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BURKINA FASO: Agrava-se crise humanitária com cidades isoladas por causa da ameaça terrorista e não do Covid19

11 maio 2020
BURKINA FASO: Agrava-se crise humanitária com cidades isoladas por causa da ameaça terrorista e não do Covid19
É uma situação que se está a agravar de dia para dia. No Burkina Faso, por causa da ameaça terrorista, são cada vez mais as populações que estão em fuga ou isoladas em cidades ou vilas, sem mantimentos, combustível e energia.

Fontes da Fundação AIS em algumas dioceses descrevem um retrato dramático que está a fazer crescer também um sentimento de orfandade nas populações. A ameaça terrorista é tão forte em algumas regiões no norte e leste do Burkina Faso, que colocou quase em segundo plano o risco da pandemia do coronavírus.

Por uma questão de segurança, a Fundação AIS preserva a identidade dos entrevistados que falam da ameaça do Covid19 como “uma desgraça dentro de uma desgraça”. A situação, que já era terrível, “piorou em alguns lugares” e afecta já quase um milhão de pessoas. São deslocados que esperam e desesperam por uma resposta por parte das autoridades nacionais e internacionais.

Em algumas áreas do Burkina Faso, como por exemplo em Bourzanga, na região norte central, ou em Djibo, na região do Sahel, os ataques são praticamente quotidianos. Como relataram alguns habitantes à Fundação AIS, há regiões que “estão isoladas”. “Estão isoladas não devido ao confinamento por causa da pandemia, mas por causa da total insegurança. As poucas aldeias que ainda estão povoadas abrigam milhares de pessoas deslocadas internamente, mas estão cada vez mais isoladas do resto do país.”

Cidades isoladas, cercadas pelo medo e violência. Esta é a realidade em partes consideráveis do território do Burkina Faso. A cidade de Djibo, é um exemplo. Bloqueada pelos terroristas desde meados de Janeiro, assemelha-se a uma ilha com pessoas apavoradas. “Não há transporte, não há suprimentos, não há acesso de entrada ou saída, há escassez de água, combustível, comida, cortes de energia etc..”

Nesta cidade, capital de província, segundo o Conselho Nacional de Ajuda e Reabilitação de Emergência (CONASUR), vivem quase 150 mil pessoas deslocadas internamente. Arbinda é outra cidade bloqueada pelos terroristas. Abriga cerca de 60 mil pessoas. Apesar de isoladas, apesar da escassez de água ou comida, estas duas cidades são quase os últimos enclaves de alguma liberdade. Fora das suas casas, das suas ruas, é território terrorista.

Um sacerdote oriundo da diocese de Kaya, na região Centro-Norte, traça um relato em tudo semelhante: “As aldeias estão quase desertas, perderam o ritmo da vida, embora ainda haja sinais de esperança. Na minha paróquia, onde muitas pessoas buscaram refúgio, existem problemas relacionados com as necessidades básicas. O problema crucial continua a ser a água. É muito difícil obter esse precioso líquido, que força as mulheres, com todos os riscos que isso implica, a retornar às cidades vizinhas abandonadas por causa das ameaças terroristas, a tentar obtê-lo e transportá-lo em triciclos.”

Também em Kaya existem comunidades importantes, como Namisgma e Dablo, que estão isoladas das cidades que até agora as abasteciam, ou a cidade de Pensa, onde, após repetidos ataques, os terroristas se estabeleceram, isolando-a do resto do território.

Ainda em Fevereiro, o secretário-geral da Conferência Episcopal do Burkina e Níger, alertava, através da Fundação AIS, para a situação trágica que se está a viver neste país africano, afirmando a necessidade de haver uma “resistência popular contra o terrorismo”.

O Padre Pierre Claver Belemsigri, que esteve com uma equipa da Ajuda à Igreja que Sofre que visitou o Burkina Faso no início do ano para avaliar a situação dos cristãos no norte do país e reiterar junto destas comunidades a solidariedade da Igreja universal , disse que “existem terroristas – sejam do Burkina ou do exterior – que, com armas na mão, pretendem realmente forçar todo o continente africano a tornar-se islâmico”.

“Querem introduzir a lei da ‘sharia’ no Burkina Faso. Mas existem também outros que estão a usar o Islão como pretexto para promover os seus interesses financeiros ou criminosos.”

Perante esta ameaça de violência, as populações não escondem já um sentimento de orfandade. As autoridades revelam insuficiência de meios para se oporem aos grupos terroristas e de malfeitores e isso vem ampliar esta tragédia que tem passado praticamente despercebida aos olhos do mundo.

“Das 75 aldeias da minha paróquia, apenas 10 ainda são habitadas. Todas as pessoas foram embora. Como as aldeias foram abandonadas, grande parte do território está nas mãos de terroristas, escapando ao controlo do Estado”, denuncia, à Fundação AIS um sacerdote da diocese de Kaya que também teve de fugir, juntamente com a comunidade cristã, devido às ameaças contra a sua paróquia.

O facto de haver na região alguma presença de tropas estrangeiras, nomeadamente francesas, não é suficiente para transmitir o sentimento de segurança necessário para que as populações permaneçam nas suas aldeias, nas suas casas.

As populações enfrentam não só a ameaça terrorista como, também, a pandemia do coronavírus. São duas realidades que exigem uma luta obstinada. “É muito difícil saber o que é pior”, sintetiza um sacerdote à AIS, na região de Fada N'Gourma, referindo-se ao Covid19 e aos terroristas. “De qualquer forma, as consequências são as mesmas, porque ambos criam situações de morte.”

Calcula-se que quase 1 milhão de pessoas estão deslocadas internamente por causa da ameaça terrorista. Desde 2019, mais de mil pessoas – cristãos, seguidores da religião tradicional e muçulmanos – foram mortos. Treze padres, sete congregações religiosas e 193 coordenadores pastorais tiveram que abandonar os locais onde se encontravam em missão por questões de segurança.

Perante esta realidade, durante a visita ao país, em Fevereiro, a Fundação AIS perguntou ao Padre Pierre Belemsigri, o que desejava para o seu país. A sua resposta é um grito pela mobilização de toda a nação contra a violência e o medo. “É o Senhor quem tudo controla. Cristo está vivo. O nosso país testemunhou isso em muitas ocasiões na sua história recente. Espero que aconteça o mesmo agora, diante deste terrorismo. É preciso haver um despertar nacional e uma resistência popular. As armas por si só não são suficientes. Lamentavelmente, o resto do mundo não parece ter entendido que o nosso país corre o risco de desaparecer se não nos unirmos todos contra os terroristas, em oração, unidade e solidariedade. Estes são os desafios que temos de enfrentar para acabar com o terrorismo.”

PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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