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30-7-2019

NICARÁGUA: “A unidade da Igreja constitui a maior força que nós, bispos, possuímos”


A Nicarágua continua abalada pela crise que se iniciou há 14 meses. O país continua a ser cabeçalho das notícias – tal como em meados de Junho, com o perdão a quase 100 pessoas que ainda estavam presas por terem protestado contra o Governo no ano anterior. Este assunto também foi abordado na Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos em Medellín, de 26 a 28 de Junho. A situação no país centro-americano é crítica, com um acentuado grau de polarização e muitos confrontos. O Bispo Rolando José Álvarez Lagos de Matagalpa falou acerca disso durante a visita à sede internacional da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

AIS: Qual é a situação na Nicarágua após mais de 14 meses de crise?

D. Rolando José Álvarez Lagos: Vivemos numa situação crítica tanto socio-politicamente como economicamente. Existe uma acentuada polarização na Nicarágua, muitos confrontos. Nós, enquanto Igreja, levamos às pessoas uma palavra de esperança para criarem um alicerce e fundamento para a nossa própria narrativa. Trata-se de esperança para um futuro melhor num país onde as próximas gerações possam viver com paz, justiça e progresso num enquadramento de democracia institucionalizado e, claro, tendo uma orientação social para os pobres tal como os bispos da América Latina declararam em Puebla na década de 70.

Os bispos tiveram um papel importante em todo o processo durante a grave crise em 2018: a Igreja está agora menos envolvida que então?

A Igreja de Nicarágua está directamente comprometida com a narrativa do seu país. Ela sente e vê-se a si mesma como um povo, nómada e peregrino, como um povo que trabalha, que acredita em si mesmo e que claramente é guiado pela mão de Deus. Acredito que nós, os Nicaraguenses, temos o potencial para desenvolvermos isto como o nosso futuro.

No que respeita o futuro do país, os mais afectados pela crise foram os muitos jovens que haviam tentado dar voz aos seus protestos. Indubitavelmente, os jovens constituem um dos grupos que mais sofreu com a crise. Concordara?

O Papa Francisco diz que os jovens são o ‘agora’ de Deus. Razão pela qual os jovens de Nicarágua estão a escrever a história. Eles estão a desenvolver a sua própria narrativa. É por isso que toda a sociedade viva, tanto jovem como adulta, necessita de ultrapassar os aspectos transitórios e focar os seus pensamentos e a sua energia em assegurar que as gerações futuras irão herdar um país melhor.

Algumas fontes dos média e redes sociais reportaram um certo grau de desarmonia na Igreja de Nicarágua e em diferentes frações na Igreja. Esta afirmação é verdadeira?

Com o devido respeito: eu vejo isto como o completo e total oposto da realidade, e até mesmo anacrónico, obsoleto, porque a Igreja na Nicarágua pode ter sido fragmentada na década de 80, quando a famosa “Igreja do Povo” emergiu por toda a América Latina com a sua chamada “Teologia da Libertação”. Um certo número de teólogos apresentou incorrectamente vários aspectos da mesma, pois qualquer teologia que seja genuína também é libertadora.

A nossa Igreja está unida como nunca antes. Isto fica bem claro pelo facto de conseguirmos alcançar um trabalho muito profético, com a ajuda do Espírito Santo. Isto inclui a proclamação da esperança: de manter os olhos abertos à realidade em que hoje vivemos, mas aspirar por um futuro melhor e denunciar toda a injustiça. Se a Igreja na Nicarágua não estivesse unida, então não seria possível realizar este trabalho profético, esta missão profética. Tal seria simplesmente impossível. Também posso confirmar que a unidade da Igreja, a unidade da Conferência Episcopal da Nicarágua, é presentemente a maior força que nós, bispos, temos no nosso país.

Qual é o próximo desafio que terão de enfrentar? Qual é o próximo passo que enquanto Igreja terão de dar?

Nós, Nicaraguenses, somos responsáveis pelo nosso ‘agora’. Nós temos que aprender com os erros do passado para podermos desenvolver um futuro melhor. A responsabilidade partilhada significa saber e sentir que cada um de nós é responsável pela sua própria narrativa, pela nossa narrativa, e que nós podemos e devemos mudar a narrativa para o melhor. Podemos olhar para trás para mais de 190 anos de história, uma história que nos encontrou muito fragmentados, divididos e envolvidos em confrontos. Isto dificultou a construção de um país sólido e estável. Penso ser obrigação da Igreja não desleixar esta responsabilidade da sua missão profética e desempenhar um papel na transição pela qual a narrativa da Nicarágua está presentemente a passar. Uma transição que pode ser alcançada por todos nós sentados juntos à mesa, cada um no seu lugar, sem excluir ninguém, e juntos partindo pão com dignidade.

E claro que temos de continuar a proclamar esperança na viabilidade do nosso país. Não devemos perder a esperança – eu creio que isto é vital e um desafio para a Igreja da Nicarágua.

Uma última pergunta: o que gostaria de dizer aos benfeitores da AIS em todo o mundo? O que podemos fazer pelo seu país?

Eu realmente gosto do nome da fundação – Ajuda à Igreja que Sofre – porque a Igreja sofre verdadeiramente. Ela precisa de orações e de esperança para conseguir continuar a trabalhar profeticamente. A Igreja tem de continuar a ser do povo e a abrir as suas portas sem discriminação. Somos todos a viúva pobre: não somente aqueles com muito dinheiro, mas também aqueles com muito pouco. O segredo reside nas palavras de Santa Teresa de Calcutá, “dar até doer.” Por isso digo aos benfeitores da AIS: “Continuem a fazer o que fizeram no passado, sem receio, até que doa, dando uma parte daquilo que têm para viver. Porque ao fazerem isto vocês estão a dar-nos vida.”


Entrevista conduzida por Maria Lozano - ACN/Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

 

OBSERVATÓRIO: Nicarágua

 






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