coordenador da Comissão de Reconstrução em Baghdeda-Qaraqosh falou sobre a importância do testemunho e da presença cristã na área.

Pe. Jahola: Na manhã do dia 6 de agosto, houve ameaças do ISIS, em torno de Bakhdida-Qaraqosh. De tarde, fomos atacados com morteiros e perdemos duas crianças e uma jovem. Desde então, as pessoas perceberam a ameaça e começou a fuga em massa da cidade. Dezenas de milhares de pessoas, com o calor que estava em Agosto, neste período, encontraram-se em longas filas nos locais de controle do Curdistão, porque aquela é a região mais próxima, então as pessoas fugiram para lá, em Erbil, mas também em outras cidades curdas. Foram momentos terríveis, também psicologicamente e não apenas fisicamente.

Qual o grau de devastação que ficou para trás?

Pe. Jahola: As casas, mas também todo o património cultural e religioso que tínhamos nas igrejas, nos mosteiros ... Bibliotecas inteiras queimadas, roubadas ... Também perdemos muitos objectos historicamente significativos.

Existe uma imagem daqueles dias que ficou particularmente gravada na sua memória?

Pe. Jahola: Foi terrível aquele momento porque os jovens e aqueles que tinham meios de transporte conseguiram escapar, mas para as pessoas com necessidades especiais e para os idosos foi algo muito difícil.

Desde 2017, a Comissão de Reconstrução de Nínive tem trabalhado para garantir o regresso dos Cristãos às suas terras. Como está a situação neste momento?

Pe. Jahola: Sem a ajuda de tantas organizações, especialmente da Ajuda à Igreja que Sofre, que nos assistiu tanto quando estávamos na diáspora como também neste momento de retorno, teria sido impossível voltar com alguma esperança. As ajudas que recebemos foram essenciais para recomeçar a vida e dar esperança às pessoas, especialmente no que diz respeito às casas, porque sem casa as famílias não podem voltar, sobretudo se a casa foi queimada, danificada ou vandalizada. Procuramos documentar tudo, fizemos uma estimativa dos custos e conseguimos apresentar o nosso projecto às organizações, sobretudo à Fundação AIS, que fez um trabalho de coordenação com todas as Igrejas, até a apresentação do plano para começar a fase de reconstrução.

Em Dezembro, as autoridades de Bagdade anunciaram a vitória final sobre o auto-proclamado Estado Islâmico. Mas qual é a situação de facto? Ainda há ataques e violência em algumas áreas do Iraque...

Pe. Jahola: Esses ataques e atentados não reflectem a situação geral do país, porque, por exemplo, em Mossul, que foi sitiada pelo ISIS e libertada em Dezembro, podemos circular livremente, a cidade é segura. Também as nossas áreas cristãs da Planície de Nínive podemos dizer que são seguras. É claro que a segurança no Iraque é relativa, mas neste momento podemos dar-nos por satisfeitos com o que se conseguiu.

Falou sobre o compromisso das Igrejas iraquianas para com os fiéis e a população local. Que esperança há para o futuro?

Pe. Jahola: A nossa esperança está ligada à esperança de todo o Iraque. Devemos comprometer-nos com a nossa existência aqui, porque ainda há ameaças e não apenas do ISIS, mas também por parte daqueles que estão interessados que os Cristãos abandonem este país. Há agendas políticas em toda a região do Médio Oriente, os países vizinhos e alguns extremistas que detestam a presença das minorias porque querem usufruir das suas propriedades, terras e cidades.

Apesar das tensões, o que é que o motivou a voltar?

Pe. Jahola: Era impossível imaginar que as nossas cidades fossem libertadas e nós ficássemos a alguns quilómetros de distância. Estamos ligados a esta terra há milhares de anos e vivemos aqui  desde o início da era cristã. Sentimos a obrigação de dar o nosso testemunho nesta terra.

Fundação AIS/ACN com Vatican News

 

OBSERVATÓRIO: Iraque

 






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