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Sementes de Esperança

Julho-Agosto de 2020

1 julho 2020
Julho-Agosto de 2020
BURKINA FASO:
A ESCALADA DO TERRORISMO

O Burkina Faso foi durante muito tempo considerado um pólo de estabilidade na África Ocidental, mas desde 2018 que atravessa uma crise sem precedentes, com o aumento exponencial do terrorismo.

Superfície 272.967 km2
População 18.634.000 habitantes
Religiões Muçulmanos: 54,2% | Cristãos: 23,9 % | Religiões Tradicionais: 21,3 % | Outras: 0,6 %
Língua oficial Francês


Com uma área equivalente a metade de França, o Burkina Faso, antigo Alto Volta, é um país muito pobre situado na África Ocidental. A sua população é constituída por cerca de 60 etnias diferentes. Os Mossi são os mais numerosos, cerca de 50% da população, seguidos pelos Peul, cerca de 8% situados principalmente no norte. O número de cristãos aumenta significativamente com milhares de baptismos de adultos em cada ano. Até agora, os Burquineses têm vivido em harmonia entre eles, sendo a pertença a uma família considerada primordial em relação a qualquer outra consideração, nomeadamente religiosa ou étnica. É assim que, numa mesma família, encontramos frequentemente cristãos e muçulmanos.


DEGRADAÇÃO DA SITUAÇÃO
O Burkina Faso foi durante muito tempo um país em paz e, após uma lenta degradação a partir do norte, foi decretado o estado de emergência em Dezembro de 2018 em todas as regiões fronteiriças do norte e do leste, e o recolher obrigatório está agora instaurado no norte. Multiplicamse os ataques e tornam-se quase diários: destruições, raptos, assassinatos… Os terroristas parecem querer conquistar Djibo, a grande cidade do norte cujo deputado e autarca foi morto em 3 de Novembro de 2019 numa emboscada. “A cidade só dispõe de uma entrada e saída. Se este eixo se tornar muito perigoso, será como uma asfixia” declara um habitante à RFI África. Eles descem para o sul e aproximam-se de Ouagadougou, a capital.



É difícil distinguir os crimes de delinquentes dos de jihadistas porque os ataques não são reivindicados e o pretexto religioso não impede a pilhagem, o roubo de gado e a caça ilegal nas reservas. Além disso, a fronteira com o Mali, que percorre cerca de 1000 km, é facilmente violável. Vários grupos estão neste momento implantados no Burkina Faso, por vezes filiados em grupos estrangeiros e por eles treinados. Procuram desestabilizar o país e quebrar a harmonia entre as diferentes etnias. Os Peuls, presentes nos dois países e frequentemente nómadas, são acusados de dar abrigo ou apoiar os terroristas. Assim, aquando do massacre de Yirgou, em Janeiro de 2019, os Peuls (49 pelos números oficiais, mas provavelmente mais de 200) foram massacrados em represália pelo assassinato de um chefe de uma aldeia mossi e do seu séquito.

Os terroristas matam os professores e incendeiam as escolas porque as consideram sinal da presença do Estado e porque o ensino é em francês. Mais de 2000 escolas foram encerradas, privando cerca de 350.000 crianças da educação. Estas crianças, na melhor das hipóteses, estão a trabalhar nos campos e, na pior, são recrutadas à força.

Os camponeses fogem à chegada dos terroristas, abandonando as culturas e o gado para se refugiarem nas cidades. De acordo com o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, existem hoje cerca de 800.000 deslocados dentro do seu país e continuam a aumentar. Não existem campos de refugiados, os deslocados são acolhidos nas famílias, nas paróquias, nas mesquitas, escolas, etc. Em alguns lugares, verifica-se uma forte preponderância de mulheres e crianças: “os terroristas matam os homens. Mesmo os rapazes entre os 12 e os 15 anos são assassinados. Todos os homens fugiram para procurar refúgio noutros lugares; alguns até partiram para a Costa do Marfim”, conta um deslocado na Diocese de Kaya. Este êxodo acarreta toda a espécie de consequências cheias de ameaças, principalmente a diminuição da produção agrícola, o fim da escolarização das crianças e a falta de emprego. O único sinal positivo é que esta fuga manifesta a ausência de apoio por parte dos Burquineses aos terroristas, ao contrário do Mali onde estes vivem no meio da população.



Enquanto alguns observadores consideram que o problema poderia ter sido resolvido com um pouco de vontade política, a situação continua a degradar-se cada vez mais rapidamente. Blaise Compaoré, que esteve no poder entre 1987 e 2014, temia os golpes de Estado e por isso enfraqueceu o exército, apoiando-se unicamente na sua guarda presidencial, o RSP (Regimento de Segurança Presidencial), dissolvido em 2014. O país tem como presidente Roch Kaboré desde Dezembro de 2015. As forças de segurança (exército, polícia, guarda) são mal formadas, mal equipadas e mal enquadradas, tornando-se os primeiros alvos dos ataques terroristas. Não estão preparadas para uma situação destas, não têm munições, nem sequer alimentos e água. As tropas estão desmoralizadas e a cólera começa a minar as suas fileiras, principalmente depois de um ataque particularmente mortífero que ocorreu em 19 de Agosto do ano passado, provocando 38 mortos. Não parecem estar longe de um motim ou golpe de Estado. O Estado perdeu o controlo de 1/3 do território. Com a perspectiva de eleições no próximo ano, mais ninguém se quer arriscar. As autoridades limitam-se à negação ou contentam-se com afirmações demagógicas.

Oração
Para que a paz regresse ao Burkina Faso, e à vida e aos corações do seu povo tão massacrado, nós Te pedimos Senhor.

DEGRADAÇÃO DA SITUAÇÃO
Nas regiões mais afectadas pelo terrorismo, não é possível o culto público. As igrejas estão fechadas e o Santíssimo Sacramento foi retirado. Em Kongoussi, por exemplo, de 30 comunidades só duas se mantêm activas. O Pe. Laurent, pároco de Kongoussi, perdeu pelo menos 25 paroquianos nos últimos ataques. Fala da “psicose” causada pelos terroristas. Após vários meses, os padres até do púlpito apelam à vigilância dos fiéis para a segurança de todos. “Os fiéis são convidados a manter os seus telemóveis ligados durante as celebrações, porque em Dablo um homem quis prevenir o seu pai de que os terroristas estavam a chegar e o telefone estava desligado!” Por vezes, organizam-se revistas às pessoas à entrada dos lugares de culto. É dada formação de segurança. Em Bani (Diocese de Ouahigouya), em Junho de 2019, os terroristas perguntaram os nomes próprios às pessoas para saber se tinham nomes cristãos e verificaram se elas tinham uma cruz ou medalhas. “Foi assim que quatro católicos que traziam uma cruz ao pescoço foram identificados, afastados e executados”, relata a Diocese de Ouahigouya.



Os fiéis rezam muito pela paz e pela conversão dos pecadores, assumindo para si a frase do Arcebispo Cardeal Philippe Ouédraogo que diz “A nossa kalachnikov é a oração”. Onde é possível, os Cristãos esforçam-se por não ceder ao medo e por continuar a viver normalmente. A Diocese de Kaya, apesar de duramente atacada, manteve as celebrações do jubileu dos 50 anos da criação da diocese, entre Junho e Outubro. Em Maio, apesar dos numerosos ataques contra os Cristãos, Ouagadougou acolheu a terceira assembleia plenária das conferências episcopais da África Ocidental para a nova evangelização e o desenvolvimento humano integral. Os bispos dirigiram-se aos responsáveis de outras religiões, lembrando-os de que “é juntos que nos devemos levantar para denunciar toda a instrumentalização da religião, particularmente os assassinatos realizados em nome de Deus. O nosso Deus é um Deus de amor e devemos servi-l’O amando e não matando inocentes em Seu nome. Aqueles que o fazem pretendem sem dúvida empurrar-nos para uma guerra inter-religiosa ou étnica. Não cederemos nunca à sua manipulação e permaneceremos firmes na nossa determinação de cultivar o diálogo inter-religioso e o viver em conjunto na aceitação mútua e no acolhimento recíproco”. Apelaram ainda às responsabilidades dos políticos: “Exortamos-vos a combater tudo o que coloca em perigo o bem comum e viola a dignidade da pessoa humana: a corrupção, a má gestão e o tráfico dos seres humanos em todas as suas formas”.



É preciso ter esperança de que estas exortações e propostas surtam efeito. Enquanto isso, os Cristãos mantêm a esperança nestes tempos de tribulação.


Oração
Para que os Cristãos do Burkina Faso peguem nas armas da oração e do perdão a fim de reverter a situação de violência que impera no seu país, nós Te pedimos Senhor.



CRISTÃOS E MUÇULMANOS SÃO TODOS VÍTIMAS
Os Cristãos sofreram uma série de atentados, sobretudo entre Fevereiro e Junho de 2019: o assassinato de um missionário salesiano em Fevereiro, o rapto do pároco de Djibo (Diocese de Dori) em Março, numerosos ataques em Abril durante as celebrações (Sexta-feira Santa, em Zeky, e durante um culto protestante depois da Páscoa, em Silgadji, entre outros) e em Maio ataques durante uma Missa em Dablo, durante uma procissão mariana em Singa e depois em Titao. Por outro lado, também foram atingidas outras religiões, como o provam o ataque a uma mesquita que causou 16 mortos, a 11 de Outubro, e o aparecimento de objectos animistas em Ouagadougou, que provocou o receio de que quem os encontrasse fosse morto.



QUEM SÃO OS TERRORISTAS?
Os que dão as ordens têm motivações religiosas, mas os que as executam não as têm. A má governação e a corrupção, muito difundida a partir do momento em que as pessoas detêm um pouco de poder, criam uma base de amargura e falta de civismo que facilitam o aparecimento de grupos terroristas. A população sente-se esquecida pelo Estado. Os jihadistas não têm dificuldades em recrutar, pois “a pobreza é tanta no norte que por 75€ qualquer pessoa aceita fazer qualquer coisa”, afirma um burquinês oriundo do norte do país. São 1,5 milhões de pessoas que estão em situação de insegurança alimentar.

ACN Portugal · Sementes de Esperança | Julho-Agosto 2020

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