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China

 

O ano de 2011 na China foi caracterizado por um grande número de violações dos direitos humanos e da liberdade religiosa. Além das ferramentas de controlo existentes usadas pelas comunidades religiosas oficiais (e da criminalização das actividades de comunidades não oficiais ou a viver na clandestinidade), os problemas dos grupos religiosos pioraram devido ao seguinte:

a)    Receios de Pequim de que também a China fosse atingida por uma “Primavera” semelhante à que varreu ditadores do poder no norte de África e no Médio Oriente. Os analistas foram rápidos a indicar semelhanças entre os países destas regiões e a China (um Governo ditatorial, um grande fosso entre ricos e pobres, ausência de liberdades fundamentais, desemprego e forte apoio à mudança entre a juventude). Estes receios tornaram o regime ainda mais desconfiado de qualquer actividade religiosa não autorizada explicitamente.

b)    A iminente mudança na liderança política do país. Está previsto que o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao deixem os seus lugares provavelmente em Outubro de 2012. Espera-se que Xi Jinping e Li Keqiang os substituam. Os dois novos líderes são “principelhos”, filhos de oficiais de topo do partido, conhecidos pelo seu pragmatismo e compromisso com o reforço da situação económica e política da China na arena internacional. Contudo, conflitos internos facciosos fizeram correr ondas de choque em todo o partido. O caso de Bo Xilai, ou “principelho maoísta”, é um exemplo desses casos. Para ganhar apoio da opinião pública doméstica, muitos reavivaram os slogans, canções, atitudes e métodos do tempo de Mao Zedong e procuraram demonstrar a sua própria correcção ideológica atacando os supostos “inimigos”, incluindo as comunidades religiosas.

Mais do que em qualquer outro ano, tem havido uma série de cristãos (católicos e protestantes), muçulmanos e budistas (tibetanos), bem como dissidentes, advogados de direitos humanos, activistas pró-democracia, bloguers, artistas (como Ai Weiwei), e jornalistas.

Desde o início do ano, as agências de segurança receberam mais poderes para “apanhar” e deter “suspeitos” durante meses sem fim com base em questões de segurança nacional, terrorismo ou corrupção. Estão planeadas alterações às leis existentes para impedir que as pessoas tenham direito a informar o seu advogado ou família em caso de detenção. Segundo a lei chinesa, as pessoas já podem ser colocadas em prisão domiciliária até seis meses sem qualquer acusação formal. Segundo uma alteração proposta, as autoridades poderão também deter “suspeitos” em locais secretos que não são uma prisão ou uma esquadra de polícia. Embora ainda não tenha sido adoptada, a alteração proposta já foi posta em prática no caso de Ai Weiwei e de muitos outros crentes.

A China tem receio de que o descontentamento possa assumir uma forma religiosa, reforçando as fileiras daqueles que querem mais liberdade e menos controlos. Ao mesmo tempo, alguns dissidentes estão a voltar-se para a religião, em especial para o Cristianismo, como base ideal para o seu activismo. Muitos converteram-se e foram baptizados, algo que está inclusivamente a acontecer dentro do partido, forçando os representantes oficiais a impor sanções explícitas.

Na edição de meados de Dezembro da revista Qiu Shi (À Procura da Verdade), uma revista ligada ao partido, Zhu Weiqun, vice-presidente da Frente Unida, fez um aviso. “Se deixarmos que os membros do partido acreditem na religião”, escreveu, “isto vai inevitavelmente levar a divisões internas na organização e ideologia do partido”. Depois de fazer carreira sobre a questão do Tibete e de boicotar todo o diálogo com o Dalai Lama, Zhu Weiqun acrescentou ao estilo maoísta: “Todas as religiões, sem excepção, são idealistas por natureza. Na filosofia, há um conflito fundamental entre materialismo e idealismo – nenhum deles pode coexistir, seja ao nível individual ou ao nível do partido político.”

De acordo com Zhu, permitir que os membros do partido tenham uma fé religiosa iria minar o Marxismo e a ideologia orientadora do país, enfraquecendo o partido na luta contra os movimentos separatistas (ou seja, budistas tibetanos e muçulmanos uigures), ao mesmo tempo que ofuscaria o papel do partido no controlo das religiões.

Na edição seguinte da revista À Procura da Verdade, no ano passado, o próprio Hu Jintao se insurgiu “contra os poderes hostis” que estão a tentar “ocidentalizar” a China. Embora a China tenha alcançado o estatuto de poder mundial importante, ainda está atrasada em termos de “influência discreta”, e não consegue influenciar o mundo. Por isso, precisa de tomar “medidas poderosas” para parar a colonização cultural do Ocidente, argumentou Hu Jintao.

Para Hu, que além de ser presidente da China também é secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC), “A força global da cultura chinesa e a sua influência internacional não são proporcionais ao estatuto internacional da China.” Por esta razão, a China precisa de fazer mais esforços para desenvolver a cultura chinesa, de modo a corresponder às “exigências espirituais e culturais crescentes das pessoas”. Ao mesmo tempo, “Temos de estar conscientes da gravidade e complexidade das lutas e tomar medidas poderosas para as prevenir e lidar com elas.”

Para alguns analistas, a luta contra os poderes “hostis” inclui uma luta contra o Cristianismo e o Catolicismo, que são vistos como “a essência da cultura ocidental”.

“Os poderes internacionais hostis estão a reforçar os seus esforços para nos ocidentalizar e dividir”, escreveu Hu num artigo, referindo que “os campos ideológico e cultural” são os seus alvos principais.

Nos seus discursos, os membros do partido referem-se muitas vezes ao Vaticano e ao Papa como “poderes estrangeiros” que procuram destruir a China sob “a aparência da religião”.

Católicos

No caso específico dos católicos, 2011 viu a Associação Católica Patriótica Chinesa (ACPC), a Frente Unida e os representantes pró-regime da Igreja oficial ameaçarem ordenar dezenas de novos bispos sem o consentimento da Santa Sé. A ACPC é a entidade governamental oficial que controla a Igreja oficial.

Anthony Liu Bainian, presidente honorário da ACPC, disse que a Igreja na China continuaria a “auto-eleger” e “auto-consagrar” os seus bispos sem mandato papal.

O Bispo excomungado Guo Jincai disse também que a Igreja na China iria ordenar bispos auto-eleitos em pelo menos “sete dioceses” .

Ao longo do ano, a Santa Sé disse por diversas vezes que o mandato papal para os bispos recém-ordenados era um aspecto essencial da fé católica e uma necessidade intrínseca ao Credo.

Ao mesmo tempo, a Santa Sé reiterou – tal como o fez Bento XVI na sua Carta aos Católicos Chineses em 2007 – que o objectivo da Associação Católica Patriótica Chinesa de construir uma Igreja independente, separada do Papa, era “incompatível” com a fé católica.

Apesar disto, a ACPC e o Governo não se inibiram de interferir nas ordenações episcopais. Algumas foram canceladas, outras foram adiadas. Outras ainda foram realizadas ilegalmente (sem mandato papal).

Em diversos casos, os bispos excomungados impuseram a sua presença em ordenações regulares, embora, de acordo com a doutrina católica, eles não pudessem aproximar-se sequer dos sacramentos. Noutros casos, de ordenações ilegais, os bispos fiéis ao Papa foram forçados pela polícia a participar no acontecimento.


Ordenações episcopais

O Governo atrasou a ordenação do P. Shen Guoan como Bispo de Hankou (Wuhan, Hubei), marcada para 9 de Junho, sem uma explicação. Ainda assim, uma vez que não tinha mandato papal, a ordenação teria sido ilegal. Contudo, o presidente honorário da ACPC, Anthony Liu Bainian, avisou o Vaticano de que “não interferisse no trabalho dos bispos auto-eleitos e auto-ordenados”.

Os católicos locais, as religiosas da diocese e o próprio candidato estavam contra a ordenação e recusaram-se a apoiar a decisão da ACPC. As religiosas chegaram mesmo a organizar uma manifestação pública para exigir liberdade religiosa total e respeito pela fé católica.

A ordenação do P. Joseph Sun Jigen como Bispo Coadjutor da Diocese de Handan (Hebei), marcada para 29 de Junho, foi cancelada pelo Governo sem explicação. A nomeação do P. Sun tinha sido aprovada pela Santa Sé e o Governo estava de acordo com ela.

A polícia levou o bispo nomeado de 43 anos de idade a 26 de Junho, no final de um retiro espiritual de cinco dias. Até esse dia, a festa do Corpo de Cristo, o P. Sun tinha estado em retiro a preparar-se para a cerimónia de consagração episcopal. Tinha estado em Weihui, na província de Henan, com o P. Joseph Huai, o chanceler diocesano de Handan. Em conjunto, os dois tinham planeado regressar à sua diocese, quando, de repente, os representantes da segurança pública de Handan os forçaram a entrar num veículo da polícia.

Quando a viatura policial chegou a Handan, o P. Huai insistiu que ambos os sacerdotes fossem autorizados a regressar às suas dioceses. Em vez disso, foram conduzidos para a cidade vizinha, Shahe, onde a polícia colocou o P. Huai noutro veículo e o levou sozinho de volta para Handan. O P. Sun, contudo, foi forçado a continuar a viagem com a polícia para norte, em direcção a Shijiazhuang.

De acordo com fontes locais, a ordenação foi cancelada porque não se chegou a acordo sobre quais os bispos que participariam na cerimónia. Os sacerdotes e o novo bispo tinham querido que todos os prelados convidados estivessem em comunhão com o Papa. A ACPC e o Ministério dos Assuntos Religiosos queriam incluir alguns bispos excomungados.  Mas a diocese levou a melhor sobre das autoridades ao ordenar secretamente o Mons. Sun Jigen a 21 de Junho de 2011.

A 29 de Junho, o P. Paul Lei Shiyin foi ordenado Bispo de Leshan (Sichuan) sem mandato papal. Sete bispos em comunhão com o Santo Padre participaram na celebração. Por ordem da Associação Católica Patriótica Chinesa, a missa foi realizada precisamente no dia de São Pedro e São Paulo.

Esta foi a primeira ordenação na sequência da emissão de uma declaração por parte da Santa Sé em relação à excomunhão dos membros do clero que participem em ordenações ilegais, seja como candidatos ou bispos ordenantes.

O Bispo Lei Shiyin, de 48 anos de idade, tornou-se sacerdote a 30 de Novembro de 1991. Actualmente é membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, uma entidade consultiva do Parlamento chinês. É também vice-presidente da Associação Católica Patriótica Chinesa e é o antigo presidente da ACPC em Sichuan.

O Vaticano contactou o candidato urgindo-o a não prosseguir com a ordenação. Para a Santa Sé, o P. Lei Shiyin não era um candidato adequado para a função pastoral. Dias após a ordenação, o Gabinete de Imprensa da Santa Sé anunciou a excomunhão (latae sententia) do bispo ordenado e a possível excomunhão dos bispos que participaram no acontecimento.

A 14 de Julho, o P. Joseph Huang Bingzhang tornou-se Bispo de Shantou (Guangdong) numa ordenação ilegal (sem mandato papal). Oito bispos em comunhão com o Papa participaram na cerimónia. Alguns deles disseram mais tarde que tinham sido forçados a participar. O Mons. Paul Pei Junmin, designado como presidente da celebração, conseguiu resistir e não ir à cerimónia.

O Vaticano não autorizou a ordenação porque Shantou já tem um bispo, o Mons. Zhuang Jianjian, que foi ordenado secretamente em 2006 com um mandato do Vaticano, mas não é reconhecido pelo Governo e foi sempre impedido pela Associação Católica Patriótica Chinesa. Para o Vaticano, o novo candidato à Sede Episcopal não era “digno” da função por causa do seu envolvimento na política.

Nascido em 1967, o P. Huang Bingzhang iniciou os seus estudos no seminário de Wuchang (Wuhan) em 1985. Ordenado em 1991, trabalhou na Catedral de S. José como pároco. Desde 1998, tem sido membro do Congresso Nacional do Povo, o Parlamento chinês. É também um dos vice-presidentes da Associação Católica Patriótica Chinesa aprovada pelo Governo, além de ser presidente da Associação Patriótica Católica de Guangdong.

Neste caso igualmente, o Vaticano anunciou a excomunhão do bispo ordenado e a possível excomunhão dos bispos ordenantes, que chegaram ao ponto de serem participantes voluntários no acontecimento.

A 25 de Julho, Xinhua publicou uma declaração da Administração Estatal para os Assuntos Religiosos (AEAR) denunciando as “ameaças irrazoáveis e brutais” do Vaticano, bem como as suas “acusações contra a ordenação de bispos da Igreja Católica Chinesa”, em especial as ordenações de Leshan (29 de Junho de 2011) e Shantou (14 de Julho de 2011).

Na sua declaração, a AEAR disse que a excomunhão “fere profundamente” os católicos chineses e “causa grande tristeza” aos sacerdotes e aos leigos, usando os mesmos termos (“fere profundamente” e “causa grande tristeza”) usados pelo Vaticano para descrever as reacções da Igreja universal e do Papa às ordenações ilegais. A AEAR insistiu que os “dois novos bispos ordenados (ou seja, excomungados) são devotos da fé, têm integridade e competência, e são apoiados pelos seus sacerdotes e leigos”.

De acordo com a agência do Governo, o Vaticano também tinha “ameaçado” os bispos e sacerdotes com a excomunhão na década de cinquenta e isso tinha tido como consequência que “os sacerdotes e os leigos da Igreja Católica chinesa tinham sofrido um grande trauma histórico”. Em resposta às “ameaças” do Vaticano, a AEAR emitiu as suas próprias ameaças quando disse: “A maior parte dos sacerdotes e leigos vai ser resoluta na escolha do caminho da independência e auto-organização com bispos auto-eleitos e auto-ordenados.”

No que é considerado como uma vingança contra as “ameaças” do Vaticano em relação à questão das excomunhões contra os envolvidos nas ordenações episcopais em Leshan e Shantou, o P. Franco Mella, do Instituto Pontifício das Missões Estrangeiras (PIME), foi retido na fronteira chinesa em Julho. Após intenso interrogatório, foi enviado de volta a Hong Kong. O missionário do PIME de Hong Kong tinha estado a trabalhar com uma escola em Shaanxi.

O caso do P. Mella não é um caso isolado. Nas semanas que o antecederam, outros sacerdotes e leigos católicos de Hong Kong e da Itália foram retidos e reenviados para os seus locais de origem, apesar de terem um visto de entrada válido. Outros viram os seus vistos de trabalho serem cancelados.

De acordo com fontes em Hong Kong, o Governo tem uma lista de vinte e três personae non gratae por causa de manterem contactos entre o Vaticano e a Igreja na China.

A 30 de Novembro, o Mons. Peter Luo Xuegang foi ordenado Bispo Coadjutor de Yibin (Sichuan) sem mandato papal. Contudo, o Bispo excomungado Paul Lei Shiyin (de Leshan) participou na cerimónia contra a vontade da Santa Sé, que exige que os bispos excomungados não participem em ritos católicos.

Até ao último minuto, a Santa Sé e os fiéis esperavam que Lei Shiyin não participasse. No entanto, diversos representantes do Vaticano não sabiam que ele viria à consagração. Lei Shiyin, que estudou com o Mons. Luo, é o bispo de uma diocese vizinha. É também presidente da Associação Católica Patriótica Chinesa em Sichuan e um apoiante de uma Igreja “independente” e “patriótica”.

Nos dias que antecederam a ordenação, deu uma entrevista em que alegou que a Igreja na China se tinha “tornado adulta” e tinha seguido o seu próprio caminho. Dias mais tarde, vangloriou-se de ter concelebrado com os outros bispos “como um deles”.

Temendo que a sua presença pudesse criar resistência entre os fiéis, as autoridades disseram aos milhares de participantes que viessem à igreja três horas antes da hora marcada e que se submetessem a um detector de metais. Não foram autorizados a tirar fotografias ou a filmar a cerimónia.

De acordo com membros do partido, “o Vaticano tem espiões que, assim que a cerimónia termina, enviam fotografias para Roma e para todo o mundo”. As páginas de Internet da Diocese de Sichuan foram bloqueadas durante todo o dia.

Numa declaração, o director do gabinete de imprensa do Vaticano expressou “desaprovação e consternação perante a presença de um bispo excomungado, o que “agrava a sua posição canónica”.

Normalmente, referiu, “a presença do Bispo Lei Shiyin deveria ter sido totalmente excluída e implicaria consequências canónicas para os outros bispos que participassem na cerimónia”. “Nesta circunstância, é provável que eles não consigam impedi-lo sem grande inconveniência”, explicou.

Para o Cardeal Joseph Zen de Hong Kong, a ordenação de Yibin representa “o triunfo do controlo estatal sobre a liberdade religiosa dos fiéis”.

O Mons. John Hung, Arcebispo de Taipei, está igualmente consternado com as alegações de Pequim de que tem direito a controlar as ordenações. Na sua perspectiva, “as empresas que muitas vezes abrem escritórios na China têm direito a nomear pessoas à sua escolha para gerirem o seu negócio. Por contraste, Pequim quer escolher os bispos da Igreja Católica […]. Ou seja, a Igreja tem menos direitos que uma simples loja.”


Controlos sobre ritos, instituições religiosas e seminários

O Governo ameaçou controlar o orfanato criado pelo Mons. Julius Jia Zhiguo, Bispo de Zhengding na clandestinidade. Caso o realize, será um acto de vingança das autoridades contra a recusa “teimosa” do prelado em aderir à Associação Católica Patriótica Chinesa (ACPC).

Em Dezembro de 2010, o Sr. Yin do Departamento da Frente Unida, o Sr. Guo do Secretariado Político, o Sr. An do Gabinete de Assuntos Religiosos de Jinzhou, o Secretário do Partido Comunista da aldeia de Wu Qiu e o Sr. Chen do Gabinete de Segurança Pública de Shijiazhuang levaram o Bispo Jia em três ocasiões diferentes, numa tentativa de o forçarem a assinar um documento de desvinculação segundo o qual colocaria os órfãos a seu cargo sob responsabilidade do Governo e concordaria em mandar embora as trinta religiosas católicas que trabalham no orfanato.

Estes representantes do partido ameaçaram o Mons. Jia com mais uma “sessão política” de longa duração se ele não assinasse o documento. Disseram-lhe que o Governo levaria as crianças quer assinasse quer não. O prelado recusou-se a assinar e voltou-se em vez disso para o escritório central do Gabinete de Assuntos Religiosos de Pequim, que lhe disse que este era um assunto local, fora da sua jurisdição.

O Mons. Jia, de 75 anos de idade, passou mais de quinze anos na prisão. Desde 1980, quando se tornou bispo na clandestinidade, tem sido sucessivamente colocado em prisão domiciliária, detido durante meses sem fim e sujeito a sessões políticas para o forçar a submeter-se à ACPC. 

A polícia isolou a aldeia de Gonghui (Hebei) para impedir que os católicos se reúnam para uma última despedida ao Mons. Andrew Hao Jinli, o Bispo de Xiwanzi na clandestinidade que faleceu a 9 de Março aos 95 anos de idade. A Diocese de Xiwanzi (Hebei), que faz parte da Igreja na clandestinidade, tem cerca de 15.000 membros e localiza-se a 260 km a norte de Pequim, perto da fronteira com a Mongólia Interior. Desde o dia da morte do bispo, todas as estradas que levam à aldeia foram encerradas e o dia do funeral foi mantido em segredo.

Muito amado pela sua comunidade, o Mons. Hao tinha formado muitos sacerdotes da Igreja na clandestinidade. Passou pelo menos vinte anos na prisão por causa da sua fé e sofreu décadas de controlos opressores, mas sempre se recusou a aderir à Associação Católica Patriótica Chinesa.

A 13 de Janeiro, os seminaristas de Hebei conseguiram que fosse nomeado um bispo como seu novo reitor e um novo comité de orientação que não incluía qualquer político. Anteriormente, em Novembro e Dezembro de 2010, 100 seminaristas tinham entrado em greve e realizado manifestações para retirarem um político local, Tang Zhaojun, do lugar de reitor adjunto do seu seminário.


Detenções e tortura

O P. Zhang Guangjun, da Diocese de Xuanhua (Hebei), foi detido a 13 de Janeiro e ficou preso até 29 de Março. Durante esse período foi torturado por causa de se ter recusado a aderir à Associação Católica Patriótica Chinesa.

No dia da sua detenção, o P. Zhang foi levado por representantes oficiais vestidos como técnicos de uma empresa de gás para um hotel no condado de Zhoulu, onde foi sujeito a privação do sono durante cinco dias. Após ter sido brevemente libertado por altura do Ano Novo chinês, foi novamente detido a 8 de Março, severamente espancado e torturado. A 29 de Março, os seus parentes foram autorizados a levá-lo da prisão para receber tratamento médico. Tinha feridas na cabeça e nas pernas.

Em Março, pelo menos oito sacerdotes da mesma diocese foram forçados a submeter-se a sessões de estudo obrigatórias para aprenderem a política religiosa do Governo. Eram eles Tian Yongfeng, Pei Youming, Hu Huibing, Liang Aijun, Wang Yongsheng, Yang Quanyi, Gao Jinbao e Zhang Guilin.

Calcula-se que desde a década de noventa mais de vinte sacerdotes de Xuanhua e Xiwanzi tenham sido detidos, espancados, encarcerados e forçados a participar em sessões de estudo para os induzir a “registarem-se” perante as autoridades e a porem fim à sua associação à Igreja na clandestinidade.

A 9 de Abril, no condado de Yanqing perto de Pequim, dois polícias à paisana levaram o P. Chen Hailong de Xuanhua (Hebei), que tinha sido sacerdote na clandestinidade durante dois anos. O P. Chen foi mantido em isolamento durante pelo menos dois meses num “hotel” desconhecido, onde sofreu de malnutrição ao ponto de desmaiar.

As autoridades que o detiveram também o interrogaram sobre membros importantes da Igreja na clandestinidade, tentando constantemente convencê-lo a aderir à Associação Católica Patriótica Chinesa e a cortar todos os laços com o Papa. Para ultrapassar a solidão e o sentimento de abandono, o P. Chen desenhou uma imagem da Eucaristia na parede da sua cela, passando todo o tempo a rezar em frente ao símbolo do Santíssimo Sacramento.

A 3 de Agosto, quatro sacerdotes da comunidade na clandestinidade em Heze (Caozhou, Shandong) foram levados pela polícia e encarcerados na prisão do condado de Dongming, onde sofreram isolamento e malnutrição. A detenção/rapto ocorreu à noite numa casa de Luquan (condado de Dongming), onde os quatro tinham ido para um retiro espiritual com outros sacerdotes. A polícia de segurança pública saltou o muro da propriedade e entrou nas instalações a pretexto de que estava a perseguir “alguns ladrões”. Em vez disso, forçou os sacerdotes, que tinham estado a dormir, a irem com eles.

Actualmente, os quatro homens – o P. Wang Chengli, de 48 anos, administrador da Diocese de Heze; o P. Zhao Wuji, de 50 anos; o P. Li Xianyang, de 34 anos; e o P. Sun Guichun, de 38 anos – ainda estão na prisão.

A polícia recusou todos os pedidos de visita até agora. Além disso, negou aos prisioneiros alimentos e bebidas adequados para os forçar a aderir à Associação Católica Patriótica Chinesa.

Entretanto, representantes governamentais tentaram recolher provas para usar contra os sacerdotes em tribunal. A alguns dos fiéis foram de facto oferecidos subornos ou receberam ameaças para os levar a falar contra os sacerdotes.

Alguns membros da Igreja tentaram sem sucesso falar com a polícia para encontrar formas de tirar os quatro sacerdotes da prisão. Embora não tenham conseguido, conseguiram saber que os quatro homens tinham sido sujeitos a intensos interrogatórios por parte dos representantes da segurança nacional e dos agentes locais da segurança pública, bem como por parte de agentes do Gabinete para os Assuntos Religiosos.

A 3 de Setembro, diversos indivíduos não identificados atacaram e espancaram uma religiosa e um sacerdote que estavam a pedir a devolução de duas propriedades da Igreja em Kangding (Sichuan). A Madre Xie Yuming sofreu ferimentos na cabeça e no peito e foi levada para o hospital. O P. Huang Xusong sofreu apenas ferimentos menores e não foi levado para o hospital. Os dois foram atacados porque estavam a tentar reafirmar os direitos de propriedade da Igreja sobre duas escolas que tinham pertencido à Diocese de Kangding até passarem a ser controladas pelo Governo na década de cinquenta.

Com base nas normas definidas por Deng Xiaoping, as duas propriedades, uma antiga escola primária e uma escola para rapazes, deveriam ter sido devolvidas à diocese. Mas a escola primária já tinha sido demolida pelo Governo, que tinha dado o terreno a uma empresa privada. A escola para rapazes é actualmente usada como residência para representantes governamentais do condado de Moxi.

A sede episcopal de Kangding (na prefeitura tibetana autónoma de Garze) está actualmente vaga e é administrada pela Diocese de Leshan, que é gerida pelo Mons. Lei Shiyin, que foi ordenado a 29 de Junho de 2011 sem aprovação papal.

A devolução das propriedades da Igreja tomadas após a subida ao poder de Mao Zedong é uma questão complicada. Em diversas ocasiões, o Governo central tinha dito que esses bens deveriam ser devolvidos aos seus legítimos donos, mas a ACPC e o Gabinete para os Assuntos Religiosos (GAR) tinham sempre recusado os pedidos de restituição. Em vez disso, muitas das propriedades em questão tinham sido transferidas para agentes da ACPC do GAR como sua propriedade privada.


Condenações


A 25 de Agosto, o Governo chinês condenou o P. Wang Chengli, administrador diocesano de uma comunidade na clandestinidade na Diocese de Heze (Caozhou) na província de Shandong, a dois anos de “reeducação através de trabalhos forçados”. O P. Wang tinha sido detido a 3 de Agosto, em conjunto com outros sacerdotes que foram mais tarde libertados. Finalmente, o sacerdote de 48 anos de idade foi transferido da prisão de Dongming em Heze para o Centro de Reeducação em Jining, a mais de 150 km de distância. O Governo não autorizou a sua família ou qualquer outra pessoa a visitá-lo. O P. Wang tem tensão alta e a sua família está preocupada com a sua saúde.

Algumas fontes católicas em Heze acreditam que ele foi condenado porque se recusou a aderir à ACPC. As mesmas fontes também disseram que a condenação do P. Wang poderia estar relacionada com a ordenação do Bispo oficial da Igreja de Heze.

Nascido em Yanzhou, o P. Wang foi ordenado em 1991. Durante vários anos, geriu a comunidade de Heze na clandestinidade e celebrou vinte anos de sacerdócio no ano passado.

A “reeducação através de trabalhos forçados” é uma pena administrativa imposta pelos Gabinetes de Segurança Pública, numa tentativa de ‘reformar’ os dissidentes políticos e religiosos sem julgamento ou possibilidade de recurso.


Guerra ao santuário de Sheshan

No ano passado, tal como todos os anos, o Governo e a polícia impuseram novamente proibições e restrições aos católicos chineses que procuraram peregrinar ao santuário nacional de Nossa Senhora de Sheshan no dia da sua celebração, 24 de Maio.

No passado, dezenas de milhares de católicos oficiais e na clandestinidade vieram de todo o país ao santuário. Em 2007, Bento XVI pediu à Igreja universal um Dia Mundial de Oração para que a Igreja na China seja celebrada em cada ano neste mesmo dia, 24 de Maio.

Desde 2008, quando o dia escolhido pelo Papa foi celebrado pela primeira vez, o Governo tentou impedir que os fiéis participassem, impedindo os católicos na clandestinidade e limitando o número de peregrinos de outras dioceses. Apenas os grupos de católicos da Diocese de Shanghai foram autorizados a realizar a viagem. Este ano, novamente, a segurança em Sheshan foi muito restrita, com inúmeros polícias, detectores de metais, controlos diversos e câmaras de vigilância a filmar todo o espaço.

O Bispo Auxiliar de Shanghai, Mons. Aloysius Jin Luxian, de 95 anos, não veio no dia definido, mas celebrou missa no santuário a 1 e 11 de Maio. Nesta última ocasião, ele queria informar os fiéis de que a Santa Sé tinha aceitado a causa de beatificação do primeiro convertido de Shanghai, Paul Xu Guangqi (um contemporâneo de Matteo Ricci), mas foi impedido de o fazer pela Associação Católica Patriótica Chinesa.

Da mesma forma, os sacerdotes na clandestinidade em Shanghai foram “levados pela polícia para um passeio turístico a expensas do Governo”, para não poderem realizar a peregrinação a Sheshan tal como tinham planeado. Como os sacerdotes foram retirados à força, nenhuma das comunidades clandestinas da cidade conseguiu celebrar missa. Tendo sido proibidas de realizar a viagem a Sheshan, muitas comunidades organizaram orações alternativas e visitas a santuários marianos nas suas próprias dioceses.

Ainda assim, apesar das dificuldades, milhares de católicos foram à peregrinação no dia festivo, liderados pelo Bispo Auxiliar de Shanghai, Mons. Xing Wenzhi .


Protestantes

Durante muitos anos, as comunidades protestantes da China sofreram uma grave falta de liberdade religiosa, muitas vezes sob a forma de perseguição selvagem. Este ano, o Governo teve mão ainda mais pesada do que o habitual, temendo que os encontros descontrolados dos protestantes pudessem ser a semente para a ‘Primavera Árabe’ chinesa. De facto, ao longo do ano, as autoridades de Pequim tiveram receio de que os distúrbios que arrasaram o norte de África e o Médio Oriente pudessem chegar à China.

Pensa-se que os protestantes do país sejam entre 50 a 80 milhões, de acordo com as estimativas mais optimistas. A maior parte deles prefere ficar longe das comunidades oficiais controladas pelo Governo. Numa tentativa de dificultar o seu crescimento, as autoridades proibiram todos os encontros entre protestantes e chineses estrangeiros. Além disso, encerraram muitos edifícios usados pelos protestantes, destruíram as suas igrejas e ameaçaram senhorios que pudessem arrendar-lhes os seus espaços. E também detiveram crentes protestantes em grande número.

Mesmo assim, os protestantes resistiram resolutamente aos abusos e encerramentos, pedindo em vez disso às autoridades que respeitassem os direitos tal como garantidos (teoricamente) na Constituição da China. Alguns foram ao ponto de se dirigir ao Parlamento chinês, o Congresso Nacional do Povo, para se expressarem sobre o que achavam ser uma injustiça.

Em Maio de 2011, um grupo de dezassete Igrejas protestantes anunciou uma petição dirigida a Wu Bangguo, membro do Politburo e presidente do Parlamento. Esta foi a primeira vez que tantos grupos cristãos apresentaram uma petição pública ao Governo. Nela afirmaram: “Durante sessenta anos, o direito à liberdade religiosa garantido pela Constituição aos cristãos do país não foi posto em prática.” A petição não só pedia respeito pela liberdade religiosa, de acordo com os princípios da Constituição, como também pedia ao Congresso do Povo que adoptasse uma lei que garantisse a liberdade religiosa, em vez de deixar a questão a regulamentações que os governos provinciais podem usar e abusar.

As Igrejas também deploraram as políticas violentas que levaram ao longo dos anos ao encerramento das igrejas “clandestinas” e “domésticas” e à destruição dos seus edifícios. A petição acusou igualmente a China de não respeitar a cláusula da liberdade religiosa da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual Pequim é oficialmente signatária. “A liberdade religiosa”, diz a Declaração, “inclui a liberdade de reunião, associação, expressão, educação e evangelização”.

Os líderes das Igrejas clandestinas insistem que são cristãos e cidadãos de pleno direito, e que “amam o seu país” e desejam muito “rezar pelo Governo” e pela China, que está a assumir um papel cada vez mais importante e responsável na comunidade internacional.


Proibição de viajar

A 18 de Janeiro, as autoridades impediram Wang Yi, um conhecido cristão na clandestinidade, de embarcar num avião em Chengdu (Sichuan) com destino a Hong Kong, onde deveria dar uma palestra sobre a organização e desenvolvimento das Igrejas Evangélicas.

Wang, que defendeu os direitos humanos e organizou diversas igrejas domésticas, estava com três outros cristãos quando foi detido. Os seus colegas foram libertados umas horas depois e conseguiram chegar a Hong Kong. Wang também acabou por ser libertado, mas quando tentou chegar ao aeroporto foi novamente detido e levado para a esquadra. A polícia de Chengdu alegou que o líder cristão não estava preso, mas não conseguiu dizer porque é ele estava a ser detido.


Violência contra lugares de culto e pessoas


A 23 de Fevereiro, a polícia de Yangdang, na província central de Hubei, destruiu um centro cristão legal. Quando invadiram o local, os membros do centro estavam a estudar os regulamentos do Gabinete para os Assuntos Religiosos. Um grupo de mais de 180 polícias, liderados pelos chefes da polícia local e pelo Gabinete para os Assuntos Religiosos, comandou a operação. Usaram gás lacrimogénio, espancaram os presentes, incluindo duas mulheres (uma delas idosa) e partiram o equipamento do centro.

De acordo com testemunhas oculares, apesar dos pedidos insistentes dos que ficaram feridos no incidente, nenhum deles foi “levado para hospital para tratar as suas feridas”. Em vez disso, “vários cristãos foram algemados e espancados com brutalidade”.

No início de Abril, as autoridades locais em Guangzhou (Guangdong) obrigaram a igreja de Tianyun, que tem uma congregação com cerca de 200 membros, a cessar todas as suas actividades religiosas.

Outra igreja, em Rongguili, que tem uma congregação de 4.000 membros, também se encontrou numa situação difícil quando a cidade obrigou o dono do terreno no qual a igreja se localizava a revogar o contrato de arrendamento.

Em Junho, membros da Igreja da Aliança de Todas as Nações em Shanghai e membros da Igreja Liangren em Guangzhou juntaram-se nas ruas para rezar, em protesto contra a sua expulsão das instalações que estavam a arrendar.

O escritor dissidente Yu Jie fugiu para os Estados Unidos com a sua mulher e o seu filho de 3 anos. Yu receava pela sua segurança e da sua família, após receber ameaças das autoridades por causa das suas críticas intrépidas à liderança do partido comunista.

Yu, de 38 anos, é autor de um grande livro, China's Best Actor: Wen Jiabao [O Melhor Actor da China: Wen Jiabao], no qual critica o actual primeiro-ministro da China, acusando-o de hipocrisia, de projectar a imagem de um “avô bondoso”, quando de facto sempre perseguiu o poder enquanto tentava limitar riscos e evitar o conflito político. Proibido na China continental, o livro foi publicado em Hong Kong, onde teve sucesso comercial.

Quando estava em Pequim, Yu também liderou uma comunidade protestante clandestina que não foi autorizada a prestar culto. “Até me tiraram a liberdade de publicar no estrangeiro. Senti que, como escritor e como cristão, já não tinha liberdade para me expressar e para praticar a minha religião. Por isso, escolhi vir para os Estados Unidos, onde posso viver livremente”, explicou.

Yu chegou aos Estados Unidos a 12 de Janeiro de 2012, como convidado de uma comunidade cristã da Virgínia. Contudo, jurou continuar a escrever e trabalhar pelos seus amigos e “não vai desiludi-los” .


A comunidade de Shouwang

Em Abril, a Igreja de Shouwang, a maior comunidade protestante de Pequim, com cerca de 1000 membros, sobretudo homens de negócios e professores, foi notícia de primeira página.

A 1 de Abril, o Governo disse ao proprietário do local onde os membros se encontravam para prestar culto que cancelasse o contrato de arrendamento. O local propriamente dito é um grande cenário para filmes que foi transformado num salão de encontros e num local de culto.

Esta não é a primeira vez que Igreja de Shouwang é assediada. Nos últimos anos, as autoridades ameaçaram os seus membros em diversas ocasiões, forçando-os a mudar de local de encontro mais de vinte vezes.

Em Novembro de 2009, quando a Igreja foi forçada a sair uma vez mais, os membros tiveram que se encontrar num parque durante duas semanas para celebrar a missa dominical.

A Igreja comprou 1.500 m2 num edifício comercial por 27 milhões de yuans. Apesar de receber o dinheiro, o proprietário recusou-se a dar as chaves do lugar aos representantes da Igreja depois de ser pressionado pelas autoridades.

Uns meses antes, a comunidade tinha sido despejada de um espaço de restauração depois de o Governo ter dito ao proprietário que não o arrendasse aos cristãos.

A Igreja entregou um pedido de registo em 2006, mas ainda não obteve resposta por parte das autoridades.

Depois da última expulsão, o Reverendo Jin Tianming disse que ele e os membros da sua congregação teriam de encontrar-se novamente num parque. Contudo, segundo a lei chinesa, os encontros não autorizados não são permitidos. Mas, para o Reverendo Jin, “Não temos outra escolha. Vamos enfrentar as consequências da nossa decisão.”

No domingo 10 de Abril, a comunidade reuniu em público no bairro de Haidian (a norte de Pequim) para celebrar a liturgia. Quando a polícia chegou, detiveram cerca de 200 membros da congregação.

Um dia antes, o Reverendo Jin Tianming e quatro outros pastores da comunidade também tinham sido detidos. A maior parte deles acabou por ser libertada com um aviso para não ir mais à Igreja Shouwang.

Uma semana mais tarde, a 17 de Abril, a polícia prendeu os líderes e deteve cerca de cinquenta membros da comunidade Shouwang, novamente para impedi-los de celebrar missa ao ar livre. No dia anterior, a polícia deteve o Reverendo Jin Tianming. Foi interrogado durante doze horas e mantido na prisão durante a noite.

Também no mesmo dia, durante a noite, a polícia levou o Reverendo Li Xiaobai e a sua mulher durante umas horas. Na manhã seguinte, fizeram o mesmo ao Reverendo Zhang Xiaofeng. Tanto Li como Jin foram colocados em prisão domiciliária.

A comunidade colocou uma mensagem online, apelando aos fiéis para celebrarem a Semana Santa em público, apesar da possibilidade de detenção. Quando as pessoas começaram a chegar ao local escolhido, a polícia procedeu à sua detenção antes do início da cerimónia.

A 1 de Maio, mais trinta membros da Igreja Shouwang foram parar à prisão, ao mesmo tempo que dezenas de outros membros foram colocados em prisão domiciliária. A polícia deteve as pessoas assim que elas chegaram e levou-as para a prisão por uma ou duas noites. Também impediram três jornalistas da Al-Jazeera de chegar à zona e ficaram com as suas cassetes vídeo.

A 7 de Maio, mais quinze membros da congregação foram presos quando tentavam realizar uma celebração litúrgica num parque público em Zhongguancun (Haidian). Como de costume, a polícia deteve as pessoas e prendeu-as durante alguns dias antes de as libertar. Quando foram libertados, alguns fiéis disseram que estavam “felizes” por terem conseguido rezar e cantar hinos na prisão, “proclamando o Evangelho aos guardas prisionais”.

A 15 de Maio, pela sexta vez consecutiva, a polícia, em grande número, deteve treze membros da congregação Shouwang assim que eles tentaram rezar numa praça na zona do mercado de Zhongguancun.

Dias antes, a Igreja de Shouwang queixou-se que dez membros da sua congregação foram despedidos porque se tinham recusado a deixar a comunidade.

Os proprietários despejaram mais trinta membros das suas casas perante a pressão das autoridades.

A 22 de Maio, mais membros da comunidade foram detidos, incluindo uma mulher com cerca de 80 anos e uma criança de 2 anos. Ambas foram libertadas passadas umas horas. Os outros ficaram na prisão durante mais uns dias.

A 5 de Junho, a polícia prendeu mais vinte membros da Igreja de Shouwang, quando tentaram rezar juntos numa praça.

Antes de 4 de Junho, o aniversário do massacre de 1989 na Praça de Tiananmen, a polícia convocou dezenas de cristãos como advertência. Outros foram colocados em prisão domiciliária durante vários dias para prevenir protestos ou orações públicas.

A polícia foi ao ponto de ameaçar fazer com que alguns dos membros da Igreja fossem despedidos dos seus empregos. Por causa disso, quatro líderes da Igreja, incluindo um pastor e dois diáconos, desinteressaram-se da decisão de se encontrarem na praça para rezar.

No domingo 19 de Junho, a polícia prendeu mais quinze cristãos de Shouwang (dezasseis de acordo com outras fontes) quando tentaram realizar uma oração na Praça Zhongguancun de Pequim.

O Movimento Três Autonomias (MTT), a entidade governamental oficial que supervisiona os protestantes chineses, enviou representantes às esquadras para ajudar os polícias a “educar” e “avisar” os cristãos detidos, e impeli-los a aderirem à Igreja oficial. Contudo, para os protestantes clandestinos, a MTT “serve o Partido e não a Deus”.

Dois dos detidos não foram libertados. Os outros foram enviados para diversas esquadras para serem interrogados. Depois de receberem um aviso, foram libertados passadas umas horas. Os interrogadores tentaram envolver os detidos em questões teológicas, de modo a questionar se as acções da Igreja de Shouwang obedeciam à fé cristã.


Detenções

A 13 de Março, doze protestantes na clandestinidade reuniram-se em casa de Weng Zemei, na aldeia de Maan (condado de Baihe, Shaanxi), para rezar. O chefe da polícial local, Xia Huashan, acompanhado de dois agentes, interrompeu a oração e prendeu os doze membros da pequena comunidade. Dez foram libertados imediatamente, mas dois foram mantidos na prisão: o dono da casa, Weng, e Zhang Yongkang. A polícia também apreendeu todas as Bíblias e livros religiosos encontrados no local.

Às 10 horas da manhã do dia 26 de Julho, a polícia chinesa deteve vinte e um líderes protestantes na clandestinidade, acusando-os de “usarem uma organização religiosa para minar a lei nacional”.

De acordo com fontes locais, dezenas de polícias interromperam um encontro religioso na cidade de Wuhai, na Mongólia Interior. Os pastores locais e os sacerdotes seus colegas de Shizuishan, na província de Ningxia, também se encontravam no encontro. Os líderes cristãos estavam a reunir para planear as actividades das respectivas Igrejas. A polícia deteve todos e apreendeu tudo o que encontrou: Bíblias e mesmo esteiras de bambu sobre as quais os presentes estavam sentados. Os prisioneiros foram levados para o Centro de Detenção de Wuhai. Depois de uma visita médica, seis foram libertados devido a problemas de saúde. No entanto, em clara violação da lei, a polícia não informou as famílias sobre as detenções e não preencheu os impressos apropriados.

Em vez disso, a polícia chegou mesmo a extorquir dinheiro das famílias dos líderes cristãos. Depois de manter os prisioneiros detidos durante quinze dias, a polícia visitou as suas famílias para exigir o pagamento de 50.000 yuans (cerca de 7.800 dólares americanos) pela sua libertação. Depois de o dinheiro ter sido angariado com grande esforço, o caso foi remetido ao Gabinete de Segurança Pública. No Gabinete, um representante do Governo exigiu mais dezenas de milhares de yuans das famílias para libertar os detidos, ameaçando enviá-los para campos de trabalhos forçados ou acusá-los de crimes mais graves, caso não pagassem.

A 2 de Janeiro de 2012, Pequim reconheceu pela primeira vez em vinte meses que Gao Zhisheng, um advogado, estava a ser mantido na prisão na província ocidental de Xinjiang. Tinha sido detido em Fevereiro de 2009 e não se tinha ouvido falar dele desde então. Gao era um cristão que tinha trabalhado de graça em nome dos membros de minorias sociais e religiosas na China.

A confirmação da sua detenção chegou quando o seu irmão, Gao Zhiyi, foi informado. De acordo com este, Zhisheng estava provavelmente na prisão de Shaya. Contudo, a prisão não podia ser contactada por telefone, e o Gabinete de Segurança Pública do Condado de Shaya afirmou que não tinha nenhuma informação sobre o caso.

Em Dezembro, a agência noticiosa oficial da China, Xinhua, confirmou que Gao tinha sido novamente detido “por violar os termos da sua liberdade condicional”. No entanto, não deu quaisquer esclarecimentos adicionais sobre o caso. Ao enviá-lo para Xinjiang, uma província remota e inacessível, ficou claro que as autoridades queriam impedir quaisquer visitas ao prisioneiro.

Gao Zhisheng é um dos dissidentes mais respeitados na China. Membro do partido, teve uma carreira brilhante como advogado e foi considerado um dos dez melhores advogados da China. No entanto, quando se converteu ao Cristianismo, decidiu dedicar-se a defender todos os que são acusados de crimes inventados sempre que exigem liberdade religiosa, democracia e justiça.


Tortura

Detido pela polícia a 19 de Fevereiro, Jiang Tianyong, um advogado cristão dissidente, foi sujeito a dois meses de abusos, ameaças e tortura. O seu “crime” foi a decisão de defender o direito dos cristãos à liberdade religiosa e os direitos dos activistas pró-democracia, das pessoas que vivem com sida e dos membros do Falung Gong.

Jiang Tianyong disse que, após a sua detenção, foi levado para um lugar desconhecido onde foi espancado durante dois dias seguidos. Depois disso, foi forçado a ficar de pé durante quinze horas enquanto era sujeito a um interrogatório por parte das forças de segurança. Sempre que “errava” ou respondia “não sei”, era também ameaçado e humilhado.

Num tom arrogante, os seus algozes disseram-lhe: “Aqui podemos fazer as coisas de acordo com a lei. E também podemos não fazer as coisas de acordo com a lei, porque estamos autorizados a não fazer as coisas de acordo com a lei.”

Uma noite, quando foi pontapeado e esmurrado, perguntou ao seu acusador: “Eu sou um ser humano, você é um ser humano. Porque é que está a fazer uma coisa tão desumana?” Enfurecido, o homem atirou Jiang ao chão e gritou: “Você não é um ser humano!”

Jiang foi libertado sessenta dias mais tarde depois de ter assinado oito promessas. Se alguma delas for quebrada, foi avisado de que iriam prendê-lo a ele e à sua mulher. Uma das promessas que foi forçado a fazer foi informar o Gabinete de Segurança sobre todas as pessoas com quem se encontrou e as questões que discutiu.


Condenações


Em Julho, o Reverendo Shi Enhao, vice-presidente da Aliança da Igreja Doméstica Chinesa (AIDC), foi condenado na cidade de Suqian (Jiangsu) a dois anos de reeducação através do trabalho (laogai), que é a forma como os trabalhos forçados são conhecidos. A polícia tinha detido Shi a 31 de Março e manteve-o preso durante doze dias e novamente a 21 de Junho, por suspeita de “usar a superstição para minar o processo da lei”. Ser enviado para um campo laogai é uma forma de detenção administrativa que pode ser imposta sem julgamento ou a assistência de um advogado.

A AIDC é uma das maiores Igrejas Domésticas da China, com muitos milhares de membros. Nos meses que precederam a condenação do reverendo, os serviços de segurança pública tinham ordenado que a Igreja suspendesse os seus encontros. E também apreenderam viaturas, instrumentos musicais e 140.000 yuans (22.000 dólares americanos) em donativos que pertenciam à Igreja. A polícia ameaçou igualmente as três filhas de Shi e os seus maridos.  Por razões desconhecidas, o Reverendo Shi Enhao foi libertado no início de 2012, embora tenha sido condenado a pelo menos mais um ano de prisão.


Muçulmanos

Para os muçulmanos chineses, 2011 foi um ano de ainda maior repressão, sobretudo nas regiões de Xinjiang e Ningxia, onde vivem importantes comunidades muçulmanas.

Durante décadas, os muçulmanos uigures de Xinjiang foram suspeitos de separatismo, de quererem ser independentes da China e de criarem um Turquestão Leste independente. Por causa disto, foram acusados de “terrorismo”. Pequim também alegou que eles estão ligados à rede da al-Qaeda. Na realidade, os uigures querem mais autogoverno económico e politico para Xinjiang, que é cada vez mais colonizada pela etnia chinesa han, que já se tornou na maioria na província.

Dada a situação, a China impôs há algum tempo controlos apertados às mesquitas, às escolas e às famílias, incluindo uma proibição de dar educação religiosa a menores de 18 anos. Além disso, as autoridades chinesas são rápidas a aplicar a pena de morte a qualquer pessoa que possa minar a ordem social.

A repressão deste ano, que piorou, deve-se ao receio de Pequim de que possam emergir na China movimentos inspirados na Primavera Árabe. Por esta razão, tomou “medidas repressivas novas e violentas” em Março de 2011.

Para o líder uigure Rebiya Kadeer, sedeado nos Estados Unidos, “Embora a China tenha mudado a sua tática, não mudou os seus ataques às crenças religiosas do povo uigure, às suas identidades culturais, liberdade de expressão e vida económica, que são fundamentais para o projecto do Governo chinês de fazer uma assimilação rápida do nosso povo na China.”

Na abordagem ao Ramadão, a China decidiu atacar “as actividades religiosas ilegais”, ou seja, actividades que não estão sob o controlo do regime.

O aumento da repressão teve início após alguns protestos uigures terem acabado em tragédia. A 19 de Julho, um grupo de uigures tinha-se manifestado em Hotan contra detenções indiscriminadas e a apreensão forçada da sua terra. De acordo com fontes chinesas, os manifestantes tinham realizado uma “acção terrorista” quando incendiaram a esquadra de Hotan. Dois manifestantes, dois reféns e um polícia morreram no incidente. Por sua vez, o Congresso Uigur Mundial, sedeado na Alemanha, afirmou que a polícia tinha disparado sobre protestantes pacíficos, matando vinte pessoas e ferindo outras setenta.

Ao levantar o espectro do terrorismo, a China conseguiu influenciar os seus vizinhos e obter a sua cooperação na violação dos direitos humanos e da liberdade religiosa. A 9 de Agosto, com a cumplicidade do Governo do Paquistão, cinco uigures que tinham passado a fronteira para o Paquistão foram reenviados para a China. A sua extradição seguiu-se a distúrbios e “acções terroristas” que foram relatados em Kashgar e Hotan.

Algemados e com um capuz na cabeça, os cinco uigures foram trazidos pelas autoridades paquistanezas para o aeroporto internacional Benazir Bhutto em Islamabad e colocados num voo das Linhas Aéreas da China do Sul com destino à China. Uma mulher, Manzokra Mamad, a sua jovem filha e o seu filho adolescente fizeram parte do grupo de cinco dissidentes.

Em 2011, a região de Ningxia, onde vivem muçulmanos hui com reputação de moderados, foi também palco de incidentes. A 30 de Dezembro, mais de 1000 polícias com equipamento anti-motim confrontaram os residentes da aldeia de Taoshan, perto da cidade de Hexi, que estavam a protestar contra a demolição da sua mesquita. Os representantes governamentais locais alegaram que o edifício tinha sido demolido porque era “uma estrutura ilegal”. Durante o confronto, cinquenta pessoas ficaram feridas e outras 100 foram detidas.


Budistas

Para os budistas, sobretudo os budistas tibetanos, 2011 vai ser lembrado como o ano em que o Dalai Lama desistiu do poder político para passar a desempenhar um papel exclusivamente espiritual. O passo espelhou o seu desejo de contrapor as acusações chinesas de que era um “separatista”, um político que queria tornar o Tibete independente do resto da China. Em vez disso, o líder espiritual do Tibete tinha sempre insistido que as suas exigências se limitavam à autonomia cultural e religiosa para o seu povo no Tibete, em Sichuan e Qinghai.

Para a China, a decisão do Dalai Lama se demitir foi simplesmente um “truque” do seu grupo restrito. De facto, as autoridades chinesas continuam a acusar o líder espiritual chinês de conspirar para levar a região do Tibete à independência.

A exigência de liberdade religiosa por parte dos budistas tibetanos é paralela à exigência de proteger a língua e a cultura tibetanas, que estão ameaçadas pela colonização han. Para alguns grupos tibetanos isso não é suficiente e eles exigem a independência do Tibete.

Este ano, as autoridades de Pequim reagiram às exigências tibetanas apertando os seus controlos nas três regiões com populações tibetanas significativas. Como parte dos seus ataques, detiveram monges e leigos, invadiram mosteiros e enviaram um grande número de pessoas para a prisão. E também não se refrearam de executar algumas.

A 16 de Março de 2011, o suicídio pelo fogo (auto-imolação) tornou-se na principal forma de protesto contra a ditadura da China e uma maneira de exigir o regresso do Dalai Lama.

Embora esta forma de acção directa se esteja a espalhar, não impediu a repressão. Pelo contrário, a China está cada vez mais a influenciar os seus vizinhos (a Índia e o Nepal) sobre a maneira de lidarem com os tibetanos. Cada vez mais, os tibetanos nestes países estão a ser privados dos seus direitos religiosos e políticos, à medida que os líderes vêem a sua influência reduzida.


Campanha de repressão no Tibete

Em Fevereiro de 2011, a China decidiu resolver o problema tibetano atacando o Dalai Lama e os seus seguidores. Num encontro sobre o desenvolvimento do Tibete e das regiões tibetanas, Jia Qinling, um poderoso membro do Comité Permanente do Politburo, disse que o Governo comunista da China deve “renovar os seus esforços contra a influência do Dalai Lama” no Tibete. “É necessário”, disse, “melhorar as vidas dos tibetanos e tornar” o Tibete “numa região mais segura”. Acrescentou que a situação deve ser tratada com cuidado, mas que “o grupo restrito do Dalai Lama tem de ser travado antes que cause mais danos”.

Temendo mais manifestações no Ano Novo tibetano, a China declarou no início de Março que o Tibete estava proibido aos turistas e aos jornalistas, que podiam ter sido testemunhas desagradáveis de episódios de repressão.  O Tibete permaneceu proibido aos turistas até ao final de Julho, provavelmente para evitar distúrbios relacionados com o 1 de Julho, o dia em que todo o país celebrou o 90.º aniversário da fundação do Partido Comunista Chinês.


Auto-imolações

A 16 de Março, Phuntsok, um monge de 21 anos do mosteiro de Kirti (condado de Ngaba), morreu após ter-se auto-imolado. Realizou este acto para comemorar os protestos que irromperam a 16 de Março de 2008 (meses antes dos Jogos Olímpicos de Pequim). Na altura, os soldados chineses tinham disparado sobre manifestantes desarmados, matando pelo menos treze perto do mosteiro e mais 200 em todo o Tibete. A polícia e alguns transeuntes tentaram apagar as chamas que engoliram o corpo de Phuntsok, mas acabou por surgir uma disputa entre as pessoas no local e a polícia que queria retirar o corpo.

Usando barras de metal, os polícias bateram nas pessoas, detendo várias. No decurso do seu ataque, a polícia também forçou as lojas a encerrarem. Os monges de Kirti estavam entre as pessoas detidas e levadas para diferentes esquadras de polícia. O abade do mosteiro de Kirti e outros líderes conseguiram que as autoridades libertassem sete monges, alguns dos quais já tinham sido detidos anteriormente.

Desde o dia do sacrifício de Phuntsok, o mosteiro de Kirti (onde vivem mais de 2.500 monges) tem estado cercado pela polícia. Os monges não foram autorizados a deixar o espaço, nem foram autorizados a receber alimentos de fora.  Desde o início de Abril, agentes policiais patrulham o espaço do mosteiro, impedindo os monges mais idosos de realizarem o ritual kora à volta do mosteiro. Também criaram postos de observação e plataformas para guardas.

De acordo com o Centro Tibetano para os Direitos Humanos e a Democracia (TCHRD), mais de trinta e três pessoas foram detidas, vinte e quatro das quais ainda não foram libertadas (oito monges e 16 leigos).

Às 12h30 de 15 de Agosto, Tsewang Norbu, um monge de 29 anos, também conhecido como Norko, imolou-se pelo fogo na ponte Chume (Binghelu em chinês), no centro da cidade de Tawu (Daofu em chinês), na prefeitura autónoma de Kandze (Gandze em chinês), Sichuan. De acordo com testemunhas, Tsewang bebeu gasolina, regou as suas roupas e incendiou-se, gritando “Nós, tibetanos, queremos liberdade”, “Viva o Dalai Lama” e “Deixem o Dalai Lama regressar ao Tibete”.

Às 14 horas de 3 de Outubro, um jovem monge tibetano do mosteiro de Kirti incendiou-se no mercado de legumes da cidade de Ngaba, Sichuan. À medida que ardia, Kalsang segurava a imagem do Dalai Lama e exigia direitos e liberdade religiosa no Tibete. A polícia apagou as chamas, mas o estado do jovem monge de Kirti ainda é desconhecido.

Nos meses anteriores, começando em Março, oito outros monges de Kirti imolaram-se pelo fogo. Com início em Março, a polícia chinesa tomou controlo do mosteiro, isolando-o da zona circundante.

Ao meio dia de 15 de Outubro, Norbu Dramdul, um monge tibetano de 19 anos, incendiou-se em Ngaba (Sichuan), gritando “Liberdade para o Tibete” e “Deixem o Dalai Lama voltar”. A polícia atirou água às chamas. Também espancou gravemente o monge e levou-o num carro, segundo testemunhas oculares. Não se sabe nada sobre o seu estado. Dramdul era um monge do mosteiro de Kirti.

A 18 de Outubro, o Governo tibetano no exílio anunciou que uma religiosa budista de 20 anos de idade, Tenzin Wagmo, se imolou pelo fogo para exigir liberdade para o Tibete e o regresso de Dalai Lama. O seu acto de sacrifício foi confirmado pelo mosteiro de Kirti (para homens) no exílio, do qual provêm muitos outros mártires religiosos. Tenzin foi a nona pessoa a auto-imolar-se desde Março, mas foi a primeira mulher a fazê-lo. Fontes do Governo tibetano no exílio disseram que a religiosa se incendiou perto do seu mosteiro, o convento de religiosas de Mamae Dechen Choekhorling, a cerca de 3 km da cidade de Ngaba (Sichuan).

O comunicado de imprensa do Governo dizia que, envolvida em chamas, a religiosa cambaleou na rua cantando e gritando slogans contra os chineses e a favor de um Tibete livre e do regresso do Dalai Lama. Apesar da proibição da polícia, o seu corpo foi levado para o convento para um velório. A tensão em torno do convento Mamae, o maior na área, com 350 religiosas, manteve-se elevada.

A 26 de Outubro, a Rádio Free Asia, citando fontes locais, relatou que em Sichuan, um monge tibetano se tinha imolado pelo fogo com querosene, em protesto contra a opressão chinesa, gritando “Viva o Dalai Lama!” O seu nome era Dawa Tsering e tinha 31 anos. Auto-imolou-se em frente ao mosteiro de Kardze (Ganzi em chinês) depois de ter gritado para os outros monges que se mantivessem unidos contra o Governo de Pequim. Outros monges que estavam presentes disseram que o ouviram gritar “Viva o Dalai Lama!”

Os monges conseguiram retirar Dawa Tsering das chamas e levá-lo para um hospital de Kardze, seguidos pela polícia. As forças de segurança chegaram ao hospital em grande número e isolaram-no do exterior. Um monge no hospital disse que Dawa Tsering recusou todos os tratamentos, que o seu rosto e o seu corpo tinham sofrido grandes queimaduras, e que estava todo enfaixado. Disse também que pediu ao pessoal do hospital que o deixasse morrer.

A 1 de Dezembro, um antigo monge tibetano foi levado para o hospital depois de se incendiar. O incidente ocorreu em Khamar, uma área em Chamdo (Ghangu em chinês), perto do mosteiro de Karma. O homem de 46 anos, Tenzin Phuntsog, gritou slogans e atirou panfletos para o ar antes de se auto-imolar e o seu gesto foi o primeiro deste tipo na região autónoma do Tibete. Todos os casos anteriores ocorreram em Sichuan.

De acordo com fontes tibetanas exiladas na Índia, que estiveram em contacto com os habitantes locais, “o antigo monge estava profundamente perturbado e frustrado com a imposição de restrições no mosteiro de Karma e o encarceramento de muitos monges. […] Entre as autoridades chinesas”, alguém “falou sobre a possibilidade de encerrar o mosteiro”. Phuntsog ficou muito abalado por causa desta ameaça e falou frequentemente sobre isso em público.


Mortes suspeitas

Chadrel Jampa Trinley Rinpoche, o abade que presidia à comissão encarregada de reconhecer o 11.º Panchen Lama, morreu aparentemente por veneno que lhe foi administrado pelos agentes do regime chinês que o tinham detido desde 1995. Enquanto enviado do Dalai Lama para o Tibete, reconheceu um rapazinho, Gedhun Choekyi Nyima, como o Panchen renascido, o segundo mais alto líder espiritual no Budismo tibetano. Depois desta detenção, foi condenado a seis anos de trabalhos forçados e três anos na prisão. Após a sua libertação, foi colocado em prisão domiciliária.

A 17 de Maio de 1995, Chadrel Jampa Trinley Rinpoche e Jangpa Chung-la foram detidos no aeroporto de Chengdu. Os dois eram respectivamente presidente e secretário da comissão para a busca da reencarnação do Panchen Lama, a segunda mais alta função espiritual no Budismo tibetano. Os dois foram acusados de “ameaçar a segurança do Estado” e “divulgar segredos nacionais”. Foram condenados em 1997 após dois anos de trabalhos forçados. Depois de uma longa doença, Chung-la morreu em Novembro de 2010 por falta de tratamento médico enquanto estava em prisão domiciliária.


Detenções

As autoridades chinesas continuaram a deter inúmeras pessoas. Seguem-se relatos de alguns dos casos mais importantes.

A 5 de Fevereiro, surgiram relatos de que Kalsang Tsultrim, mais conhecido como Gyitsang Takmig, tinha sido detido em Dezembro de 2010. É conhecido pelo seu trabalho de preservação da língua e cultura tibetanas.

A 19 de Maio, Gatsetsang Lobsang Choephel, um jovem monge do mosteiro de Kirti, foi detido porque se recusou a submeter-se a ordens emitidas pela polícia chinesa. Durante mais de um mês, a polícia manteve o mosteiro sob controlo, impedindo as pessoas de entrarem ou saírem. Todos os monges foram sujeitos a “reeducação patriótica”. Qualquer pessoa que se recusasse a colaborar ou a declarar a sua lealdade à “pátria chinesa” era detida e levada.

Antes de Lobsang Choephel, um natural da área de 27 anos, juntamente com dois outros monges, Lobsang Jinpa e Lobsang Dorjee, tinha sido levado e preso durante dez dias sem acusação formal.

Surgiram relatos sobre frequentes detenções de monges, mas dadas as medidas de segurança apertadas, poucas notícias passam para fora.

A 21 de Abril, os militares levaram consigo cerca de 300 monges. Apenas vinte e quatro acabaram por ser autorizados a regressar às suas famílias no condado de Golok Chigdril (Qinghai) algumas semanas mais tarde. Não se sabe nada sobre o destino dos outros.

A 23 de Junho, a polícia chinesa deteve mais sessenta tibetanos em Kardze (Ganzi em chinês), no sudoeste da província de Sichuan. Os monges e os residentes locais “estavam a manifestar-se pela independência do Tibete, o regresso do Dalai Lama ao Tibete, a liberdade religiosa e a libertação dos monges já detidos”. Pequim tinha aumentado a segurança local a 6 de Junho, quando os protestos começaram.

A 12 de Julho, as autoridades comunistas na região autónoma do Tibete detiveram oito monges budistas que se tinham recusado a participar em actividades organizadas para marcar o 90.º aniversário da fundação do Partido Comunista Chinês (PCC). A população local também se tinha recusado a participar nas celebrações.

A polícia e alguns líderes políticos no condado de Nangchen tinham ido ao mosteiro de Surmang para informar os monges que tinham de participar num curso sobre ‘Educação Legal’. O “curso” foi-lhes imposto porque se tinham recusado a participar nas celebrações de 1 de Julho para marcar o aniversário da fundação do PCC.

Imediatamente após o anúncio das celebrações, oito monges – Karma Samten, Jigtak, Sherab, Gaya Tashi, Urgen Samten, Karma Soepa, Karma Monlam e Dosam – tinham-se ido embora, recusando-se a participar. Por essa razão, foram detidos e levados à força para a prisão do condado.

A 20 de Agosto, as autoridades chinesas detiveram um monte tibetano, Jigme Guri (Gyatso), enquanto estava alojado no Hotel Z-hong Yan na cidade de Tsoe (Hezou em chinês), Kanlho, prefeitura autónoma tibetana, província de Gansu.

Fontes locais disseram que a polícia tinha feitos buscas intensas ao seu quarto no mosteiro, apreendendo um computador e diversos CDs. Acima de tudo, levaram cerca de trinta imagens do Dalai Lama (vinte grandes e dez pequenas) que Gyatso estava a guardar nas suas instalações. Outros monges estavam presentes na altura da sua detenção. A polícia não deu qualquer explicação para as suas acções.

Nascido numa família pobre na aldeia de Lhutang, Jigme Guri, de 44 anos, era membro do mosteiro de Labrang. Já tinha estado sob o escrutínio das autoridades chinesas em Março de 2008, quando o detiveram enquanto regressava do mercado local. Mantido numa prisão especial, foi torturado durante meses por suspeita de participar na sublevação de 2008 liderada pelos monges. Tinha duas detenções anteriores.

A 21 de Novembro, outro monge com o nome de Gyatso, de 42 anos, foi levado da sua cela e detido. Nascido na família de Ratsa, tornou-se monge quando ainda era muito jovem. Tinha dado aulas no mosteiro de Kirti (Sichuan) antes de este ter sido encerrado.

No mesmo dia, o Centro Tibetano para os Direitos Humanos e Democracia confirmou a detenção de mais um monge, Lobsang Gendun, de 48 anos, estudante no Kalachakra College em Kirti. A sua detenção ocorreu a meio de Outubro. Em ambos os casos, não foi dada nenhuma razão para as detenções.

Entretanto, a situação em Kirti e Ngaba permanece muito tensa. Pelo menos 200 polícias foram destacados permanentemente para monitorizar todos os movimentos.


Condenações

Em Março, Trulku Jangchub e Pesang, dois monges do mosteiro de Jophu, condado de Jomda, na prefeitura de Chamdo, foram condenados a três anos, e dois anos e meio de prisão respectivamente, por protestarem contra a apropriação de terrenos do mosteiro. No final de 2009, as autoridades chinesas decidiram ocupar terrenos do mosteiro de Jophu para “fins de desenvolvimento”. Os monges protestaram, insistindo que a escritura de propriedade dos terrenos datava de há muito tempo atrás. A sua reivindicação era apoiada por residentes locais.

Em Dezembro de 2009, a polícia deteve Trulku por ter liderado os protestos. Em Janeiro de 2011, Pesang foi preso pela mesma razão. De acordo com o Centro Tibetano para os Direitos Humanos e Democracia, os dois monges foram torturados na prisão. No caso de Pesang, teve de ser levado para o hospital.

Na primeira metade de Julho, pelo menos treze monges budistas foram detidos e enviados para a prisão. Dois deles, Sonam Choegyal e Sonam Nyima, ambos com 19 anos, foram condenados a três anos de prisão pelo seu papel nas manifestações do ano anterior. Não se sabe nada sobre o destino dos outros.

A 2 de Julho, um tribunal no condado de Kardze (Sichuan) condenou três religiosas do convento de Gyemadrak a três anos de prisão por gritarem slogans de apoio à independência do Tibete e ao Dalai Lama. As religiosas, Jampa Choedon, de 31 anos; Sheh Lhamo, de 21 anos; e Yangchen, de 28 anos, foram detidas a 15 de Junho de 2011 quando protestavam no mercado do condado de Kardze, gritando slogans do tipo “Libertem o Tibete”, “Devolvam o Dalai Lama ao Tibete” e “Viva o Dalai Lama”. Foram condenadas apenas uns dias antes de a China celebrar o 60.º aniversário da “libertação pacífica” do Tibete de 11 de Julho de 1951. Na mesma ocasião, Pequim publicou o Livro Branco no qual alegava que tinha trazido a paz e a prosperidade ao país.

A 15 de Julho, dois monges tibetanos foram condenados a três anos de prisão. Ambos eram do mosteiro de Kirti, um alvo importante da repressão chinesa. Os monges, Lobsang Khedup, de 36 anos, e Lobsang Gyatso, de 39 anos, tinham sido detidos em Maio de 2011 no mosteiro de Kirti, condado de Ngaba. A 21 de Abril de 2011, quando a polícia chinesa deteve um grande número de monges do mosteiro de Kirti, os dois monges, em conjunto com muitos dos seus confrades, reuniram no mosteiro, exigindo que a polícia os deixasse em liberdade ou os prendesse a todos.

No final de Julho, Dhonyoe Dorjee, outro monge do mosteiro de Kirti, foi condenado a três anos de prisão. Actualmente está na prisão de Mein-Yang, perto de Chengdu, Sichuan. Não se sabe nada sobre o seu julgamento, sobre o tribunal que o condenou, sobre quando é que ele foi julgado ou quais as acusações que lhe foram feitas. Dhonyoe Dorjee, de 34 anos, foi ordenado quando era muito jovem no mosteiro de Kirti, onde foi detido a 8 de Abril de 2011. Tem estado em isolamento deste então.

A 20 de Agosto, um tribunal de Kandze condenou Samphel Dhondup, um activista tibetano de 23 anos, a três anos de prisão por se ter manifestado no início de Julho, exigindo “Liberdade para o Tibete” e o “regresso do Dalai Lama”. No entanto, duas outras pessoas que tinham protestado com ele foram libertadas imediatamente após a detenção. A condenação de Samphel demonstra que a política de mão de ferro de Pequim para com o Tibete não revela sinais de abrandamento.

O Centro Tibetano para os Direitos Humanos e Democracia soube da sentença apenas a 1 de Setembro. Relatou que, antes das detenções, agentes de segurança pública tinham espancado violentamente três activistas que tinham estado a distribuir panfletos com as frases ‘Liberdade para o Tibete’, ‘Viva Sua Santidade o Dalai Lama’ e ‘Que o Dalai Lama e todos os tibetanos se possam unir em breve’.

A 29 de Agosto, Tsundue Lobsang, um monge tibetano que tentou ajudar o confrade monge Phuntsog a esconder-se foi condenado a onze anos de prisão por “homicídio intencional”, após um julgamento que durou um único dia. Na realidade, Tsundue tinha tentado ajudar Phuntsog, escondendo-o após ele ter-se imolado como forma de protesto e ter sido espancado pela polícia. Tsunde, de 46 anos e do mosteiro de Kirti (Ngaba, em Sichuan) tinha sido professor do seu sobrinho Phuntsog, que se imolou a 16 de Março. Tsunde ficou preso a partir de 12 de Abril. De facto, para muitos residentes tibetanos locais, Phuntsog não morreu por causa do fogo mas devido às feridas causadas pelos espancamentos.

A 30 de Agosto, após um julgamento de apenas umas horas, Tsering Tamding e Tenzini, dois monges do mosteiro de Kirti, foram condenados a treze e dez anos de prisão respectivamente por “conspirarem, instigarem e apoiarem” Phuntsog no seu protesto suicida de 16 de Março. Tinham estado detidos desde Maio.

Perto de 10 de Setembro, o Gabinete de Segurança Pública chinês da prefeitura de Ngaba condenou três outros monges do mosteiro de Kirti a três anos de reeducação em campos de trabalho. São eles Lobsang Dhargye, de 22 anos; Tsekho, de 30 anos; e Dorjee, de 16 anos. Alegadamente, ajudaram Phuntsog na sua auto-imolação a 16 de Março. Lobsang Dhargye é irmão de Phuntsog. Os três foram detidos a 12 de Abril.

No final de Dezembro, desafiando a repressão e ultrapassando o medo das consequências dos seus actos, cerca de 6.000 a 7.000 budistas saíram do Tibete pela Índia para participarem no Bhodigaya, uma grande celebração religiosa liderada pelo Dalai Lama. Embora as autoridades chinesas lhes tenham emitido vistos de viagem, centenas de peregrinos foram detidos no seu regresso e enviados para campos de reeducação através do trabalho.


Cerimónias canceladas

Em Maio, o Governo chinês interrompeu primeiro e proibiu totalmente depois o Nyung Ne (o ritual de jejum que os budistas praticam no mês de Saka Dawa) entre os monges e os fiéis no mosteiro de Drepung, um dos “três grandes” locais de culto do Tibete. O Saka Dawa é o momento mais importante para os seguidores do Budismo tibetano, porque celebra o nascimento, a iluminação e a morte de Buda. Durante o mês, monges, religiosas e crentes jejuam durante quinze dias em conjunto enquanto lêem textos sagrados e discutem religião.

Interrompido uma vez mais durante os distúrbios populares de 2008, o Nyung Ne foi novamente celebrado nos últimos anos, apesar de o ser de forma mais subjugada. Este ano, o mosteiro pediu repetidamente ao Governo regional autorização para realizar a sua celebração anual, em parte também para ajudar a região a regressar à sua vida normal. Como não receberam nenhuma resposta, grande parte dos fiéis vieram ao mosteiro a 30 de Maio, quando os monges preparavam as primeiras celebrações. De repente, a polícia local entrou por ali adentro e interrompeu tudo. Começaram a verificar a identidade de cada um e depois a enviá-los para casa, ainda que a maior parte fossem idosos e tivessem feito uma longa viagem para celebrar o Nyung Ne. Os monges protestaram encerrando as portas do mosteiro. Da sua parte, as autoridades destacaram cerca de sessenta agentes com equipamento anti-motim.


Encerramento de mosteiros

A 14 de Agosto, a polícia evacuou o convento de religiosas de Drepung, nos arredores de Lhasa. De acordo com fontes locais, a comunidade tinha assistido a um fluxo constante de novas vocações e isto tinha alarmado as autoridades, que encerraram o convento e enviaram todas as religiosas de volta aos distritos respectivos.

Da mesma forma, o destino de oitenta e cinco monges do antigo mosteiro de Tashi Lhunpu permanece desconhecido, após a sua detenção em Maio. No seguimento do encerramento do seu mosteiro em 1995, tinham conseguido manter uma forma comunitária de vida ajudando-se uns aos outros a encontrar trabalho como empregados de mesa, comerciantes e condutores, e dando apoio aos seus irmãos mais velhos. Apesar de pedidos insistentes das suas famílias, as autoridades não disseram onde é que eles estão detidos e porquê.


Campanhas contra o Dalai Lama e o Karmapa Lama

A 10 de Março, o Dalai Lama prescindiu da sua autoridade temporal no âmbito do Governo tibetano no exílio, pedindo eleições democráticas para escolher o Parlamento e o Governo. Indo um pouco mais longe, sugeriu que qualquer futuro Dalai Lama, embora mantivesse o seu papel como líder espiritual, não deveria ser seleccionado através do reconhecimento da reencarnação, mas sim através de um processo segundo o qual as pessoas escolhessem o líder religioso entre os monges mais dedicados à sua missão. O Governo chinês descreveu a proposta como “um truque por parte do grupo próximo do Dalai Lama”, a quem acusou de querer “destruir a região do Tibete”.

No final de Janeiro, as autoridades indianas entraram no mosteiro de Gyuto, a residência oficial do Karmapa Lama, na cidade de Dharamsala, e também sede do Governo tibetano no exílio e residência do Dalai Lama. Dentro do mosteiro, a polícia apreendeu dinheiro indiano e estrangeiro calculado em cerca de 765.000 dólares americanos. O dinheiro estava escondido em seis malas encontradas no quarto do Shakti Lama, braço direito do 17.º Karmapa Lama (também conhecido como o ‘lama do chapéu preto’), que é visto por muitos como um possível candidato a liderar os tibetanos após a morte do actual Dalai Lama. A operação policial levou a especulações sobre o possível envolvimento do Karmapa. Algumas pessoas até o acusaram de trabalhar e espiar para a China.

O Karmapa Lama fugiu do Tibete para a Índia em 1999, após uma fuga corajosa a pé através dos Himalaias, até que chegou a Dharamsala, onde recebeu educação religiosa digna de alguém com o seu estatuto. Uma vez que o actual Panchen Lama, o escolhido por Pequim em 1995, não é grandemente apreciado entre os tibetanos, o Karmapa Lama poderá ser encarregado de reconhecer o novo Dalai Lama após a morte do que actualmente ocupa o posto.

Alguns analistas sugeriram que o escândalo envolvendo o Karmapa Lama estava relacionado com tentativas de reavivar conversações políticas e laços comerciais entre a Índia e a China.


Hong Kong


Embora faça parte da China desde 1997, Hong Kong é uma região administrativa especial, com um certo grau de autonomia em relação ao continente. No entanto, desde o seu regresso à China, viu a influência de Pequim aumentar pouco a pouco, à custa da liberdade dos seus habitantes, incluindo no campo da religião.


Educação nacional

O Governo de Hong Kong tem tentado controlar a educação no território. Foi feita uma proposta em 2011 (por sugestão de Pequim), em que todas as escolas da primária em diante ofereceriam “educação nacional” obrigatória, glorificando a cultura chinesa, e exaltando os grandes sucessos da China e o aumento do patriotismo do povo. Contudo, quando perguntaram como é que deveriam apresentar os acontecimentos em torno do massacre de Tiananmen (4 de Junho de 1989), as autoridades disseram: “ainda é muito cedo para falar sobre isso”.

Por causa destas ambiguidades, os grupos católicos e escolas privadas resistiram à proposta do Governo. Na opinião do Cardeal Joseph Zen Ze-kiun, Bispo Emérito de Hong Kong, “Os professores e alunos devem opor-se a este plano, que é demasiado vago e tende a incentivar um nacionalismo extremo. […] O que é a educação nacional? O que é que se vai ensinar? Será que isto significa o apoio incondicional ao Partido Comunista?” Para muitos, incluindo membros do Governo de Hong Kong, estes cursos de educação nacional arriscam-se a ser uma forma de “lavagem cerebral dos mais novos”.


Novas entidades para controlar as escolas


A Diocese de Hong Kong perdeu a sua batalha pela liberdade educativa contra o Decreto sobre a Educação de 2004, que requer que as escolas financiadas pelo Governo criem comités de gestão integrados que supervisionem os programas administrativos e educativos. A lei dá diversos benefícios às escolas que implementem o decreto, por exemplo seguros para o pessoal escolar, maior flexibilidade para gerir os fundos escolares e um bónus financeiro anual de 350.000 dólares de Hong Kong (45.000 dólares americanos), mas isso também implica criar um Comité de Gestão Escolar interno separado das entidades financiadoras, ou seja, as próprias escolas.

O Governo insiste que esta medida vai permitir maior transparência e democracia, uma alegação que os administradores escolares, tanto católicos como protestantes, rejeitam, considerando uma interferência nos assuntos internos das suas instituições e uma forma de minar a liberdade educativa. Esses comités incluiriam não só pais e alunos, mas também pessoas de fora do sistema escolar escolhidas pelo Governo que poderiam mudar a orientação educativa destas escolas independentes.

A 14 de Outubro, o Supremo Tribunal de Hong Kong rejeitou o recurso apresentado pela diocese contra a necessidade de introduzir um comité organizador na gestão da escola. Os líderes das comunidades anglicana e metodista manifestaram-se igualmente contra a decisão do Supremo Tribunal. Também eles estão preocupados com a interferência do Governo (e da China) na educação cristã.


Campanha contra o Cardeal Zen

O Cardeal Joseph Zen foi alvo de uma campanha dos meios de comunicação concebida para minar o seu estatuto como defensor dos direitos humanos e da liberdade religiosa em Hong Kong e na China. Após a decisão do Supremo Tribunal sobre as escolas, o Cardeal Zen entrou em greve de fome durante três dias. “Quero destacar a decisão errada do Supremo Tribunal”, disse. É “uma grande injustiça para a Igreja e para o território de Hong Kong e […] ameaça destruir o sistema educativo da área, considerado como um dos melhores na região, com grande qualidade e eficácia”.

Precisamente no início do seu jejum, alguns blogues começaram a colocar informação alegando revelar a quantidade de donativos que o Cardeal Zen tinha recebido nos últimos anos, cerca de 3.000.000 dólares de Hong Kong por ano (aproximadamente 385.000 dólares americanos). Os donativos eram alegadamente feitos por um magnata, Jimmy Lai, convertido ao Catolicismo e apoiante da democracia em Hong Kong e na China. Embora a informação não acuse ninguém directamente, procura espalhar a suspeita de que o Cardeal Zen poderá ter posto o dinheiro ao bolso para uso pessoal ou para apoiar o movimento anti-regime e pró-democracia.

Numa conferência de imprensa, o prelado disse que os fundos doados tinham sido usados para bolsas que beneficiaram estudantes católicos chineses, para ajudar bispos oficiais e na clandestinidade no continente, para apoiar dioceses afectadas por desastres naturais (tsunamis, terramotos ou cheias) e para traduzir diversos documentos da Igreja e escritos teológicos para chinês. “Se eu tivesse usado o dinheiro para mim”, disse em tom de brincadeira, “teria comprado um carro de luxo com motorista. Em vez disso, uso o meu carro velho e conduzo eu próprio.” O Cardeal mostrou claramente que os fundos doados foram usados “no seu papel como bispo e cristão e não estiveram relacionados com qualquer objectivo político”.
 



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