Fundação de Ajuda à Igreja que Sofre - Fundação AIS
Rua Professor Orlando Ribeiro, 5D 1600-076 Lisboa, Portugal
(+351) 217544000 apoio@fundacao-ais.pt Fundação AIS 1995
Lisboa
https://www.fundacao-ais.pt/uploads/seo/big_1585926010_1526_logo-jpg
15 10
505152304

Sementes de Esperança

Sementes de Esperança: Outubro 2020

30 setembro 2020
Sementes de Esperança: Outubro 2020
CUBA

Os Cubanos, neutralizados por décadas de comunismo, vêem o seu ambiente mudar numa lentidão desesperante. A sua Igreja está, apesar de resiliente, igualmente enfraquecida e desprovida de tudo.

Superfície 109.884 km2
População 11.393.000 habitantes
Religiões Cristãos: 61,1 % | Espiritistas: 17,1 % | Agnósticos: 16,9% | Ateus: 4,3% | Outras: 0,6 %
Língua oficial Espanhol


“Voto sim”, lê-se nos anúncios colados aos postes eléctricos em Havana, por cima das portas das casas em Santiago ou nas paredes de um bar em Cienfuegos. O Governo despoletou uma gigantesca campanha com o objectivo de apoiar o referendo constitucional do passado dia 24 de Fevereiro. Sem surpresa, num país onde a liberdade política só existe no papel, não existe qualquer traço de uma campanha equivalente em favor do “não”. Durante os dias que sucederam ao escrutínio, os títulos da imprensa propagavam a “vitória avassaladora do sim com 86,85% de votos favoráveis”. Um resultado irrefutável mas que, no entanto, reflecte uma mudança no seio da sociedade civil cubana, como explicava um dos jornais: “Catorze por cento dos votantes pronunciaram-se contra, o que representa uma grande novidade num país como este. Uma fissura no sistema.”

A nova Constituição tem poucas novidades. “É, antes de mais, um bastião da continuidade, para continuar a lutar em favor da justiça em Cuba e no mundo, e a reafirmar a herança do nosso eterno Fidel”, escrevia o jornal cubano da União dos Jovens Comunistas, Juventud Rebel, dois dias mais tarde.


VIVER DA “FÉ”
São muitos os Cubanos que estão convencidos que a maioria das reformas que surgiram nos últimos anos no país não são mais do que reformas cosméticas, destinadas a impedir que a cólera e o desespero da população tenha expressão e altere o sistema. Que sistema é esse? É difícil imaginar nos nossos países ocidentais a vida num sistema puramente socialista. A propriedade privada não existe. Não é fácil comprar um carro, ter um telemóvel, comprar uma casa, ser dono de um restaurante ou um espaço no mercado. Há cerca de 10 anos, quem tinha um carro em Cuba tinha-o desde antes da revolução. Os telemóveis estavam em nome de amigos ou dos pais que viviam no estrangeiro.



As casas não eram comercializadas mas trocadas, porque todas eram propriedade do Estado. Tudo isso mudou. Os Cubanos podem comprar um telemóvel, podem ser proprietários de uma casa e nos supermercados de moeda convertível (CUC) podem encontrar tudo. Podem mesmo abrir pequenas empresas. Mas estes sinais de abertura não passam de sinais “estéticos” superficiais: só foram tornados possíveis através da entrada de divisas estrangeiras no país. E, no plano ideológico, o sistema não mudou absolutamente nada; antes pelo contrário, foi reafirmado na nova Constituição. Em Cuba diz-se que “os Cubanos vivem da fé”. Não da fé em Deus, mas da F(amília) no E(strangeiro). A família em Miami ou em Madrid permite a entrada de divisas estrangeiras, indispensáveis ao dia-a-dia, uma vez que a moeda nacional não é praticamente utilizada.
As prateleiras das lojas onde se pode pagar em pesos cubanos estão praticamente vazias, só com o mínimo básico.

Os preços nos supermercados de moeda convertível, geralmente bem fornecidos, são muito elevados. Um litro de óleo custa 2 CUC (1,69€), sendo o ordenado de um médico cubano de 80 CUC (67,6€) e a pensão de reforma cubana de 8,5 CUC (7,2€). Podemos objectar que recebem a alimentação do Estado, o que é verdade. Mas será o suficiente? A emigração é a válvula de escape da população. Uma ferida aberta para o país. De acordo com as previsões demográficas, Miami terá um maior número de cubanos do que Havana a partir de 2020.

Oração
Para que ocorram autênticas mudanças políticas em Cuba que afectem eficaz e positivamente a vida dos seus cidadãos, nós Te pedimos Senhor.

OPRIMIR, INTIMIDAR…
A Igreja tem de resolver igualmente as suas dificuldades com uma margem de manobra muito limitada. A Igreja de Cuba nunca foi uma Igreja perseguida por um comunismo sanguinário e brutal como noutras partes do mundo.

No início, os dirigentes das associações católicas mais importantes foram presos, encarcerados e alguns assassinados, mas Fidel Castro não queria mártires. A perseguição consistia assim em silenciar, oprimir, intimidar, humilhar, isolar. Em Cuba, a ideia não era de matar Deus, mas bani-lo. Centenas de religiosos e padres foram expulsos.

Os que ficaram, foram chamados pelas suas congregações para regressar aos seus países. Ainda estava muito fresca na memória a grande crueldade da guerra civil espanhola, durante a qual milhares de padres e religiosas tinham sido assassinados. Em 1961, as escolas católicas estavam no seu apogeu: havia 250 e acolhiam 130.000 alunos. Foram tomadas pela força em algumas horas. Da mesma forma, foram confiscados muitos edifícios religiosos.

Com a queda do bloco comunista, e muito progressivamente, a opressão e o controlo deixaram de ser tão ferozes. As visitas dos diferentes papas à ilha, que se iniciaram com João Paulo II em 1998, alteraram o ambiente. Mesmo assim, a Igreja continua fora dos domínios educativos e mediáticos. Durante décadas foi proibido reparar as igrejas e as que não tinham sido confiscadas caíam em ruínas. Durante os últimos cinco anos, alguns lugares de culto confiscados foram restituídos. Num estado deplorável, com os tectos em ruínas e as janelas partidas, porque entretanto serviam de ginásio, de bar, de salão de baile… A Igreja esforça-se para lhes devolver o seu esplendor ancestral.

A autorização concedida aos Católicos para a construção de três novas igrejas foi acolhida como uma grande vitória. Duas delas já estão erguidas; a da Diocese de Pinar del Rio já está ao serviço da comunidade e a de Havana ainda em construção.

Mas nenhum destes projectos teria possibilidade de vingar sem recorrer a um apoio financeiro externo. A Igreja Cubana, como a sua população, é uma das mais empobrecidas do planeta. A falta de meios na vida do dia-a-dia atrasa a evangelização e mantém as pessoas ocupadas todos os dias só na satisfação das suas necessidades elementares. Entre os pedidos das paróquias há cartas deste género: “Hoje estou preocupado porque não encontro sal. Tenho de cozinhar para 70 pessoas, há vários dias que ando à procura e não sei como hei-de arranjá-lo.”



As consequências da emigração juntam-se à falta de recursos materiais. A Igreja Católica investiu muito na educação dos seus leigos, a base do seu apostolado e “o rosto mais precioso da Igreja Cubana” como descreve um sacerdote. Mas o êxodo dos pilares da pastoral da juventude, da família e da catequese continua.

Desde o princípio da revolução, em Cuba tudo se mede por “antes” ou “depois” da “vitória da revolução” em 1958, estima-se em cerca de dois milhões o númerode exilados e emigrantes, sobretudo jovens, o que representa perto de 20% dos 11 milhões de Cubanos. Dois terços instalaram-se nos EUA. Como é possível ter vocações sacerdotais, por exemplo, se os jovens mais empenhados e mais bem preparados escolhem emigrar? Há algumas excepções, felizmente, como Junior Antonio. Toda a sua família deixou o país, mas ele decidiu ficar e estudar no seminário de Havana porque deseja “participar na renovação da esperança do seu povo e caminhar com ele.”

Oração
Para que o povo Cubano possa ter acesso a uma vida digna permanecendo em Cuba, nós Te pedimos Senhor.
UMA IGREJA HUMILDE
Sessenta anos de socialismo puseram à prova a fé dos Cubanos. Uma fé popular, enraizada e profunda na vida quotidiana dos Cristãos, religiosos e crentes por natureza. Mas o conhecimento doutrinal mantém-se muito superficial. A santeria e as seitas protestantes mais diversas estão na moda e representam um grande desafio para a Igreja, que deseja um desenvolvimento espiritual e humano integral da pessoa humana. Apesar das dificuldades, o Espírito Santo sopra em Cuba. “Eu era ateu. Como médico, vinha visitar a minha mãe a Havana de três em três meses. Numa dessas visitas, a minha mãe convidou-me a ir à catedral para ver o filme Jesus de Nazaré, de Zefirelli. No fim do filme, pensei que poderia largar tudo por aquele homem e lamentava que fosse tudo mentira. A partir desse momento, comecei a falar com o padre que tinha organizado a projecção do filme. Fui baptizado aos 31 anos”, explica o Pe. Vladimir que hoje é padre e dá aulas no seminário de Havana.

Em Cuba, há uma Igreja simples e humilde que nunca deixou de viver. Apesar das dificuldades impostas, nunca se conformou. Há poucas igrejas oficiais, mas existem igrejas domésticas. Há poucos padres, mas muitos leigos dedicados. Quando todas as portas lhe eram fechadas, ela aprendeu a abrir as janelas.

Oração
Para que surjam mais operários na Messe do Senhor em Cuba a fim de ajudarem na formação e aprofundamento da fé e doutrina cristã, nós Te pedimos Senhor.

UMA CONSTITUIÇÃO LAICA E MARXISTA
A Conferência Episcopal Católica de Cuba acolheu favoravelmente o artigo 15º da nova Constituição que afirma que “o Estado cubano é um Estado laico”. Mas sublinha a incoerência desta declaração com o preâmbulo da Constituição que menciona o carácter absoluto da ideologia marxista-leninista e exorta as autoridades cubanas a ter uma “justa compreensão do conceito de Estado laico".



A PRIMEIRA INAUGURAÇÃO DESDE 1959
A Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi inaugurada no sábado, 26 de Janeiro de 2019, em Sandino, uma pequena vila na província ocidental de Pinal del Rio. Já não se assistia a um acontecimento como este em Cuba desde o início do regime castrista.

Comentários

Deixar um comentário
Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório.

Proposta de Oração

Os cookies ajudam-nos a oferecer os nossos serviços. Ao utilizar a nossa página, concorda com a nossa política de cookies.
Saiba Mais