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PAQUISTÃO: “Chorava todos os dias. Era aterrorizante”, conta Shagutha Kausar sobre a vida na prisão no corredor da morte

20 maio 2022
PAQUISTÃO: “Chorava todos os dias. Era aterrorizante”, conta Shagutha Kausar sobre a vida na prisão no corredor da morte
“Na cadeia, fomos torturados. Os policias disseram ao meu marido que se ele não confessasse, eles iriam violar-me na frente dele, e então ele confessou, mesmo sendo ambos inocentes.” As palavras são de Shagufta Kausar, uma mulher cristã, de 53 anos, a recordar alguns dos momentos mais dramáticos por que passou juntamente com o marido, Shagaft Emmanuel, de 50 anos.

Shagufta e Shagaft viviam, em Julho de 2013, numa pequena localidade a cerca de 240 quilómetros a sul de Lahore, quando a vida se transformou num pesadelo. Acusados de blasfémia e condenados à morte por terem enviado uma mensagem de texto com o telemóvel – o que nunca aconteceu –, ambos passaram oito anos na cadeia, sempre à espera do dia em que seriam enforcados. A história deste humilde casal cristão correu mundo e a libertação só aconteceu a 3 de Junho do ano passado, graças a uma enorme campanha em seu favor, que contou com a militância activa da Fundação AIS. O Supremo Tribunal de Lahore mandou-os em liberdade, mas as ameaças de grupos extremistas obrigaram-nos a ter de deixar o Paquistão. Agora vivem na Europa Tiveram de pedir asilo. A história deste casal é apenas um exemplo da imensa tragédia vivida diariamente pelos cristãos neste país.

Shagufta Kausar aceitou contar tudo por que passou até ao dia de hoje. Falou com o Padre James Channan para a Fundação AIS. O casal tem quatro filhos, três rapazes e uma rapariga. Ela, a mais nova, tinha cinco anos quando os dois foram presos, foram levados pela polícia. O mais velho dos filhos tinha 13 anos. A vida não era fácil. O marido de Shagufta tinha ficado paralisado quando uma bala perdida o atingiu ao tentar separar pessoas que estavam envolvidas numa briga. Mas o pior de tudo estava ainda para acontecer. Em Julho de 2013, foram levados para a esquadra sob a acusação de que tinha sido enviada uma mensagem com carácter blasfemo do telemóvel que possuíam. De nada lhes valeu terem dito que não sabiam inglês, que não faziam ideia do que estava escrito na mensagem. Passaram a noite na esquadra. Começou aí o pesadelo. “Ficamos na prisão por oito meses antes de um juiz nos considerar culpados e nos sentenciar à morte. O nosso advogado não foi autorizado a completar suas alegações finais, e nenhum de nós foi ouvido. Desmaiei assim que ouvi a condenação à morte.”

Medo na prisão
Cada um foi levado para a sua prisão. O marido de Shagufta para a cadeia de Faisalabad e ela para a de Multan. Seria aí que iria conhecer Asia Bibi, uma mulher cristã que, tal como ela, também tinha sido condenada à morte por blasfémia. “Ficamos no corredor da morte por oito longos anos. Você pode imaginar o quanto isso foi difícil para meus filhos?” As crianças passaram por outr verdadeiro inferno, tendo de fugir constantemente de fundamentalistas islâmicos que também os queriam atacar. “Só me visitavam a cada cinco ou seis meses, por cerca de 20 a 30 minutos. Assim eu chorava todos os dias por não estar com meus filhos. Minha vida era aterrorizante, e eu ficava pensando que um dia meu marido e eu seríamos enforcados…” Shagufta diz que nunca perdeu a esperança de que seria libertada e muito menos perdeu a fé. Rezar foi o grande sustento nos longos dias de prisão. “Rezava diariamente, sem falhar. Li a Bíblia e cantei salmos e hinos em urdu e punjabi, e isso me confortava muito.

Nunca perdi a fé e a esperança.
Várias vezes me disseram que se eu me convertesse ao Islão, a minha sentença de morte seria transformada em prisão perpétua e que eventualmente eu seria libertada. Eu sempre disse não. O Senhor Jesus Cristo Ressuscitado é a minha vida e Salvador. Jesus Cristo sacrificou sua vida por mim, embora eu seja uma pecadora. Eu nunca, jamais mudarei minha religião e me converti ao Islã. Preferia ser enforcada a negar Jesus Cristo. Algumas vezes, quando conseguia estar junto de Asi Bibi, as duas mulheres confortavam-se rezando. “Durante um tempo, Asia Bibi foi minha vizinha no corredor da morte em Multan. Sempre que nos encontrávamos, costumávamos orar juntas, consolar uma à outra e renovar a nossa firme fé em Jesus Cristo.”

Finalmente, a liberdade
A libertação de Asia Bibi, em Novembro de 2018, seria uma vitamina de esperança para Shagutha Kausar. Agora, à Fundação AIS, recorda o que sentiu nesse dia em que sobe que a sua amiga estava fora de perigo, que já não ia ser enforcada, que o tribunal tinha reconhecido a sua inocência. Essa notícia deu-lhe a certeza de que, um dia, também ela e o marido acabariam por sair em liberdade. “Quando soube que a Asia foi libertada, meu coração se encheu de alegria e tive certeza de que um dia eu também seria libertada. Finalmente, aconteceu, e meu marido e eu fomos libertados.” No entanto, tal como Asia Bibi, também Shagufta, o marido e os filhos tiveram de abandonar o Paquistão, exilando-se noutro país pois as ameaças de morte nunca pararam… “É lamentável que, assim como Asia Bibi, Shafqat e eu não pudemos ficar no Paquistão com a nossa família e tivemos que obter asilo e nos estabelecer em outro país. Tudo porque fanáticos e extremistas muçulmanos estavam determinados a nos matar se ficássemos no Paquistão. No entanto, estamos muito felizes que um país europeu nos deu asilo e agora a nossa família está reunida. Estamos seguros aqui e somos livres para praticar a nossa religião.”

Agora, Shagufta sabe que a sua história tem de ser contada para sensibilizar o mundo para a tragédia que se vive no Paquistão, para o drama de tantas pessoas, de tantos cristãos acusados falsamente de blasfémia. “Espero e rezo para que essas falsas acusações de blasfémia, que muitas vezes são feitas para acertar contas pessoais, parem no Paquistão e que aqueles que forem considerados culpados de falsamente acusar outros, sejam punidos.”

PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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