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CAMARÕES: “Que Deus tenha piedade de nós”, diz Bispo perante a Igreja, queimada e em escombros

30 setembro 2022
CAMARÕES: “Que Deus tenha piedade de nós”, diz Bispo perante a Igreja, queimada e em escombros

O vídeo tem menos de dois minutos. Vê-se o Bispo, D. Aloysius Fondong Abangalo, e por vezes um outro sacerdote. Durante quase todo o tempo, o telemóvel que está a captar as imagens segue apenas o bispo. Não há palavras. Não são precisas palavras. Mal se percebe, no vídeo, que aquele edifício que está em ruínas foi uma igreja. O templo sucumbiu ao calor das chamas, as madeiras calcinaram, as paredes estão escurecidas. Aqui e ali ainda se nota algum fumo. A Igreja de Santa Maria, na aldeia de Nchang, na Diocese de Mamfe, é hoje um escombro depois do ataque, violento, por homens armados, na sexta-feira, dia 16 de Setembro.

No dia seguinte, o Bispo foi lá. O vídeo, enviado para a Fundação AIS, mostra-o a caminhar com cautela, entre as ruínas. Às vezes, tem de se desviar, pois o caminho é difícil, mas ele prossegue até se quedar junto ao Sacrário. A Igreja foi destruída, mas o Sacrário sobreviveu praticamente intacto. D. Aloysius pega numa chave e abre-o. Com cautela, retira a âmbula, o cálice que guarda as hóstias consagradas, o verdadeiro tesouro da Igreja. O incêndio criminoso queimou tudo mas não tocou no essencial.

“Fui buscar o Santíssimo Sacramento, para o manter seguro e o levar para a casa do bispo”, diz. O incêndio na Igreja de Santa Maria, em Nchang, foi apenas um dos sobressaltos por que passou o Bispo. Ao mesmo tempo em que as chamas foram ateadas, homens armados – julga-se que ligados ao movimento que luta pela independência da região anglófona dos Camarões – raptaram nove pessoas da paróquia. Cinco padres, uma religiosa e três leigos, um dos quais catequista. A violência faz parte já do dia-a-dia deste país africano.

É difícil perceber o que é mais grave, se o rapto de pessoas ou a destruição do edifício da Igreja. Os padres, a irmã e os leigos dedicaram as suas vidas ao serviço dos outros, sempre com generosidade, sempre de forma gratuita, sempre com amor. Como compreender, então, algo tão brutal? “O que aconteceu aqui é uma abominação. Penso que não se contentaram em tentar a paciência dos homens, e agora estão a tentar a paciência de Deus. É uma coisa terrível lutar com o Senhor. Que Deus tenha piedade de nós por esta abominação”, disse o Bispo em declarações à Fundação AIS. “Devemos todos ajoelhar-nos e pedir perdão pelos pecados que foram cometidos”, acrescentou.

Um país em crise

Camarões é um país africano mergulhado num conflito ainda obscuro, conhecido como “a crise anglófona”. Uma crise que nasceu da vontade separatista das regiões onde predomina a língua inglesa, situadas especialmente a nordeste e sudoeste. Um conflito que ganhou relevo desde 2016 e já causou milhares de mortos e cerca de meio milhão de deslocados. E muita destruição. Nada nem ninguém parece escapar.

É o caso das crianças e dos jovens. Eles, em particular, tornaram-se vítimas desta violência e muitos estão profundamente traumatizados. A maioria das escolas da região anglófona estão fechadas há vários anos e as crianças são deixadas muitas vezes à sua própria sorte e vários adolescentes juntaram-se mesmo aos grupos armados, aos movimentos rebeldes. A longo prazo, a falha na educação escolar irá resultará em mais pessoas mergulhadas na pobreza e na miséria.´

Ajuda com o apoio da AIS

Perante este cenário, a Igreja lançou um projecto que procura dar algumas respostas aos anseios da juventude local. A Diocese de Mamfé, situada precisamente na região anglófona, introduziu um programa de educação para a paz como parte da sua preocupação com os mais jovens. O objectivo desta iniciativa, que está a ser apoiada directamente pela Fundação AIS, é promover uma cultura de não-violência.

“Nunca devemos esquecer que num ambiente marcado pela violência e pelo conflito, qualquer forma de evangelização eficaz é impossível”, explicou, em Julho, à Ajuda à Igreja que Sofre, o padre Roland Arrey, pároco e líder da equipa de apoio à juventude. “As diferenças de opinião podem muito bem ser inevitáveis, mas a violência não é inevitável. Se queremos evitar uma espiral de violência incessante, temos de nos esforçar para promover a paz e a tolerância e não incitar ao ódio e à desconfiança”, acrescentou.

O ataque de sexta-feira, dia 16 de Setembro, à Igreja de Santa Maria, em Nchang, trouxe para a primeira página dos jornais este conflito meio esquecido em África. Noutras ocasiões, padres e catequistas já conheceram a violência nos Camarões. Na memória de todos, apesar de terem passado já mais de quatro anos, está o assassinato do padre Nougi Alexander, na paróquia de Bomaka, em Muyuka. Aliás, esse ano de 2018 revelar-se-ia brutal. Em Outubro, Gerard Anjiangwe, um seminarista da Arquidiocese de Bamenda, seria assassinado por militares quando estava em frente à igreja paroquial de Bamessing. Estava ajoelhado no chão, perto da Igreja, quando soldados dispararam contra ele. Três vezes. Estava a rezar. Tinha apenas 19 anos de idade.



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