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MOÇAMBIQUE: “Grande parte dos terroristas são jovens moçambicanos”, diz Bispo de Pemba à Fundação AIS

16 setembro 2022
MOÇAMBIQUE: “Grande parte dos terroristas são jovens moçambicanos”, diz Bispo de Pemba à Fundação AIS

A Irmã Maria de Coppi, morta a tiro no ataque terrorista de 6 de Setembro na diocese de Nacala, é vista já “como mártir” pelo testemunho de uma vida inteira doada ao povo de Moçambique.

Poucos dias após o brutal ataque à missão católica de Chipene, em que terroristas assassinaram Maria de Coppi, uma religiosa italiana comboniana de 83 anos de idade, D. António Juliasse, Bispo de Pemba, diz, em entrevista em exclusivo à Fundação AIS, que a maioria dos terroristas “são jovens moçambicanos” que se deixaram “aliciar para a violência” pelos que promovem a radicalização. Por isso, diz também o Bispo, é importante perceber as causas que levam à adesão a estes grupos extremistas. A pobreza, a corrupção e a falta de perspectivas de futuro são algumas das razões já identificadas pela Igreja Católica. Por causa deste diagnóstico, a Igreja defende que o combate ao terrorismo não se pode fazer exclusivamente pela via militar.

“Eles conhecem as aldeias…”

“Como nós, os Bispos, e também alguns da sociedade civil, temos estado a falar, a solução miliar não será a única, porque estes jovens [terroristas] são moçambicanos. A maioria deles. Alguns, poucos, podem vir de fora, mas grande parte destes terroristas são jovens moçambicanos, saem das aldeias, conhecem as aldeias, e fazem estratégias muito locais por terem o domínio dessas aldeias”, descreve o Bispo. O facto de serem moçambicanos, dá, a estes jovens, uma capacidade operacional importante. “Facilmente se escondem, vigiam os movimentos das Forças de Defesa de Moçambique e vão agindo quando [eles] estão distantes. E quando aparecem as forças [moçambicanas] eles já não estão.”

Frente comum contra o terrorismo

D. António Juliasse defende também, na entrevista com a Fundação AIS, que deveria ser constituída uma “frente comum” entre responsáveis da sociedade moçambicana para se lidar com este fenómeno extremo do terrorismo. “Toda a sociedade moçambicana deve estar envolvida, as lideranças que compõem a sociedade moçambicana devem estar envolvidas, inclusivamente a Igreja deve estar envolvida também na mobilização para que se semeiem sempre atitudes, pensamentos e visões para a paz e estabilidade no país.” No entanto, o Bispo de Pemba diz que não houve até agora qualquer abordagem oficial para que a Igreja Católica seja envolvida neste esforço de combate ao extremismo. “Neste momento, nós ainda não fomos abordados oficialmente para a necessidade de colaborarmos. Fazemos o nosso esforço, como é próprio da natureza da Igreja, de transmitir o amor e a paz entre todos, mas não estamos ligados às outras forças da sociedade numa acção conjunta. Nós temos feito os nossos encontros religiosos, com líderes cristãos, líderes muçulmanos. Temos ideias para contribuir, há experiências que a Igreja possui que poderão ser muito úteis neste combate.”

Pobreza e corrupção

Um combate que passa também pela identificação das razões que têm levado jovens a deixarem-se envolver na radicalização de grupos terroristas que se identificam com o Daesh, os jihadistas do Estado Islâmico. E a Igreja tem falado disso. “A pobreza está à [nossa] volta e depois também as poucas oportunidades que o país oferece não são concorridas de uma forma transparente. Há uns privilegiados, porque estão no centro da decisão, no centro do poder, e os seus filhos podem ter mais privilégios do que os outros. E os jovens sentem essas injustiças. A injustiça da corrupção é muito grande e os jovens protestam contra tudo isso”, denuncia D. Juliasse.

Mais 100 mil deslocados…

Os ataques terroristas começaram em Outubro de 2017 e tornaram-se quase parte do quotidiano das populações moçambicanas no norte do país, na província de Cabo Delgado. Mas, desde o Verão, que se têm vindo a registar novos ataques, cada vez mais para o sul, já na província de Nampula, agravando ainda mais a já profunda crise humanitária neste país de língua oficial portuguesa. “Alberto Vera [Bispo de Nacala, diocese onde a irmã italiana foi assassinada] falava-me, há quatro dias, de que estavam em movimento, provavelmente, cerca de 100 mil pessoas. Há imensas pessoas deslocadas nesta região só nestes últimos dias. E isso é um novo drama humanitário, juntando-se já ao de Cabo Delgado…”

Ataque à missão de Chipene

O ataque à missão de Chipene, no dia 6 de Setembro, em que a irmã Maria de Coppi foi morta a tiro, trouxe de novo Moçambique para a primeira página dos jornais em todo o mundo. É o regresso, em força, da violência terrorista. “Antes de começarem os ataques nos distritos de Memba e de Erati [Diocese de Nacala], esses ataques foram acontecendo nos distritos de Ancuabe e Chiúre, que pertencem à Diocese de Pemba. E aí também houve aldeias queimadas, pessoas mortas e inclusivamente nós perdemos dois responsáveis de comunidades, animadores nossos, das comunidades cristãs, que foram também assassinados por decapitação. Foram mortos por decapitação”, descreve o prelado. Sobre o ataque à missão de Chipene, no distrito de Membe, na Diocese de Nacala, em que os terroristas além de terem assassinado a irmã italiana deixaram atrás de si um profundo rasto de destruição, D. António Juliasse considera que não é de descurar, também aqui, a participação de jovens locais já radicalizados. “Poderia ter havido alguma célula em Memba, e já havia um certo mal-estar. Alguns, dizem, vindos de fora do país, estavam a fazer actividades de radicalização em Memba. Isto já se tinha escutado. E portanto, por via disso, deviam estar lá alguns radicalizados e prontos, provavelmente, à espera de um comando. E eu penso que o comando para estas acções, para tudo isto, para estes ataques, deve ter descido de cima [de Cabo Delgado] e os que já estavam prontos juntaram-se. São filhos dali, com outros que vieram para reforçar e que já fazem guerra em Cabo Delgado…”

Obrigado, Fundação AIS!

Este ataque veio demonstrar que Moçambique está em guerra e que precisa de ajuda. Para D. António Juliasse, é fundamental que o mundo não se esqueça de Moçambique, dos deslocados, das vítimas do terrorismo. “Como alimentar todas essas pessoas? Provavelmente já vamos com perto de 1 milhão [de deslocados].” É aqui que entra a solidariedade de muitas instituições, nomeadamente da Fundação AIS que, desde a primeira hora, tem sido um parceiro significativo do esforço da Igreja no apoio às populações vítimas do terrorismo. “Nós não agimos como uma Organização Não Governamental. Nós fazemos a caridade como fruto da nossa própria missão, como fruto do Evangelho. E isto tem sido muito gratificante para todos os missionários. Aproveito esta oportunidade para agradecer a todos os que colaboram com a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, os que fazem as suas doações pensando no sofrimento que existe em Moçambique, nos deslocados, nas crianças malnutridas, nas crianças que não têm a possibilidade de frequentar a escola, porque lhes falta material, falta fardamento, e até aquelas ajudas para o apoio psicossocial a pessoas que experimentaram a violência.”

“Não se esqueçam de nós…”

D. António Juliasse veio a Portugal para estreitar a colaboração já existente entre a Diocese de Pemba e a Arquidiocese de Braga, responsável por um projecto missionário na paróquia de Ocua, distrito de Chiúre. Mas veio também para alertar o mundo para a urgência da ajuda humanitária. “Agora, com a Ucrânia, imensas organizações estão a esquecer Cabo Delgado. E o mundo todo também vai esquecendo Cabo Delgado, vai esquecendo o nosso Moçambique, e agora a violência terrorista ultrapassou as fronteiras de Cabo Delgado… Quero deixar o meu apelo para que não se esqueçam de nós. Se o mundo se esquecer de nós…”



PA | Departamento de Comunicação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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