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Notícias

MOÇAMBIQUE: “A ajuda não pode parar”, alerta Bispo de Pemba sobre a crise humanitária que se vive em Cabo Delgado

16 dezembro 2020
MOÇAMBIQUE: “A ajuda não pode parar”, alerta Bispo de Pemba sobre a crise humanitária que se vive em Cabo Delgado
“As pessoas estão a passar fome” em Cabo Delgado. Numa conversa “on-line” para mais de duas centenas de pessoas, iniciativa de várias organizações católicas portuguesas, D. Luiz Fernando Lisboa apelou ontem à noite à ajuda humanitária para as populações atingidas pela violência terrorista no norte de Moçambique e lembrou que esta “guerra” já causou “mais de dois mil mortos” e um número cada vez maior de deslocados. “O governo já fala em mais de 600 mil…”

É para estas pessoas que fugiram dos ataques que D. Luiz pede ajuda. A situação é extremamente grave do ponto de vista humanitário. “Só a cidade de Pemba já acolhe 150 mil, e Nampula mais de 40 mil…”deslocados. Nos acampamentos onde muitas dessas pessoas estão agora a viver, tudo é muito precário. Não há barracas para todos, não há tendas, não há esteiras… “E agora começou a época das chuvas.” Há acampamentos com seis, sete mil pessoas…, diz D. Luiz. E sublinha este ponto por mais de uma vez: “O tempo de chuva vai dificultar tudo. E isso preocupa-nos muito…”

O Bispo de Pemba fez um retrato de uma região potencialmente muito rica mas onde vive uma população muito pobre e que tem estado atormentada pelo terrorismo. No entanto, apesar de toda a violência, as gentes de Cabo Delgado têm mostrado também uma capacidade de acolhimento notável. Cerca de 80 por cento dos deslocados têm vindo a ser acolhidos pelas famílias. “Dão testemunho de misericórdia. Todos somos irmãos.”

O apoio psicossocial às populações que tiveram de fugir e que viveram situações muito duras, dramáticas mesmo, é uma das principais preocupações do Bispo. “A diocese tem duas irmãs psicólogas que começaram a preparar dezenas de pessoas para o atendimento psicossocial. A ideia é deixar que as pessoas falem, contam as suas histórias, como saíram [das aldeias], se alguém foi morto… É preciso deixar a dor doer.” D. Luiz Lisboa lembra que há histórias absolutamente trágicas. “Muita gente está desesperançada pois perderam filhos, há crianças sem pais, pais cujas filhas foram raptadas…”

Origem da violência

Esta conversa com o Bispo de Pemba teve como propósito principal alertar a sociedade portuguesa para uma crise humanitária profunda que é resultado de ataques armados que têm vindo a ser revindicados pelo Daesh, o grupo jihadista que se autointitula de Estado Islâmico. Mocímboa da Praia; Quissanga; Macomia; Muidumbe e Nangade são os distritos onde houve mais violência. “Nestes dias”, revelou ontem D. Luiz, “houve ataques em Nangade” que causaram pelo menos “14 mortos”.

O conflito tem crescido de intensidade desde o início do ano. Os terroristas “começaram a atacar em simultâneo quatro, cinco aldeias”… Mas depois “foram aprimorando os ataques” e exibindo até melhor equipamento do que o das forças de segurança. “Há vários relatos de que os insurgentes têm mais meios”, disse D. Luiz, comentando que as autoridades começaram por ter “uma atitude de negação” face à existência de um problema desta magnitude em Cabo Delgado. “Agora é impossível esconder”.

Ultimamente tem sido referido o interesse do governo moçambicano em reforçar o combate aos terroristas recorrendo a grupos privados, nomeadamente sul-africanos. O bispo tem dúvidas. “Grupos privados a combater? Não sei se será a solução…” Já quanto à motivação dos grupos terroristas, D. Luiz tem menos dúvidas. Na Província de Cabo Delgado, que tem o tamanho de Portugal – e que constitui apenas uma diocese… –, o solo esconde madeiras, gás (a maior reserva de África), rubis, ouro, grafite e mármore. “A motivação [para os ataques] pode ser económica por causa dos recursos naturais…” O prelado admite, apesar disso, que o fundamentalismo religioso possa estar na origem de toda esta violência, embora diga que não há razões para um conflito com essas características em Cabo Delgado. Pelo contrário. “Nós temos um bom relacionamento entre religiões …”

Na verdade, ambas as comunidades, cristã e muçulmana, têm sido alvo de ataques. “Foram já mortos catequistas e animadores de comunidade, mas não foram escolhidos [por causa disso]. Mataram [apenas] pessoas. Também mataram um chefe muçulmano em Mocímboa da Praia. Atacaram muitas igrejas mas também muitas mesquitas.” D. Luiz Lisboa lembrou o que aconteceu com as igrejas de Mocímboa da Praia e a de Nangololo. “Ficou tudo queimado.”

Onda de solidariedade

Neste encontro virtual, o Bispo de Pemba sublinhou a importância da solidariedade para com o martirizado povo moçambicano. E deu o exemplo da própria mobilização da Igreja. Recentemente houve uma vista de bispos de África do Sul, mas o exemplo mais significativo da onda de solidariedade vem do Brasil. A Conferência Episcopal brasileira convocou toda a Igreja “para uma campanha solidária em favor de Cabo Delgado”. A ajuda do Papa, que recentemente ofereceu um donativo de 100 mil euros, também foi muito importante “para internacionalizar a nossa crise”, disse D. Luiz, não esquecendo as várias campanhas que também têm surgido em Portugal.

De Portugal tem vindo também um certo empurrão para que a crise que se vive em Cabo Delgado seja mais conhecida em todo o mundo. O papel dos eurodeputados portugueses foi elogiado pelo Bispo de Pemba que deposita também grandes esperanças na presidência de Lisboa do Conselho da União Europeia já a partir de Janeiro.

D. Luiz agradeceu tudo o que se fizer por Cabo Delgado e em socorro das suas populações. “Ajudar como? Primeiro, rezando. A oração move montanhas. Depois, tornando isto conhecido para vencer a indiferença, e sendo solidário.”

Quando falta praticamente uma semana para o Natal, o Bispo de Pemba disse que “temos de pensar” como será o Natal de todos os que tiveram de fugir, de todos os que ainda choram a morte de algum familiar ou amigo. “Ao celebrar o Natal, o menino Jesus, é impossível não pensar nesses outros meninos e meninas que estão nos acampamentos…”

O encontro de ontem foi uma iniciativa do Centro Missionário Arquidiocesano de Braga, Cáritas Portuguesa, Comissão Nacional Justiça e Paz, FEC – Fundação Fé e Cooperação, FGS – Fundação Gonçalo da Silveira, Ponto SJ, Rosto Solidário e da Fundação AIS.



PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

Comentários

Total de 1 Comentário(s)
Luis Bossa
Foi extraordinario , pode contar comigo, e com a Missão Beira 2017 em qualquer ajuda .
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