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MOÇAMBIQUE: “Há um pânico total” de novos ataques dos terroristas, mesmo em Pemba, diz Padre Kwiriwi Fonseca à Fundação AIS

30 abril 2021
MOÇAMBIQUE: “Há um pânico total” de novos ataques dos terroristas, mesmo em Pemba, diz Padre Kwiriwi Fonseca à Fundação AIS

“Há um pânico generalizado” nas populações face ao receio de novos ataques por parte dos grupos terroristas, inclusivamente na capital da província de Cabo Delgado. A constatação é do Padre Kwiriwi Fonseca, um dos responsáveis pela comunicação da diocese de Pemba em entrevista à Fundação AIS, face à forma como as pessoas estão a reagir sempre que se escutam tiros, mesmo que provenientes de zonas onde soldados das Forças de Segurança de Moçambique estão acantonados e a realizar treinos militares, ou face aos boatos que circulam inevitavelmente numa região em ambiente de guerra.

Para o Padre Fonseca, é preciso ajudar as pessoas a superarem este desassossego. “Qualquer tiro, qualquer tiroteio [que se escute] desses locais de treinamento [dos soldados] e logo todo o mundo fica em pânico, fica correndo… Há muito medo. Então, o governo, as organizações não-governamentais, a Igreja, temos que começar de forma intensiva e constante a falar sobre confiança e segurança, porque há muito medo mesmo. Há um pânico total…”

MAIS ATAQUES
Esta é uma realidade que se observa já nas ruas de Pemba, cidade que é também, de alguma forma, o reduto principal das forças de segurança em toda a região. O medo de que fala o Padre Fonseca é alimentado pelos rumores de algum ataque iminente. “As pessoas têm que aprender que na situação de guerra em que nós estamos é preciso muita coragem, é preciso não lançar alguma notícia sem ter a certeza de que aconteceu. É [preciso] evitar lançar as fake news, evitar sermos gente de boatos. É importante isso…”

O pior é quando as notícias de ataques são verdadeiras, como aconteceu na quinta-feira, dia 22 de Abril, ou mais tarde na terça, dia 27. Praticamente um mês depois do ataque a Palma, esta vila situada nas imediações do mega projecto de exploração de gás voltou a ser palco de incidentes graves.

As notícias são alarmantes e chegam à diocese através de algumas pessoas que continuam na região. “Desde o primeiro ataque, aquele que foi mais forte, no dia 24 de Março, as notícias chegam bastante fragmentadas mas por meio de pessoas que estão em contacto connosco [soubemos] que houve alguns ataques e queimaram algumas casas nos arredores da vila de Palma”, conta o Padre Fonseca. “Na quinta-feira [22 Abril], segundo o nosso colaborador, aquele que nos tem facilitado informações e que é residente em Palma, mataram 4 pessoas e outras foram raptadas, mas até agora não existe nenhum dado oficial. O governo ainda não se manifestou embora várias pessoas, digamos assim, confirmaram que sim, que teve ataques.”

PESSOAS DESPARECIDAS
O rapto de pessoas, de que o Padre Kwiriwi se refere, representa um dos lados mais obscuros e dramáticos desta guerra em Cabo Delgado. Não há dados oficiais, mas ninguém ignora a existência do problema. Na entrevista à Fundação AIS, o responsável pela comunicação da Diocese de Pemba prefere não avançar com números. Como consequência do ataque de Março à vila de Palma, por exemplo, diz que só agora é possível afirmar que terão fugido cerca de 25 mil pessoas. “Mas saber o número exacto dos que foram raptados é difícil porque [é um processo] que leva muito tempo. Há relatos de crianças desaparecidos, de jovens mulheres, homens… desaparecidos. E desses não sabemos o seu paradeiro, não sabemos se estão todos nas mãos dos terroristas ou perdidos em algum lugar. A nossa oração é que estejam seguros em algum lugar. Pois há vários lugares de refúgio que essas pessoas estão a usar, sim.”

Outro lado negro desta guerra em Cabo Delgado é a existência de pessoas, muitas vezes apenas crianças, que perderam o contacto com os familiares e que estão sem ninguém. Encontrar o rasto dessas famílias é uma tarefa imensa mas urgente. E a Igreja tem procurado colocar todos os seus meios ao serviço desta missão. Nomeadamente através da rádio. “Nós, como Rádio sem Fronteiras, quando aparece alguém que não consegue [saber dos seus familiares] dá-nos os nomes e nós tentamos localizar… a pessoa tal, a criança tal… temos feito esse trabalho. Temos feito esse trabalho e nós temos presenciado esse trabalho bonito de localização de desaparecidos…”

O trabalho bonito de que fala o Padre Fonseca acontece a partir dos próprios centros provisórios de reassentamento, para onde os deslocados foram encaminhados. “A partir de cada aldeia, procura-se saber [onde estão os familiares]… É um trabalho de pesquisa de forma detalhada, usando a população, usando os líderes comunitários, usando também locais de reassentamento noutras províncias para se saber onde é que está fulano, como é que chegou… e as próprias crianças ajudam-nos a entender se perderam os pais, onde foi o ataque, qual foi a trajectória… Existe nesse trabalho, existem organismos que fazem esse trabalho, todos eles ligados à Cruz Vermelha Internacional, e também às Nações Unidas e ao próprio governo.”

PADRE ‘PRONTO-SOCORRO’
A vida mudou na região norte de Moçambique por causa desta guerra não declarada por grupos armados que reivindicam pertencer ao Daesh, os jihadistas do Estado Islâmico, e que já causou, desde Outubro de 2017, mais de 2500 mortos e mais de 750 mil deslocados. A Igreja tem procurado socorrer as populações forçadas a fugir e que estão agora totalmente dependentes da solidariedade alheia. “Temos que nos adaptar a essa nova realidade”, constata também o Padre Fonseca. “Aqui, hoje, a palavra de ordem é flexibilidade.” Flexibilidade para socorrer todos os que batem à porta da Igreja pedindo ajuda. “A nossa vida mudou. [Ser padre] é uma espécie de pronto-socorro. É isso mesmo. É estar num plantão 24 horas por dia. Nós estamos nesta luta animados pois no final do dia podemos dizer que estamos vivos, não é?” A nova realidade de que fala o Padre Kwiriwi Fonseca é comum a todos os sacerdotes, a todas as religiosas presentes em Cabo Delgado. “No dia-a-dia, buscamos não ser só o padre mas também activista, psicólogo, director espiritual, socorrista, [até distribuidor] de comida, voluntário da Caritas, da Diocese… são para essas actividades que nós temos que estar prontos…”

OBRIGADO, FUNDAÇÃO AIS!
A verdade é que ninguém estava preparado para uma situação destas. Ninguém. Nem a Igreja. Todos foram apanhados de alguma forma de surpresa pela violência que os terroristas vão semeando a cada ataque, pelo rasto de morte e destruição que marca cada incursão dos jihadistas em cada aldeia, em cada vila ou cidade. Ninguém estava preparado para ver povoações inteiras destruídas ou pessoas degoladas num desprezo total pela vida humana. “Não estávamos preparados, [esta] é uma situação que nos surpreendeu, é uma situação que nos deixou abalados, porque ninguém se prepara para a guerra, nem para o Covid 19 nem para essa desgraça. Então, nós estamos chocados…”

O Padre Kwiriwi Fonseca é apenas um dos rostos da Igreja em Cabo Delgado, um dos que procura sarar feridas, auxiliar as populações em desespero, encontrar os desaparecidos, reunir famílias. Quando se pergunta quais as maiores necessidades no apoio às populações, começa por enumerar o mais básico, os alimentos, o material de higiene, de formação, de acompanhamento para as crianças, livros… mas depois, diz apenas a evidência: “aqui falta-nos tudo, mas acima de tudo rezem por nós…”

O Padre Fonseca tem acompanhado desde a primeira hora o esforço da Fundação AIS no apoio à Diocese de Pemba, à Igreja em Moçambique. E faz questão de o dizer. “Agradecemos à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre por esse suporte e essa presença desde os primeiros minutos que tem feito nas nossas vidas e aqui na Diocese de Pemba. Agradeço muito a vossa missão, de [procurar] estar sempre connosco. Nós sabemos quanto somos amados por vocês, quanto o nosso povo é muito amado por vocês, e que Deus vos abençoe e à vossa missão…”



PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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