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MOÇAMBIQUE: Catequistas assassinados em 1992 “serão os primeiros beatos da Igreja” neste país, acredita D. Diamantino Antunes, novo Bispo de Tete

26 março 2019
MOÇAMBIQUE: Catequistas assassinados em 1992 “serão os primeiros beatos da Igreja” neste país, acredita D. Diamantino Antunes, novo Bispo de Tete
Ficou concluído no passado sábado, dia 23 de Março, o processo diocesano para a causa de martírio dos 24 catequistas mortos em Guiúa, Moçambique, no ano de 1992, massacre que ocorreu já na fase final da guerra civil neste país africano.

D. Diamantino Antunes, novo Bispo de Tete e postulador da Causa de Beatificação dos catequistas de Guiúa, está profundamente convencido de que foi provado o seu martírio e, como revelou num encontro recente da Fundação AIS, eles “serão os primeiros beatos da Igreja em Moçambique”.

Em 1992, no dia 22 de Março de 1992, o centro catequético de Guiúa foi atacado por um grupo armado, numa altura em que Moçambique vivia já a fase final da guerra civil que teve início em 1977 e que causou cerca de 1 milhão de mortos e cinco milhões de deslocados. Era de noite.

Os catequistas foram apanhados em suas casas. Uns conseguiram fugir para o mato no meio da confusão que se gerou. Mas outros não. Foram sequestrados e a cerca de quatro quilómetros de distância do centro catequético foram interrogados. “Quem os matou sabia quem eles eram. Sabia que eram da Igreja, que eram catequistas”, recorda D. Diamantino Antunes. “Eles responderam quem eram, o que estavam ali a fazer, que não estavam ali por razões políticas pois eram catequistas, e vinham para aprofundar a palavra de Deus.”

No entanto, apesar disso, foram mortos. “Foram mortos com armas brancas, à baioneta, e a partir daí, na convicção do povo cristão, estes irmãos são de facto mártires.”

Para o novo Bispo de Tete – nomeado pelo Papa Francisco no passado dia 22 de Março, precisamente a data em que se assinada a memória do Martírio dos catequistas – e postulador da Causa de Beatificação, a palavra final para este processo cabe agora ao Santo Padre. “Nós temos testemunho dos que sobreviveram e dos próprios perseguidores. Mas o mais importante é o motivo por que foram mortos. Isto é: o ódio à fé por parte do perseguidor.”

Falando recentemente num encontro de apresentação do Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo da Fundação AIS na diocese de Leiria-Fátima, D. Diamantino mostra-se profundamente convencido que ficou provado mesmo o martírio e que estes 24 moçambicanos estão a caminho dos altares. “Acho que conseguimos provar. Perante todas estas provas o Santo Padre irá dizer se eles são mártires ou não. Se assim o considerar, e esperemos que sim, serão os primeiros beatos da Igreja em Moçambique. E representarão tantos outros que no tempo da revolução, no tempo da guerra civil pagaram um preço alto pela sua fidelidade à Igreja e a Jesus Cristo.”

O processo de beatificação foi exaustivo e durou, até agora, cerca de 3 anos. Foram interrogadas 125 testemunhas, pessoas que conheceram os catequistas nas suas comunidades, na sua actividade pastoral, e até testemunhas oculares. “Falámos com sobreviventes do massacre, graças a Deus” – explica o novo Bispo de Tete. “Também interrogámos alguns dos perseguidores… Foi recolhida toda a informação e tudo isso foi colocado por escrito e agora vai ser enviado para Roma e o Papa, a Comissão irá verificar se há provas efectivas de que houve martírio ou não.”

De qualquer forma, a verdade é que para o povo moçambicano é inegável a fama de martírio daqueles catequistas e de suas famílias.

O período da guerra civil foi muito duro em Moçambique e correspondeu a uma fase em que a Igreja foi perseguida também pelas autoridades, pelo poder político.

No encontro da Fundação AIS, D.Diamantino Antunes, que até agora era também o responsável pelos Missionários da Consolata em Moçambique e Angola, fez uma rápida viagem pela história recente deste país no que diz respeito à questão da liberdade religiosa. “Nestes 45 anos de história desde 1975, o ano da independência (face ao poder colonial português), até hoje, Moçambique viveu uma experiência muito negativa em relação às religiões e sobretudo em relação à Igreja católica”, explicou o prelado.

“Com a independência, a Frelimo, partido marxista-leninista, assumiu o poder e teve uma atitude muito agressiva em relação às religiões, de modo particular com a Igreja Católica conotada com o regime colonial.” Essa agressividade traduziu-se, explicou ainda, em acções práticas “como a nacionalização das missões, expulsão de missionários e encerramento de seminários, de modo a impedir a formação de sacerdotes locais, e também perseguição”.

O caso ocorrido com os 24 catequistas e suas famílias em Guiúa, em 1992, foi apenas um episódio da perseguição religiosa em Moçambique nos primeiros tempos após a independência. “Houve sacerdotes, mas sobretudo catequistas, que foram discriminados, perseguidos, colocados na prisão, e alguns deram a própria vida por fidelidade à Igreja. E de modo particular os catequistas”, recordou o novo Bispo de Tete no encontro promovido pela Fundação AIS.

Uma situação de perseguição à Igreja que mudou, no entanto, depois de 1992 com o fim da guerra civil e a aprovação de uma nova Constituição. “A liberdade religiosa existe, é garantida constitucionalmente e de facto o Estado não interfere muito na vida das igrejas. Não quer dizer que não interfira. Mas não interfere muito como interferia antes. Podemos dizer que há liberdade religiosa”, explicou o prelado.

Um encontro que serviu também para o actual responsável pela diocese de Tete agradecer toda a ajuda que a Fundação AIS tem dado à Igreja em Moçambique ao longo destes anos.

“Somos muito devedores a esta Fundação”, disse D. Diamantino. “É a nossa mãe, é o nosso pai. Quando nós falamos na Ajuda à Igreja que Sofre pensamos só nos países onde não há liberdade religiosa. Mas a ajuda à Igreja que sofre é também em termos de meios, de pessoal. Portanto, a Igreja em Moçambique, como aliás em toda a África e nos outros continentes, deve muito a esta Fundação em termos de ajuda material e espiritual.”

Uma ajuda que o novo Bispo de Tete recebeu também ao longo dos anos para desenvolver o seu trabalho missionário. “Eu, particularmente, posso dizer que também sou devedor. Nas missões onde trabalhei em Moçambique – e trabalho já há 22 anos – beneficiei dessa ajuda, seja em termos de construções, de capelas, de formação de catequistas… então, muito obrigado!”

A ordenação episcopal de D. Diamantino Antunes, e a tomada de posse como bispo, está para já marcada para dia 12 de Maio. A celebração, que acontecerá no Domingo do Bom Pastor em Tete, será presidida por D. Inácio Saúre, arcebispo de Nampula.

PA| Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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