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27-3-2020

PORTUGAL: Pré-publicação, em exclusivo, do livro “Enfim, Livre!”, de Asia Bibi


Esteve quase 10 anos na prisão por ter bebido um copo de água de um poço. Parce inverosímil mas aconteceu. Asia Bibi é a prova de como a lei da blasfémia tem vindo a ser aplicada no Paquistão para atacar as minorias religiosas, nomeadamente os cristãos. Graças a uma enorme campanha internacional, com o apoio de instituições como a Fundação AIS, Asia Bibi foi libertada. A sua história está contada no livro “Enfim, livre!”, editado em Portugal pela Lucerna. Um livro cujo primeiro capítulo é agora publicado em exclusivo para o nosso país

Asia Bibi, talvez o símbolo maior da luta contra a iníqua lei da blasfémia, no Paquistão, escreveu um livro onde conta a história da sua vida, nomeadamente o episódio que a arrastou para a cadeia por quase uma década e onde viveu a ameaça permanente de que poderia ser enforcada por ter bebido um simples copo de água de um poço. Parece inverosímil mas aconteceu. Aconteceu no dia 14 de Junho de 2009. Este livro, ‘Enfim, livre!’, com edição portuguesa da Lucerna, é fundamental para se conhecer melhor a história desta mãe que fala de si própria como “prisioneira do fanatismo”.

O livro, que a Fundação AIS agora publica um capítulo em pré-publicação, é, acima de tudo, um alerta para que o mundo olhe com atenção para a dramática situação em que se encontram as minorias religiosas no Paquistão, nomeadamente a comunidade cristã. A lei da blasfémia, que arrastou Asia Bibi para “o buraco”, como ela classifica a cela onde viveu, é sinal da perversão de uma sociedade que fecha os olhos ao sofrimento, que aceita a mentira como lei e que alimenta de forma sistemática discursos de ódio e de vingança. Os cristãos estão praticamente sozinhos nesta luta contra uma sociedade que os ignora. Poucos os defendem, poucas instituições assumem essa missão como prioritária, como faz, por exemplo, a Fundação AIS. Seria importante que o mundo não fechasse os olhos para o drama das minorias religiosas no Paquistão. Infelizmente, há muitas asias bibi neste país.

Não foi sem sofrimento que Asia Bibi conseguiu que a Justiça reconhecesse o erro quando a condenou à pena de morte e lhe suprimiu quase dez anos da sua vida encurralando-a numa minúscula cela onde conviveu sempre com o medo. “Os leitores estão longe de compreender o que foi o meu dia-a-dia na prisão”, diz, como que a justificar também este livro que é quase um diário. “Chamo-me Asia Noreen, sou filha de Salamat Masih e nasci em Janeiro de 1965, no distrito de Nankana Sahib, na região do Punjabe. No meu bilhete de identidade paquistanês, está registado que tenho um sinal na face direita, e sempre o tive.” A marca no rosto mantém-se mas nada poderá esconder as cicatrizes do sofrimento pela experiência da prisão mesmo que essas marcas não sejam claramente visíveis aos olhos dos outros. Hoje, Asia Bibi é uma mulher livre mas não pode, apesar disso, viver no seu amado país. A sua vida continua ameaçada por grupos fanáticos que querem mesmo assassiná-la. “Actualmente, tenho outra identidade, para que os fanáticos não me encontrem. A minha identidade resume-se ao estatuto de exilada política, sob um nome falso, num país em que faz frio.” O país onde faz frio é o Canadá. Mas Asia Bibi sonha em viver na Europa. Recentemente, durante o lançamento do livro em França, chegou mesmo a ser recebida pelo presidente Macron a quem pediu asilo. Seja em França, seja no Canadá, a sua vida nunca será verdadeiramente a de uma mulher livre pois as juras de vingança sobre ela e são para se levar muito a sério. A própria história da defesa de Asia Bibi está escrita com sangue de inocentes. O governador de Punjab, Salman Taseer, e o ministro cristão Shahbaz Bhatti foram assassinados por a erem apoiado publicamente. Os dois foram também vítimas da lei de blasfémia no Paquistão. A edição portuguesa do livro ‘Enfim, livre!’, de Asia Bibi, escrito em parceria com a jornalista francesa Anne-Isabelle Tollet tem o apoio da Fundação AIS.

Paulo Aido

  

PRÉ-PUBLICAÇÃO DO LIVRO ‘ENFIM, LIVRE! ’ DE ASIA BIBI
EDIÇÃO: LUCERNA

 Enfim Livre

No escuro

Não tenho memória para datas, mas há dias que não se esquecem. Sexta-feira, 19 de junho de 2009, é um deles. Foi nesse dia, imediatamente antes de o Sol se pôr, que cheguei ao centro de detenção de Shekhupura, onde passei três anos, após o que mudei de prisão como quem muda de casa. Ainda não tinha sido julgada, mas aos olhos de todos já era culpada. Lembro-me desse dia como se fosse ontem, e quando fecho os olhos revejo cada instante… Doem-me os pulsos e custa-me respirar. Tenho o pescoço – que a minha filha mais nova costumava enlaçar com os seus bracitos – metido num colar de ferro, que o guarda pode apertar à sua vontade com um enorme parafuso. A esse colar está ligada uma comprida corrente que se arrasta pelo chão imundo, e que liga o meu pescoço à mão do guarda; ele puxa-me como se eu fosse um cão à trela. No fundo de mim, sinto um medo surdo, que me empurra para as profundezas das trevas; um medo lancinante, que nunca me deixará. Naquele momento, a minha única vontade é subtrair-me à dureza deste mundo.

Em volta dos tornozelos – metidos nas sandálias feitas pelo amável sapateiro da minha aldeia –, tenho também algemas de couro, ligadas entre si por uma corrente estreita e tensa. A cada passo que dou, só por pouco não caio; ora direita, ora curvada, custa-me avançar. Outra coisa que me incomoda são os cabelos soltos; mas perdi o lenço da cabeça quando me atiraram, qual saco de batatas, para fora do carro da polícia que me conduziu à prisão. Sinto-me nua e a descoberto. O cabelo esconde-me parcialmente a cara, coberta de lixo e suor, mas nem isso destoa do cenário: pareço uma mulher da vida. Faço uma careta, em virtude de uma dor que o guarda ignora, pois não se dá ao trabalho de se voltar para mim, com receio de se «manchar». Bruscamente, o homem acelera o passo e puxa secamente pela corrente que está presa ao meu pescoço; eu estatelo-me ao comprido, mas ele não abranda. Sinto-me sufocar e, para evitar que ele me estrangule, trato de me levantar rapidamente e de voltar a acertar o passo com o dele.

Ao fundo, os pratos de metal entrechocam-se. Olho para a direita e para a esquerda num corredor interminável, mas só vejo portas de madeira fechadas. Dou um salto ao ouvir o grito duma mulher: – À morte! Seguem-se outras vozes de mulheres: – Enforquem-na! – Enforquem-na! Enforquem-na! São as outras presas, metidas em celas como gado, que gritam de ódio. Petrificada pelo medo, e para não ter de ouvir aqueles berros funestos, vou murmurando hummmmmmm com os maxilares cerrados. Mas em vão. Enquanto percorro o longo corredor pálido, ponho os olhos numa enorme mosca poisada numa das lâmpadas imundas de néon. Em vagas sucessivas, as presas vão batendo nos pratos de metal em cadência: – Enforquem-na! Claque, claque… Enforquem-na! Claque, claque… O guarda de camisa azul para diante da última cela do corredor e volta-se pela primeira vez; os seus olhos inchados olham-me com uma expressão satisfeita. Por baixo da boina azul-marinha, pinga-lhe o suor pela face, e as axilas ostentam enormes auréolas húmidas. Com um ar sádico, tira do bolso um trapo velho. Ouvem-se mais gritos: – Morte à blasfema! Blasfema, blasfema, à morte! – Calem-me essas goelas, mulheres! – grita o guarda. E toda a gente se cala. Eu vomito silêncio. O guarda desenrosca-me o colar de ferro com um pano repugnante, tendo o cuidado de nunca tocar no meu cabelo nem na minha pele. Faço uma careta de dor, baixo os olhos, e a seguir levo a mão ao pescoço, coberto de hematomas. Com um ar enojado, ele atira-me: – És pior que um porco! Vou ficar impuro por te ter tocado, vou apanhar a tua porcaria toda, mas vai ser por pouco tempo, Alá Akbar! Com um golpe seco, dá-me um pontapé com a bota na rótula e eu caio. Algum tempo depois, virei a saber que esse guarda, na companhia do qual passaria três anos da minha vida, se chama Khalil. O Khalil coloca-se ao meu nível para me tirar as algemas dos pés. Com as duas mãos apoiadas nos joelhos, sofro em silêncio, olhando-o com temor. Ele escarnece de mim enquanto me liberta os tornozelos: – Pena de morte! Pois, condenada à morte por teres insultado o nosso profeta! Quem é que pensavas que eras, cadela nojenta? Silêncio de chumbo. Levanto-me com dificuldade, apoiada num pé, enquanto ele abre a porta daquela que virá a ser a minha casa. A porta chia intensamente e o Khalil, soltando uma gargalhada, diz-me: – Ouviste as tuas companheiras? Da próxima vez que eu abrir esta porta, será para te levar à forca, inch’Alá! E, depois de ter raspado as botas em mim, empurra-me para dentro da cela e a porta fecha-se sobre a sua gargalhada trocista. Caída no chão de terra daquela cela de onde a esperança se ausentou, olho fixamente para a porta, pensando que aquela provação talvez me tenha sido enviada por Deus.


O livro "Enfim Livre" está disponível exclusivamente no nosso CATÁLOGO ONLINE


 

OBSERVATÓRIO: Portugal

 






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01-03-2020

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