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14-5-2019

LISBOA: “É uma derrota” Asia Bibi não conseguir viver em liberdade no seu próprio país, afirma dirigente da comunidade cristã do Paquistão


“Há várias pessoas, há várias mulheres, há vários homens, há várias ‘asias bibi’ que enfrentam acusações de assassinato e alegações não comprovadas e ainda se encontram por trás das grades. Temos de nos unir, temos de trabalhar para eles.” O alerta é de Joel Amir Sahotra, de 44 anos, destacado cristão que pertence ao governo regional do Punjab.

Em declarações à Fundação AIS, de passagem por Lisboa, este dirigente fez questão de denunciar a situação trágica em que se encontram tantas pessoas no seu país, vítimas, tal como Asia Bibi, da Lei da Blasfémia. Para Joel Amir, o facto de esta cristã, mãe de cinco filhos, ter saído do Paquistão rumo ao Canadá, “é também uma derrota” pois o governo manifestou, dessa forma, a sua incapacidade em garantir efectivamente a segurança de um dos seus cidadãos alvo de uma forte campanha de ameaças por parte de grupos extremistas.

“É uma falha do sistema que não permite que uma mulher ilibada de todas as acusações pelo Supremo Tribunal do Paquistão não consiga, por questões de segurança, viver no seu próprio país”, disse Joel Amir na sede da Ajuda à Igreja que Sofre, em Lisboa, durante o périplo europeu que o irá levar ainda a Espanha e Itália na tentativa de conseguir bolsas de estudo em universidades no Velho Continente para jovens cristãos paquistaneses.

O facto de também não ter sido possível a libertação imediata de Asia Bibi logo após o Supremo Tribunal do Paquistão ter decretado a sua inocência foi também destacado por este dirigente da comunidade cristã do Paquistão. “A pressão de grupos extremistas impediu que ela fosse libertada de imediato. Demorou mais de cinco meses e meio a conseguir sair do país.” O tribunal ilibou Asia Bibi em 31 de Outubro do ano passado e a cristã só conseguiu abandonar o país, rumo ao Canadá, no início da segunda semana de Maio.

A mobilização da comunidade internacional, que teve “um papel destacado” na libertação de Asia Bibi, segundo Joel Amir Sahotra, deve permanecer pois no Paquistão há ainda “centenas de pessoas na prisão” vítimas também da Lei da Blasfémia.

“São centenas, são mais de 250. Muitas pertencem à comunidade cristã, mas também à comunidade muçulmana”, pois esta lei tem sido usada para resolver pequenas disputas entre vizinhos, explica este dirigente. Com a lei da Blasfémia, diz, é muito fácil acusar alguém… “É uma ferramenta fácil. Se alguém tem rancor contra alguém, basta culpar essa pessoa, uma simples acusação de que difamou o Santo Profeta… Ninguém está preparado para enfrentar a justiça ou a polícia para que se faça justiça.”

A situação dos Cristãos no Paquistão é muito delicada. A tentativa de conseguir bolsas de estudo – “os contactos estão a correr bem” – para jovens universitários é uma tentativa de romper com um ciclo de exclusão a que toda a comunidade está votada neste país.

“Os muçulmanos não estão preparados para aceitar e dar espaço aos membros das outras religiões, especialmente aos cristãos e hindus. Em 1947, quando o Paquistão foi fundado, os cristãos representavam cerca de 26% da população. Hoje são apenas 1,6%”, explica Joel Amir. “A própria Constituição” do país “não permite que um não-muçulmano possa ser presidente ou primeiro-ministro. O que significa isto? Que há um critério duplo. Não temos os mesmos direitos.”

Na entrevista à Fundação AIS, este dirigente da comunidade cristã dá um exemplo concreto da discriminação a que a comunidade cristã está sujeita. “Tenho comigo um anúncio de um departamento oficial, publicado num jornal nacional, em que se pedem varredores de rua. No entanto, só não-muçulmanos podem candidatar-se aos lugares. Não interessa se as pessoas têm estudos, se têm habilitações, pois a única forma de poderem ingressar naquele departamento terá de ser como varredores. É uma injustiça. Temos uma sociedade baseada na desigualdade.”

PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

 

OBSERVATÓRIO: Portugal

 






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25-05-2019

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