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MOÇAMBIQUE: Fundação AIS no apoio psicossocial a deslocados de Cabo Delgado

24 novembro 2021
MOÇAMBIQUE: Fundação AIS no apoio psicossocial a deslocados de Cabo Delgado
Na paróquia de Itoculo, Diocese de Nacala, está a decorrer um processo de acolhimento de deslocados de Cabo Delgado, vítimas do terrorismo que tem vindo a assolar a região norte de Moçambique. Nesta iniciativa da Caritas diocesana, que conta com o apoio da Fundação AIS, vamos encontrar um padre do Porto que está em terras africanas em missão…

São, ao todo, quase 22 mil deslocados de Cabo Delgado em Nacala, apesar de esta diocese estar situada a mais de 400 quilómetros de distância. São quase 22 mil homens, mulheres e crianças. Essencialmente mulheres e crianças, muitas crianças. Todos eles são uma apenas uma gota no oceano da emergência social que tem agitado Moçambique desde que grupos terroristas começaram a lançar ataques armados em Outubro de 2017, provocando um balanço de horror que contabiliza já mais de três mil mortos e mais também de 850 mil deslocados.

Na Paróquia de Itoculo vamos encontrar mais de uma centena destes deslocados. São, exactamente, 117 pessoas, das quais, quase metade são crianças. Elas estão no centro de uma iniciativa lançada pela Cáritas de Nacala e que tem o apoio da Fundação AIS. O objectivo é dar apoio psicossocial para que possam conseguir enfrentar com mais resiliência os desafios que enfrentam como vítimas da guerra.

A papinha

No meio do chão, abrigados do sol inclemente de África pela sombra de algumas árvores generosas, um grupo de crianças inicia o momento mais saboroso: a papinha, que é o mesmo que dizer o lanche ou, muito provavelmente, a única verdadeira refeição do dia… Zeca Virgílio e Amon Ali são dois monitores da Cáritas. Com indisfarçável orgulho envergam, cada um, a sua camisola azul com os símbolos da Cáritas mas também da ACN, da Fundação AIS. Virgílio sintetiza, um português difícil, que está ali para ajudar as crianças a “rezar, tratar da higiene, lavar as mãos…” Mas o mais importante é quando consegue explicar que gosta muito do trabalho “porque está a ajudar as pessoas”.

Também Amon se mostra feliz por estar ali, quase na berma da estrada, a tentar dar uma vida nova a todos aqueles deslocados. Ao lado das casas, todos os dias inventa-se por ali uma sala de aulas assim como um refeitório. O céu é o tecto e a terra e as ervas o chão das salas e do refeitório. A comida das crianças, “a papinha”, como elas já aprenderam a dizer, é um verdadeiro ‘shot’ de vitaminas. Milho, leite, casca de ovo… o que se puder juntar. É que a fome é uma realidade cruel. O apoio aos deslocados foi sublinhado publicamente pelo Bispo de Nacala, D. Alberto Vera, numa mensagem em Março deste ano sobre o acolhimento aos deslocados de Cabo Delgado. “Infelizmente, o tempo é de fome geral devido à escassez da produção na campanha agrícola de 2020 e com a falta de chuva nesta campanha de 2021”, disse o Bispo, explicando que esta realidade colocou “numa situação de extrema vulnerabilidade” toda a população camponesa, cerca de oitenta e cinco por cento, o que fez aumentar “ainda mais a pressão social”.



Apoio psicossocial

Os tempos são difíceis, mas as respostas que a sociedade tem dado são sinal de alguma esperança. O Projecto de Apoio Psicossocial a famílias deslocadas na Paróquia de Itoculo é disso um bom exemplo. Além da Cáritas e da Fundação AIS, além dos monitores Virgílio e Ali, este projecto conta também com a colaboração do Padre Mário João. Sacerdote do Porto está em missão em Moçambique. Alto, não consegue passar despercebido por ali, o que seria também difícil com os seus cabelos compridos e claros. Vamos encontrá-lo em Mweravale, uma das comunidades que acolheu deslocados de Cabo Delgado. “Chegaram aqui em Março de 2020. Em Setembro iniciámos este projecto com três valências: para os mais novos há os Amigos das Crianças, com brincadeiras, para tentarmos estar com elas e ajudá-las a ultrapassar alguma coisa menos boa que tenham vivido com a fuga lá de Cabo Delgado.

Para os mais velhos temos um espaço de capacitação em língua macua e em matemática, e também para os mais velhos temos aquilo a que chamamos ‘escuta activa’ que é um espaço de partilha das histórias, boas e menos boas que foram vividas e também com vista a ultrapassar as dificuldades neste processo de guerra em Cabo Delgado…”

Tempos de incerteza

O Padre Mário, como por ali parece ser mais conhecido, conhece bem a história destes deslocados. Nenhum deles viveu directamente situações muito traumáticas. Conseguiram sair a tempo. “Eles saíram antes de verem coisas complicadas. Quando souberam que estavam a aproximar-se os terroristas das aldeias, eles fugiram. Fugiram para aqui, pois aqui tinham familiares que já cá estavam há mais tempo. Então, vieram os familiares, os vizinhos, os amigos e aqui se instalaram…”

Este projecto da Cáritas de Nacala com o apoio directo da Fundação AIS envolve além das 117 pessoas deslocadas de Cabo Delgado, um total de sete colaboradores locais apoiados por 3 missionários. As aldeias de Mweravale e Ramiane são agora dois locais onde se escutam as vozes alegres e inocentes das crianças, especialmente quando chega o tempo da papinha. Para muitos destes deslocados os tempos são de grande incerteza. Muitos querem regressar às aleias de origem e estão na expectativa. É preciso perceber o que dizem as notícias que chegam do norte. Se os ataques terminarem, talvez seja tempo de voltar a casa. Mas tudo parece indicar que a paz ainda estará distante…

Para o Padre Mário Rui “é sempre um desafio ajudar”. Para ele, o que importa é saber que por ali, quase na beira da estrada, na Diocese de Nacala, há um grupo de pessoas, de deslocados, que precisam de ajuda. “É interessante ver a evolução das crianças que agora brincam mais, correm mais, saltam mais e já falam português.”



Jornalista Paulo Aido em Moçambique | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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