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Malásia

Em princípio, a Constituição da Malásia valida a secularidade do Estado e, no Artigo 11, protege e garante o direito inviolável à liberdade religiosa. No entanto, o Islão permanece como religião oficial e existe um sistema judicial duplo que legaliza os tribunais islâmicos e lhes disponibiliza um leque alargado de poderes, permitindo-lhes intervir em diversos sectores. Em teoria, os tribunais islâmicos estão autorizados a incluir os cidadãos não muçulmanos. Os juízes podem decidir sobre questões relativas ao casamento, heranças divórcios e a custódia dos filhos, bem como sobre ritos funerários e outros factores que acabam por afectar os não muçulmanos, causando confrontos inter-religiosos. A Carta fundamental do Estado define um conjunto de restrições sobre a prática da própria fé, que, acrescentadas às leis ordinárias e às políticas repressivas, acabam por restringir a liberdade religiosa, por vezes de forma clara e em massa, em especial para as crenças consideradas como “heréticas” pelo Islão oficial. Ao todo há cinquenta e seis versões da fé muçulmana que são consideradas como “desviantes” e, de acordo com as autoridades, também são uma ameaça à “segurança nacional” e poderão dividir a comunidade islâmica. Os grupos proibidos incluem os ahmadi, os islamailiahs, os xiitas e os bahá’í.


Restrições legais à liberdade religiosa

A Constituição reserva ao Governo federal e aos governos dos diversos estados no país o poder de “controlar ou restringir a propagação de diferentes doutrinas e confissões religiosas entre os que professam a religião islâmica”. Descreve igualmente o grupo étnico malaio como muçulmano. Os tribunais civis passam habitualmente aos tribunais islâmicos todos os casos relativos a conversões do Islão, que a sharia não está inclinada a julgar favoravelmente. Os muçulmanos não estão autorizados a converter-se a outra fé, mas o oposto é autorizado. Os representantes estatais das administrações centrais e locais controlam todas as actividades religiosas e por vezes influenciam o conteúdo dos sermões para espalhar mensagens políticas e também para impedir que alguns imãs falem publicamente em locais de culto.

Permanece uma tendência para considerar o Islão acima de todas as outras religiões reconhecidas pela lei.

As minorias são geralmente livres de prestar culto, embora nos últimos anos tenha havido um aumento do número de relatos sobre um movimento gradual dos tribunais civis para os tribunais islâmicos. Especificamente, este fenómeno diz respeito à lei da família e a controvérsias nas quais um muçulmano e um não muçulmano constituem as partes envolvidas. As minorias ainda vivem restrições à liberdade de expressarem a sua fé e prestarem culto, bem como restrições em explorar propriedades e bens. Estas restrições incluem publicações cristãs em língua malaia, com os casos controversos a envolverem o uso da palavra “Alá” para descrever o Deus cristão, e a proibição de todas as confissões religiosas de realizarem proselitismo dentro da comunidade islâmica. Os relatos indicam que ainda há abusos e discriminação baseados em crenças religiosas, na religião professada ou em actos de culto.

Finalmente, no que diz respeito a festividades tradicionais e dias de descanso, embora entre crescente controvérsia, o domingo, que é tradicionalmente associado ao Cristianismo, permanece como o dia oficial de descanso nos territórios federais e em dez dos treze estados do país, apesar do que acontece em países muçulmanos do Médio Oriente. Há excepções, como por exemplo os estados de Kedah, Kelantan e Terengganu, onde o fim-de-semana ocorre às sextas-feiras e sábados. Há muitas festividades que são oficialmente reconhecidas e celebradas, incluindo as festividades muçulmanas de Hari Raya Puasa, Hari Raya Haji e o aniversário do nascimento de Maomé, a festividade budista de Wesak, as festividades hindus de Deepavali e Thaipusam, o Natal cristão e a Sexta-feira Santa nos estados de Sabah e Sarawak.


Relações diplomáticas entre a Santa Sé e a Malásia

Em relação à comunidade católica, o acontecimento mais significativo de 2011 foi o estabelecimento de relações diplomáticas entre a Santa Sé e Kuala Lumpur, oficializadas a 27 de Julho, uns dias após a visita do primeiro-ministro Najib Bin Abdul Razak ao Vaticano. A Santa Sé e a Malásia, “desejosas de promover laços de amizade mútua, acordaram em conjunto estabelecer relações diplomáticas. O anúncio feito hoje pelo Vaticano confirmou que as relações diplomáticas foram estabelecidas a 18 de Julho durante a visita do primeiro-ministro Najib Razak Bin Abdul a Bento XVI, e afirma que a relação vai ser ao mais alto nível, com um Núncio Apostólico da Santa Sé e uma Embaixada da Malásia.”

Uma declaração emitida nessa ocasião referiu “conversas cordiais” nas quais “os desenvolvimentos positivos nas relações bilaterais foram mencionados e foi acordado estabelecer relações diplomáticas entre a Malásia e a Santa Sé”.

No momento em que as relações se tornaram oficiais, a agência noticiosa Fides falou com o P. Lawrence Andrew, sj, sacerdote em Kuala Lumpur e antigo editor do Herald Malaysia, o semanário digno de crédito publicado pela Arquidiocese da capital. O P. Lawrence confirmou que ter um núncio apostólico em Kuala Lumpur poderá ter consequências muito positivas para a Igreja e para toda a comunidade cristã, porque “a comunicação entre o Governo e a Igreja vai melhorar. Além disso, para nós cristãos é uma oportunidade de nos tornarmos visivelmente numa grande ‘faixa moral’, um ponto de referência para a moralidade, para propagar e defender valores, para combater a corrupção, o abuso e outros males que afligem a vida nacional.” A Igreja, acrescentou, “vai continuar, tal como dantes, representando a verdade, defendendo os direitos básicos, como por exemplo a dignidade humana e a liberdade religiosa” e desta forma vai contribuir para “o desenvolvimento deste país”. O P. Lawrence também destacou que a maior parte das questões correntes permanecem sobre a mesa, incluindo o uso da palavra Alá por não muçulmanos, a liberdade de ter Bíblias a circular, a batalha para eliminar a pena de morte e o respeito pela liberdade e pelos direitos humanos básicos sem discriminação.


Igreja e ONGs opõem-se à pena de morte para jovem católica deficiente

No final de Julho, a coluna Vatican Insider no jornal diário italiano La Stampa falou do compromisso mostrado pela Igreja e por várias ONGs para salvarem uma jovem católica de origem indonésia que arriscava a pena de morte. Wilfrida Soik está actualmente detida numa prisão malaia, acusada de ter morto o seu patrão, um crime pelo qual pode ser condenada à morte. Muitas ONGs na Indonésia e na Malásia, bem como a Igreja Indonésia de Atambua (a diocese a oeste da ilha de Timor, de onde a jovem é originária), tomaram medidas para defender a jovem. Este caso apresenta diversas ambiguidades e torna-se mais grave pelo facto de a jovem ser deficiente mental e no passado ter sido vítima de tráfico humano. A Igreja Católica de Atambua, graças à intervenção pessoal do Bispo, Mons. Dominikus Saku, relatou o caso à Comissão de Direitos Humanos da Indonésia e trabalhou para que Wilfrida seja perdoada e possa regressar a casa.

Falando sobre este assunto à agência noticiosa Fides, o advogado católico sedeado em Kuala Lumpur Charles Hector Fernandez, Director da organização Malaios Contra a Pena de Morte e a Tortura (MADPET), garantiu que a sua associação iria “fazer tudo o que é possível para ajudá-la. Explicou igualmente: “Segundo a lei malaia, nos casos de assassínio, o juiz é obrigado a decidir pela pena de morte. Esta é uma das questões com as quais estamos mais comprometidos e pedimos que esta lei seja revista, para que o juiz possa pelo menos ter o poder de escolha de aprovar a pena de prisão perpétua quando há circunstâncias mitigadoras.”


Católicos, entre a luz e as sombras

Numa entrevista publicada em Agosto pelo jornal Free Malaysia Today, o Bispo católico de Malaca-Johor, Paul Tan Chee, sj, acusou os políticos malaios de fomentarem o ódio inter-religioso, opondo-se ao que os cidadãos comuns sentem e crêem, pois eles não desejam que haja quaisquer divisões baseadas na religião. A controvérsia relativa ao uso da palavra “Alá” para descrever Deus na Bíblia, a proibição de haver Bíblias publicadas em língua local e a alegada conspiração cristã para enfraquecer o estatuto do Islão no país são tudo questões que causaram problemas entre cristãos e o Governo. O Bispo também mencionou um acontecimento recente envolvendo conflito inter-religioso que ocorreu na semana anterior à declaração à imprensa e que envolveu o Departamento Religioso Islâmico de Selangor (JAIS) a invadir uma igreja com base num relato que afirmava que inúmeros muçulmanos estavam a participar num jantar que aí estava a ser realizado.

Embora este raide tenha resultado em críticas de diversas partes, o director dos Assuntos Religiosos Estatais, Hasan Ali, afirmou que os cristãos estavam a realizar proselitismo junto dos muçulmanos. O Mons. Paul Tan Chee relatou à AsiaNews: “A questão é extremamente simples. Se as acusações forem confirmadas, vou fazer tudo o que puder para corrigir a situação e pedir desculpa. Caso estas alegações não sejam confirmadas, exijo que elas sejam retiradas com um pedido de desculpas.” Comentando a declaração feita pelo director do JAIS, Marzuki Hassan, que afirmou que o raide tinha por objectivo proteger os interesses dos muçulmanos, o Bispo respondeu: “Acredito que os interesses dos muçulmanos estariam mais bem protegidos se os seus representantes dissessem a verdade sem apresentarem hipóteses alarmistas.” O Bispo acrescentou igualmente: “Se alguém quiser partilhar as nossas crenças, não hesitaremos, porque acreditamos que a fé pode ser proposta mas não imposta.” Finalmente, de acordo com o Mons. Paul Tan, os políticos são responsáveis por muitas controvérsias que recentemente envolveram a fé cristã. “Isto deve-se a manipulações e duplicidade dos políticos na procura de votos à custa dos crédulos e dos ignorantes”, disse o Bispo.

Umas semanas mais tarde, a meio de Setembro, a página de Internet Ucanews relançou a declaração emitida pela Sociedade de Advogados Católicos da Malásia, que acolheu, favorável mas prudentemente, os planos do Governo dirigidos à abolição da controversa Lei da Segurança Interna, que entre outras disposições legais também prevê a possibilidade de detenção sem julgamento. O primeiro-ministro Najib Razak destacou que a alteração vai ser aprovada pelo Parlamento no futuro próximo e de acordo com o presidente da Sociedade de Advogados Católicos esse é um passo na direcção certa, “porque no passado esta lei foi explorada para silenciar os dissidentes. Está na hora de o Governo abolir esta lei draconiana e todas as leis que violam os direitos humanos, a liberdade de pensamento e a liberdade religiosa.”

O dia 30 de Novembro, Dia de Santo André, foi um dia festivo para toda a comunidade católica malaia, que celebrou a ordenação de Andrew Wong, de 43 anos, originário de Ipoh e membro da Congregação dos Discípulos do Senhor, como noticiou o Herald Malaysia, destacando o facto de os que não conseguiram lugar na igreja terem acompanhado a cerimónia num ecrã colocado no exterior. A última ordenação na paróquia de St. Michael tinha ocorrido vinte e dois anos antes, quando o P. Michael Cheah foi ordenado.

A missa em duas línguas foi celebrada pelo Bispo de Penang, Mons. Antony Selvanayagam, e concelebrada pelo P. Philip Tan Chong Men e pelo pároco da paróquia de St. Michael, Mons. Stephen Liew. Participaram quarenta e nove sacerdotes na cerimónia, além de muitos monges e religiosas.

Uns dias antes do Natal, contudo, surgiu um caso envolvendo uma violação da liberdade religiosa, noticiado pela agência noticiosa Fides. A 15 de Dezembro, duas igrejas de Klang, um subúrbio de Kuala Lumpur, receberam uma informação da polícia solicitando os nomes e detalhes dos que iam cantar cânticos de Natal, porque, na sua opinião, era necessária autorização da polícia antes de poderem cantar cânticos de Natal nas igrejas e em casa. Os crentes responderam afirmando que estas exigências eram “absurdas e inadmissíveis”. “Esta é uma interpretação restritiva das normas existentes”, disse um porta-voz católico, “que dizem respeito a actividades de culto e liberdade religiosa. A polícia está totalmente confundida e, após protestos de cristãos, os representantes do Governo já negaram a necessidade dessas autorizações.” O Mons. Paul Tan Chee Ing, Bispo de Malaca-Johor e presidente da Conferência Episcopal, afirmou que estas restrições tornarão o país “praticamente num estado policial” se a polícia continuar com estas exigências burocráticas.

Especialistas em política malaia acreditam que por detrás deste tipo de acontecimento estão motivações políticas e eleitorais. O primeiro-ministro Najib Razak tinha criado esperanças na sociedade civil em relação à inauguração de uma nova era de reformas com a sua decisão de abrogar uma série de leis muito detestadas, como por exemplo a Lei de Segurança Interna (Internal Security Act - ISA), introduzida pela Malásia após a independência em relação à Grã-Bretanha em 1957. Tal como prometido pelo Governo, este documento deveria ter sido substituído por uma nova lei em 2011, criada para alinhar a Malásia com os regulamentos internacionais. O Governo tinha feito afirmações para tranquilizar os cidadãos após protestos de rua organizados pelo movimento Bersih 2.0 (que significa “limpeza”), registado em Kuala Lumpur em Julho passado, que tinham exigido “transparência e direito”. Pelo contrário, uma nova proposta de lei chamada Lei da Reunião Pacífica, que regulamenta o direito a reunir e protestar e foi aprovada pela Câmara Baixa, dá ao Governo mais poder para aplicar controlos preventivos e dar mais autoridade à polícia. Resultou em protestos da sociedade civil e também de minorias religiosas pertencentes ao Conselho Consultivo malaio do Budismo, Cristianismo, Hinduísmo, Sikhismo, Hinduísmo e Taoísmo. Esta disposição legal afirma especificamente que “as localizações nas quais não sejam autorizados encontros não vão ter autorização para incluir locais de culto”. De acordo com Teresa Mok, secretária-geral do Partido Acção Democrática, estas novas normas são “um abuso de poder por parte das autoridades” e “uma tentativa de violar a liberdade religiosa”.


Discriminação anticristã

Entre perseguições abertas e pequenos episódios de abuso e alienação, a comunidade cristã da Malásia é testemunha da sua fé com coragem e determinação.

Em Março de 2011, voltaram a surgir controvérsias relativas à publicação da Bíblia em malaio, embargada pelo Governo devido à controvérsia de longa data, arrastada nos tribunais durante anos em casos ganhos pelos cristãos, relativamente ao uso da palavra “Alá” para descrever Deus. A maior organização cristã local tomou uma posição dizendo que estava “cansada” da recusa do Governo em autorizar a distribuição de uns milhares de Bíblias. A organização acredita que isto é uma afronta à liberdade religiosa. É um protesto bastante raro e no qual se envolveu a Federação Cristã da Malásia. É também um sinal da crescente impaciência com esta questão vivida pelas minorias religiosas. O presidente da Federação, o Bispo Ng Moon Hing, afirmou que as autoridades estavam a embargar 30.000 exemplares da Bíblia publicados em malaio num porto da ilha de Bornéu. Esta é a última tentativa feita por cristãos para importar Bíblias, em particular da Indonésia; todas as tentativas anteriores falharam, ao mesmo tempo que não há quaisquer problemas com as edições em inglês. Em Dezembro de 2009, um tribunal tinha decidido que os cristãos têm o direito constitucional de usar a palavra “Alá”. O presidente recorreu da sentença, mas não foi estabelecida nenhuma data para a audiência. Em Janeiro de 2010, a decisão do tribunal tinha causado tensão temporária e a raiva de extremistas muçulmanos. Onze igrejas foram atacadas. A Igreja Católica voltou a imprimir um dicionário de Latim-Malaio com 400 anos para provar o uso antigo da palavra “Alá” no sentido cristão nesse país.

A discriminação não só envolve os textos religiosos como, num país com uma larga maioria muçulmana, as mulheres são igualmente vítimas de intolerância social e religiosa. Em Março de 2011, a página de Internet Persecution.org contou a história de uma advogada cristã que não tinha obtido autorização para praticar advocacia em tribunais muçulmanos que aplicam a sharia. Victoria Jayaseele Martin disse que desejava poder representar não muçulmanos envolvidos em processos em tribunais islâmicos, para garantir que eles seriam defendidos de forma justa e também porque um número crescente de casos nestes tribunais também envolvem não muçulmanos. A Malásia tem dois sistemas paralelos, um sistema “secular” que aplica a lei a cidadãos não muçulmanos e o sistema da sharia que decide questões relativas à maioria muçulmana no país.

Victoria lutou em tribunal contra a decisão do Conselho Religioso de que todos os advogados nos tribunais islâmicos deveriam ser muçulmanos. No entanto, um juiz no tribunal de Kuala Lumpur decidiu contra ela. A advogada acredita que esta sentença é inconstitucional e vai recorrer para um tribunal superior. Na Malásia, o sistema judicial islâmico concentra-se em questões de família como a poligamia, o divórcio e a guarda dos menores. Em 2010, o presidente malaio admitiu juízas nos seus tribunais islâmicos pela primeira vez, aceitando um pedido apresentado pela organização Sisters in Islam.

No início de Abril terminaram os processos em tribunal sobre as Bíblias, tal como confirmado pela AsiaNews que noticiou a decisão tomada pelo Governo de Kuala Lumpur de autorizar a importação e publicação de Bíblias em todas as línguas. As autoridades garantiram aos cristãos que não serão necessárias marcas ou números de série em Bíblias importadas. Estas decisões fazem parte de uma solução de dez pontos para a controvérsia sobre as Bíblias em língua malaia. O Governo anunciou que as importações não vão ser sujeitas a quaisquer condições, nem o vai ser a publicação local da Bíblia em Sabah e em Sarawak, reconhecendo assim as grandes comunidades cristãs presentes nestes estados. No entanto, haverá uma condição para as Bíblias importadas para a península malaia ou publicadas localmente. Estas Bíblias terão de ter uma cruz na capa e as palavras “publicação cristã”. Esta decisão tem em conta os interesses da comunidade islâmica maioritária do país. O Governo também anunciou que não haverá proibições ou restrições impostas aos que viajam entre Sabah e Sarawak e a península malaia transportando as suas Bíblias. O Ministério do Interior emitiu uma directiva sobre a Bíblia confirmando esta situação e os representantes governamentais que não a apliquem serão sujeitos a medidas disciplinares. O Governo também autorizou os importadores a ficarem com 35.100 Bíblias embargadas em Kuching e Port Klang sem qualquer custo.

No entanto, no mesmo mês, a página de Internet Persecution.org noticiou as declarações de uma organização extremista muçulmana que representa vinte grupos diferentes e que tinha declarado jihad contra os “extremistas cristãos” que desafiam e insultam o Islão. Estas ameaças são uma vez mais causadas pela questão de longa data da Bíblia em língua malaia, com as suas publicações a serem descritas pelos extremistas como um crime inadmissível e imperdoável. O porta-voz do grupo jihadista acrescentou que os cristãos estão a começar a organizar um “desafio” ao Estado islâmico, que poderá levar ao seu desmantelamento e à perda de soberania.

Contudo, a 25 de Maio, o jornal diário Malaysian Insider noticiou as afirmações de diversos líderes muçulmanos que acreditam que os cristãos e outras minorias religiosas foram tratados com excessivo favorecimento e que os seus direitos deveriam ser “revistos”. Um dos líderes da organização extremista Da’wah Foundation Malaysia (Yadim) também exigiu a “deportação” de não muçulmanos que não respeitem o “pacto social” e fez pressão para salvaguardar os interesses muçulmanos. Uma declaração semelhante surgiu dois meses mais tarde, a 22 de Julho, quando a AsiaNews noticiou um discurso feito no dia anterior na conferência da Islamic Understand Malaysia (IKIM) por uma personalidade islâmica malaia importante, Mohd Sani Badron, que voltou a incendiar a controvérsia relativa à tradução da Bíblia para a língua local e a palavra usada para descrever a divindade, dizendo que o uso da palavra “Alá” para descrever o Deus dos cristãos deve parar, pois pode causar a ira islâmica.

O ataque do académico islâmico surgiu uns dias depois do encontro histórico entre o primeiro-ministro malaio Datuk Seri Najib Razak e o Papa Bento XVI. No seu documento intitulado “Kontroversi Nama Khas ‘Allah’ Dalam Konteks Pluralisme Agama”, Badron, director de Estudos Económicos e Sociais, disse que “a má tradução da palavra ‘Deus’ como ‘Alá’ na Bíblia malaia deve ser abandonada, porque apresenta erradamente as duas religiões como sendo iguais”. “A tradução de ‘Deus’ como ‘Alá’ é um erro grave, o nome deve ser traduzido correctamente… nós interpretamos não só a palavra mas o significado e esse significado está errado e é desadequado.” Acrescentou igualmente: “Tanto quanto diz respeito ao significado, a palavra correcta para ‘Deus’ no Cristianismo é ‘Tuhan’ e a palavra ‘Senhor’ também é ‘Tuhan’, não ‘Alá’”.

A controvérsia em torno das conversões tornou-se numa questão nacional em meados de Outubro, tal como se afirma num artigo do Malaysian Insider que noticia que o Jurisconsulto Supremo de Perils, Dr. Junanda Jaya, quando questionado pela imprensa, descreveu como “ilógicas” as proclamações segundo as quais mais de 250.000 muçulmanos malaios tinham renegado a sua fé. De acordo com o líder religioso, todo o proselitismo deve ser impedido e as notícias das conversões não devem ser publicitadas, porque o assunto é demasiado “sensível” e pode destruir a imagem do país que o apresenta como sendo “incapaz de defender os seus fiéis”. Os líderes muçulmanos, em colaboração com associações de jovens e movimentos extremistas, organizaram um protesto de rua para o final de Agosto, solicitando a participação de um milhão de pessoas para defenderem a integridade do Islão na Malásia.

A 1 de Dezembro, o principal jornal católico do país, o Herald Malaysia, noticiou as queixas de inúmeros pais cristãos em zonas rurais em Sarawak, cujos filhos tinham regressado da escola a recitar orações muçulmanas. Falaram de uma “tentativa subtil” de inculcar nestas crianças os ensinamentos e ditames do Islão, de modo a convertê-las. “Muitas zonas agrícolas”, disse um dos pais, “têm uma grande maioria cristã e este problema começa a ser um problema grave.” A lei estabelece que os professores que professam uma religião diferente da dos seus alunos não devem fazer proselitismo ou revelar intencionalmente as suas crenças aos alunos.


Muçulmanos e extremismo

Também na Malásia a visão extremista do Islão acaba por afectar as pessoas e as celebrações compreendidas como um “símbolo do Ocidente” ou de moralidade corrupta. Estes também incluem o dia que celebra o amor, descrito como a “armadilha” de S. Valentim, que é considerado como sendo contra os princípios muçulmanos. Durante os dias que precederam o 14 de Fevereiro de 2011 e no próprio dia, a comunidade cristã realçou o facto de se tratar de um evento comercial e não estar ‘ligado’ à religião, não devendo tornar-se numa desculpa para protestos “hostis”. Num talk-show chamado “Dia de S. Valentim: proibido pelo Islão”, também colocado no YouTube, líderes muçulmanos avisaram os jovens para que não celebrassem a festividade. O Governo desempenhou igualmente um papel fundamental na campanha contra a “armadilha” do Dia de S. Valentim, enquanto em muitos hotéis do país foram levados a cabo controlos para prevenir que os casais tivessem “casos extramatrimoniais”. Esta campanha data de 2005, quando foi emitida uma fatwa
contra os apaixonados. A ala da juventude do partido da oposição Pan-Malaysian Islamic Party promoveu a repressão e a intervenção na presença de “actividades imorais”. No entanto, nem todos os muçulmanos concordam com a repressão. O músico de 40 anos Akmal Arrifin considera que é uma atitude ‘tribal” proibir a sua celebração e avisou que o Islão ‘moderno’ não pode dar-se ao luxo desse tipo de repressões.

No final de Janeiro de 2012, tal como noticiado pela AsiaNews, o extremismo religioso também se voltou contra um poeta saudita considerado “blasfemo” e por isso detido pelas autoridades malaias e extraditado para Jedá, onde arrisca a pena de morte. O poeta e autor saudita Hamza Kashghari tinha abandonado o seu país para evitar as ameaças e o mandado de prisão emitido pelos juízes em Riade que o acusaram de ter ofendido o Profeta Maomé. Foi detido em Kuala Lumpur e extraditado para a Arábia Saudita, onde vai ser presente a tribunal por desprezo da religião islâmica. O jovem foi obrigado a fugir do seu país no seguimento da controvérsia causada por diversos textos colocados no Twitter relativos a Maomé que foram considerados ofensivos.

Foi detido enquanto tentava organizar uma viagem para um país que pudesse dar-lhe asilo, mas as autoridades malaias prenderam-no e deportaram-no, apesar do facto de não haver acordos específicos entre os dois países. O elemento principal na base da decisão de enviá-lo de volta à Arábia Saudita foi a alegada ofensa dirigida ao Islão. Existe um grupo no Facebook, que se formou rapidamente e que tem 8.000 membros, intitulado “Exigimos a execução de Hamza Kashgari”. É muito provável que seja condenado à morte.



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