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9-8-2019

SRI LANKA: “O país inteiro foi baptizado de um dia para o outro”


O Pe. Prasad Harshan é sacerdote da Diocese de Colombo e coordenada as Equipas de "Animação da Fé" que trabalham com as vítimas do terrorismo, principalmente mulheres e crianças. Recentemente, concedeu uma entrevista à Fundação AIS (ACN) onde partilhou a sua experiência de apoio directo dado às vítimas dos ataques terroristas no Sri Lanka.

Padre Prasad, os ataques terroristas a três igrejas cristãs no Sri Lanka, na Páscoa, feriu os fiéis não apenas física e psicologicamente, mas também na sua fé. Como é que a Igreja os apoia?

O nosso Cardeal, Malcolm Ranjith, queria ter missionários nas ruas, de paróquia em paróquia, de rua a rua, para ouvir as pessoas nas suas casas, para ouvir as suas histórias e apoiá-las em todas as suas lutas da fé. Começámos a fazê-lo há três anos. Agora, ao tomarmos conhecimento desta tragédia, tornou-se uma bênção; uma bênção para a Igreja e para as pessoas. Somos cinco sacerdotes a trabalhar com as vítimas do terrorismo. Estamos activos especialmente em Negombo, onde 115 pessoas foram assassinadas e mais de 280 ficaram feridas numa única paróquia. Por todo lado vemos bandeiras negras de luto. As pessoas estão feridas física, mental e espiritualmente. Vemos como as pessoas foram feridas na sua fé e na sua vida religiosa. Em 30 anos de guerra civil, nunca tivemos este género de ataques à bomba nas igrejas. As pessoas questionam-se, porque é que isto aconteceu? E porquê na Páscoa?

Isso deu origem a dúvidas na fé e distanciamento da Igreja?

Inicialmente as pessoas ficaram chocadas. Como é que Deus o permitiu na Sua própria casa? Nós, padres, estávamos decididos a ficar ao lado do povo, muito embora não tivéssemos quaisquer respostas para dar. Estivemos com eles nas suas casas. Pretendíamos mostrar-lhes que Deus está e fica com eles. Depois do choque veio a zanga. Sobretudo quando souberam que o Governo tinha recebido avisos com antecedência. As pessoas tiveram de lutar com os seus sentimentos. Aqui, o apelo do Cardeal para se guiarem pela fé e não pelas emoções teve um papel vital.

Em que consiste o seu trabalho pastoral em termos concretos?

Trabalhamos bastante com crianças, que têm medo de voltar à igreja ou à catequese, e também com as mães, para fortalecer a sua fé. Há 475 anos, um rei hindu assassinou 600 cristãos no norte do Sri Lanka. Estamos a levar as famílias das vítimas aos locais comemorativos desses mártires no norte. Os que morreram no Domingo de Páscoa são mártires, pois perderam a vida por causa da sua fé. Com esta visita aos primeiros mártires, pretendemos curar as feridas das famílias. As pessoas que ficaram feridas ou perderam os seus cônjuges na guerra civil também falam com elas, encorajando-as e dando testemunho da sua fé em Deus.

Muitos católicos no Sri Lanka disseram-me que depois dos atentados de terror se tornaram mais fortes e mais devotos do que antes.

Para os que foram directamente afectados, as feridas continuam até hoje. Mas, em geral, foi uma bênção para os Católicos no nosso país, porque o país inteiro foi baptizado de um dia para o outro. Há o baptismo pela água e o baptismo de sangue. Subitamente, o nosso país tomou conhecimento da presença dos Católicos e da natureza especial da sua fé. No passado, cerca de 4.000 pessoas assistiam à mensagem do Cardeal. Agora, são centenas de milhares. Elas querem saber o que ele pensa. Nós vimos o verdadeiro significado da Páscoa! Mas tudo começou com os corpos despedaçados, com o sangue dos mártires.

Os Budistas representam 70% dos habitantes do Sri Lanka. Porque é que os terroristas não atacaram os templos budistas?

Eles constituem a maioria neste país e também incluem combatentes. Não sabemos por que razão nenhum templo budista foi atacado. Pode ter a ver com o facto de, apesar da Igreja Católica representar uma minoria neste país, ela ser maior comunidade religiosa do mundo. Os terroristas querem envolver o mundo inteiro.

Como é que estas mortes afectaram as relações entre Budistas e Católicos?

Os Budistas começaram a falar entre si sobre quão admiráveis são os Católicos. Porque é que eles não procuraram vingar-se? Felizmente, temos um sistema maravilhoso na Igreja Católica: os padres obedecem ao cardeal e os fiéis obedecem aos padres. Agora os monges budistas também nos admiram a nós, católicos, e tratam-nos com grande simpatia e respeito.

Como reagiram os chefes da comunidade religiosa islâmica no Sri Lanka ao terror que veio das suas próprias fileiras?

As autoridades muçulmanas reconheceram que foi um erro terem mantido silêncio acerca das actividades dos grupos terroristas nas suas comunidades. Nós não tínhamos conhecimento, mas eles sabiam. Perceberam que foi um desastre para todo o país. Nem todos os Muçulmanos são terroristas, mas todos os bombistas suicidas eram muçulmanos. Portanto, os Muçulmanos não puderam negar a sua parte de responsabilidade. Agora têm a missão de se purificar. Quando as investigações tiveram início, foram encontradas armas nas mesquitas. Isso foi um choque para nós. Os chefes islâmicos têm o dever de interpretar o Corão de modo pacífico.

A solidariedade internacional para com as vítimas no Sri Lanka foi visível?

As organizações internacionais católicas, tal como a Fundação AIS (ACN), têm-nos ajudado imenso. Somos uma minoria no país, mas sabemos que fazemos parte de uma família maior. Há pessoas que nunca estiveram no Sri Lanka que rezam por nós e contribuem com donativos! Assim, a Igreja Católica tornou-se uma bênção para todo o povo do Sri Lanka. Também morreram muçulmanos, hindus e budistas nas nossas igrejas. Começou uma transformação interior através da qual as pessoas olham para a Igreja Católica. Elas começam a entender o que significa viver em Cristo.

Entrevista conduzida por Stephan Baier

Fundação AIS | ACN Portugal | info@fundacao-ais.pt


 

OBSERVATÓRIO: Sri Lanka

 






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