O verdadeiro jejum não implica apenas que sujeitemos o corpo a privações para celebrar a Páscoa de coração puro, mas também que dêmos pão aos famintos. Pois o jejum vive da partilha, precisamente com aqueles que têm que “jejuar” diariamente por causa da ganância do mundo.
Cerca de 200 milhões de pessoas passam fome (17% da população total), 600 milhões (50%) vivem abaixo do limiar da pobreza – é esta a realidade assustadora de África. Ao mesmo tempo, este continente, apesar dos seus desertos imensos, é abençoado com terra de cultivo fértil e com um clima que permite colheitas ao longo do ano inteiro. Além disso, possui imensos recursos naturais e abundantes riquezas religiosas e culturais. Com tudo isto, África poderia ser um verdadeiro paraíso na terra. Os africanos têm alegria de viver. Mas os povos de África são fustigados por epidemias, má gestão e corrupção, e as chamadas “civilizações progressistas” impõem aos africanos uma “cultura de morte” com os chamados “programas de saúde” que contêm o veneno do aborto e da ideologia de género. África é um continente jovem, tendo metade da população menos de 30 anos. As suas gentes não precisam de uma “nova ética”, mas sim do nosso serviço fraterno, que promove o desenvolvimento do homem como um todo. Tal como outrora África deu refúgio à Sagrada Família que fugia do infanticida Herodes e assim contribuiu para aplanar o caminho para uma civilização cristã, devíamos nós agora ajudar África a escapar da tirania do colonialismo moderno e da escravatura.
São os recursos naturais de África que, ontem como hoje, são explorados sem escrúpulos, fazendo os meios de comunicação social pouco eco disso. Quem é que se interessa, afinal, pelos milhões de mortos dessas guerras cruéis designadas como simples conflitos étnicos? Quem fala da ganância dos negociantes de armas? Só na República Democrática do Congo foram mortas até hoje mais de 6 milhões de pessoas! Quem fala dos milhões de deslocados que fogem há anos de guerras pelos recursos naturais e do terror islamista? África é como uma vítima meia-morta abandonada à beira da estrada por salteadores. Não precisa só do nosso óleo nas feridas, mas também da voz de Cristo que fala da dignidade dos filhos de Deus. A vocação de África é tornar-se, como disse o Papa Bento XVI, o “pulmão espiritual” de uma humanidade que está a perder a esperança e já não acredita na fecundidade do amor e na alegria da vida.
Queridos amigos, podemos fazer alguma coisa. Os projectos da nossa campanha quaresmal mostram que África é rica em recursos espirituais. Que o nosso jejum e os nossos sacrifícios contribuam para potenciar esses tesouros e matar a fome de justiça.
Uma Santa Quaresma e uma Feliz Páscoa é o que vos deseja