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24-9-2018
China: Vaticano e Pequim assinam acordo histórico relativo à nomeação de bispos
Santa Sé e Pequim assinaram no passado sábado um acordo histórico relativo à nomeação de bispos para as comunidades católicas na China, no seguimento de negociações que se iniciaram há vários meses.
Uma nota de imprensa divulgada pelos serviços de informações do Vaticano dava conta de que o acordo trata “da nomeação dos bispos, questão de grande relevo para a vida da Igreja, e cria condições para uma mais ampla colaboração a nível bilateral”. O documento foi assinado pelo subsecretário do Vaticano para as Relações com os Estados, D. Antoine Camilleri, e pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Chao. Ainda no sábado, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, disse que se está “no início” de um processo que visa a unidade eclesial e que este novo documento irá permitir às comunidades católicas a nomeação de bispos “em comunhão com Roma”, sendo que todos eles serão reconhecidos pelas autoridades chinesas. Como consequência directa deste acordo histórico, o Papa Francisco anunciou, ainda no sábado, a decisão de “readmitir à plena comunhão eclesial” oito bispos chineses (um deles já falecido, mas que manifestou em vida o desejo de se reconciliar com a Santa Sé) que foram ordenados directamente pela Associação Patriótica Chinesa (APC), entidade criada por Pequim para a nomeação de bispos sem a “interferência” do Vaticano. As comunidades católicas na China encontram-se divididas, recorde-se, entre a Associação Patriótica, tutelada por Pequim, e a chamada Igreja “clandestina”, fiel ao Papa e ao Vaticano. Agora, com este acordo, todos os bispos passam a estar em comunhão com Roma sendo reconhecidos simultaneamente pelas autoridades chinesas, o que acontece pela primeira vez em muitas décadas. O Padre Peter Stilwell, reitor da Universidade de São José, em Macau, a única universidade católica no território da República Popular da China, afirma, em declarações à Rádio Renascença, que o maior desafio que se coloca agora à Igreja na China é “o entendimento entre as duas comunidades”. Um desafio que, segundo este sacerdote, é mais importante do que “a questão da escolha dos bispos”. “Depois de 30 ou 40 anos a viverem separadas, com condições de funcionamento muito diferenciadas, como é que se vão encontrar, como comunidades irmãs ou integrar-se uma na outra”, interroga Peter Stilwell. Com este acordo, China e Vaticano ultrapassam o maior diferendo entre os dois Estados sem laços diplomáticos entre si desde 1951, dois anos depois de o líder comunista Mao Tsé-tung ter fundado a República Popular da China. O cardeal emérito de Hong Kong, Joseph Zen, uma das vozes mais críticas das negociações entre Santa Sé e Pequim, fez saber ainda no sábado a sua profunda discordância em relação ao acordo agora assinado. Dizendo que o Vaticano “está a colocar o rebanho na boca dos lobos”, D. Joseph fala mesmo em “traição”. “As consequências serão trágicas e duradouras, não só para a Igreja na China, mas para toda a Igreja Católica, porque prejudica a credibilidade”, diz o cardeal numa entrevista à agência de notícias Reuters. Para o Reitor da Universidade de São José, em Macau, a oposição do cardeal deve ser entendida como uma voz isolada. “Tanto podem sentir como traição, como diz o cardeal Zen, mas o cardeal Zen é uma voz isolada, radical, que claramente não tem o apoio da Santa Sé”. Para o Padre Stilwell importa sublinhar que, através destas negociações, “o Governo chinês” tenha reconhecido “que a Igreja Católica tem uma cabeça, ao contrário do que acontece com a maior parte das outras religiões, que tem um chefe que é o Papa”. No acordo agora estabelecido, desconhece-se ainda que modelo vai vigorar para a aprovação conjunta, pelo Vaticano e por Pequim, dos nomes dos novos bispos a designar. Uma das possibilidades é a do modelo em vigor entre Vaticano e Vietname. Negociado em 1996, o acordo permitiu à Santa Sé ter a possibilidade de sugerir três nomes como candidatos a uma diocese, sendo que, depois, caberia às autoridades vietnamitas – ou seja, o Partido Comunista – escolher um desses nomes que depois seria aprovado como bispo pelo Vaticano. Como consequência ainda do acordo entre Vaticano e Santa Sé, o Papa Francisco criou uma nova diocese, localizada na província de Hebei. Trata-se da Diocese de Chengde, e que terá a sede episcopal na Igreja Catedral do Jesus Bom Pastor, localizada na Divisão Administrativa de Shuangluan. O acordo estabelecido entre Vaticano e Pequim ocorre numa altura em que se têm registado diversos incidentes entre as autoridades chinesas e comunidades cristãs. De facto, várias congregações cristãs têm relatado actos de violência, nomeadamente destruição de cruzes em edifícios religiosos assim como o encerramento à força de diversos templos. Há inclusivamente a denúncia de crentes terem sido obrigados a assinar documentos em que afirmam renunciar à sua fé. De acordo com a China Aid, um grupo que monitoriza as questões relacionadas com a liberdade religiosa neste país, e que tem sede nos Estados Unidos, as autoridades chinesas procederam recentemente ao encerramento de diversas igrejas na província de Henan, assim como em Beijing (Pequim), havendo ainda relatos de vigilância – e em alguns casos de encerramento – de ‘sites’ relacionados com actividades religiosas. PA| Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt
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