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MOÇAMBIQUE: “Ameaça contra Igreja é real” em Cabo Delgado, diz Nuno Rogeiro, autor de investigação sobre o Daesh

2 junho 2020
MOÇAMBIQUE: “Ameaça contra Igreja é real” em Cabo Delgado, diz Nuno Rogeiro, autor de investigação sobre o Daesh
“É uma situação perfeitamente catastrófica”, diz Nuno Rogeiro, 59 anos, comentador político e investigador sobre a situação em Cabo Delgado, a província norte de Moçambique que enfrenta uma onda de violência por parte de grupos jihadistas desde 2017.

Rogeiro, que publica hoje, dia 2 de Junho, um livro – “O Cabo do Medo”, edição Dom Quixote – sobre a chamada “insurgência” nesta região, afirma, em entrevista à Fundação AIS, que existe “uma ameaça real” contra a Igreja Católica mas também “em relação ao chamado Islão tradicional”.

A zona de Cabo Delgado tem vindo a sofrer constantes ataques por parte de grupos armados. Ainda na semana passada, algumas localidades chegaram a estar ocupadas tendo obrigado a uma intervenção em larga escala das forças de segurança, como a Fundação AIS noticiou.

Desde o início da chamada “insurgência” já se contabilizaram centenas de mortos. A destruição de aldeias e a ameaça permanente sobre as populações locais provocou a fuga a mais de 200 mil pessoas, segundo estimativa de D. Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Pemba.

Não são só as populações civis que estão a ser afectadas pelos ataques terroristas. Ultimamente, a própria Igreja Católica tem estado na mira destes grupos jihadistas que reivindicam pertencer ao Daesh, o auto-proclamado Estado Islâmico.

Ao longo dos últimos dois anos, Nuno Rogeiro tem vindo a analisar o que classifica como “uma agressão bárbara” contra as populações nesta região norte de Moçambique, investigação que deu origem ao livro “O Cabo do Medo”, agora publicado.

A tentativa de ocupação, na semana passada, de Mocímboa da Praia e mais algumas localidades, como Mucjo, Litamanda, Chai ou Macomia, por exemplo, revela como estes grupos estão muito activos e conseguem mobilizar já significativos meios humanos e materiais.

Ao contrário do que tinha acontecido até agora, em que os grupos armados atacavam aldeias e vilas quase sem oposição, na semana passada o exército moçambicano enfrentou os “insurgentes”, obrigando-os a retirar, após duras batalhas, nomeadamente em Macomia, e infligindo um número considerável de baixas, incluindo chefes militares.

A Igreja tem sido um dos alvos destes grupos jihadistas que Rogeiro identifica como pertencentes à Província da África Central do Estado Islâmico, e cujo comando está situado no Congo. O ataque à missão dos Monges Beneditinos na aldeia de Auasse, em Cabo Delgado, no dia 12 de Maio, é disso exemplo. Um grupo de homens fortemente armados assaltou e destruiu as instalações da Missão levando então à fuga dos religiosos para o mato onde ficaram escondidos até terem conseguido abandonar a região rumo à Tanzânia, onde se encontra um convento da congregação.

Este terá sido um dos ataques mais significativos contra uma estrutura da Igreja católica depois dos graves incidentes na Igreja de Nangololo durante a Semana Santa, como a Fundação AIS então reportou.

Rogeiro diz que a “ameaça” contra a Igreja “é real”, recordando que “o Daesh luta pelo extermínio daquilo a que chamam ‘os cruzados’ em Moçambique”. “Não podemos ignorar isso” pois é uma constante “não só das proclamações, dos comunicados e dos incitamentos [dos terroristas]”, acrescenta.

No entanto, apesar disso, o autor de “O Cabo do Medo” afirma que tem sido notável o trabalho desenvolvido pela Igreja Católica, nomeadamente pelo Bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa, junto das populações locais.

“A Igreja Católica em Cabo Delgado tem sido um exemplo de palavra pelo desenvolvimento e pela justiça social. Se tem havido alguém que tem dado o exemplo de ir à rua, de ir ao terreno, de ir às vilas, às aldeias, de pregar o desenvolvimento, de ajudar, tem sido o bispo de Pemba”, diz Nuno Rogeiro, acrescentando que entre os militantes jihadistas haverá gente local que conhece bem o trabalho que está a ser realizado pela Igreja.

“Nós temos de distinguir entre o Daesh como organização, que tem sede fora de Moçambique, no Congo, e aquilo que eu diria serem alguns militantes do Daesh dentro de Cabo Delgado. Os militantes locais do Daesh são pessoas que vêm de Quisanga, de Mocímboa da Praia, de Nangade, já perto da fronteira com a Tanzânia… são pessoas que percebem a acção pastoral da Igreja e a sua acção no desenvolvimento social, e são pessoas que, apesar do seu radicalismo, não têm atacado as missões como ponto principal nem propagam o ódio à Igreja Católica.”

No entanto, sublinha Nuno Rogeiro, “não nos iludamos sobre isso e não façamos, digamos assim, o jogo das pessoas que têm uma visão cor-de-rosa do que se está a passar”.

O objectivo último dos jihadistas é, acrescenta o investigador, “construir aquilo a que chamam a Província da África Central do Estado Islâmico”, onde pretendem substituir todas as regras administrativas políticas, civis e criminais de Cabo Delgado por um código feito por eles, a que chama ‘sharia’ mas que é uma interpretação obviamente abusiva daquilo que é o direito islâmico. É isso que eles querem e não nos iludamos. Está escrito…”

PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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