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Sementes de Esperança

Sementes de Esperança - Maio 2021

1 maio 2021
Sementes de Esperança - Maio 2021
SAHEL
DESARMAR OS CONFLITOS

Burquina Faso
Cristãos: 23,9%
Muçulmanos: 54,2%

Níger
Cristãos: 0,4%
Muçulmanos: 95,7%

Camarões
Cristãos: 59,4%
Muçulmanos: 20,2%

Nigéria
Cristãos: 46,3%
Muçulmanos: 46%

Mali
Cristãos: 2,2%
Muçulmanos: 87,9%

Chade
Cristãos: 35,2%
Muçulmanos: 56,7%



Os ataques terroristas multiplicam-se no Sahel, semeando o terror e a confusão em populações já pobres e muitas vezes abandonadas pelo Estado. A Igreja trabalha todos os dias para desarmar os conflitos.

São várias centenas de refugiados que se amontoam neste campo da sorte. Mulheres e crianças, viúvas e órfãos amontoam-se à sombra de uma das raras árvores neste terreno emprestado por um proprietário generoso. Estão 35 graus. Estamos em Jatam, no centro norte do Burquina Faso. Estes burquinenses fugiram à pressa da sua aldeia, da sua terra, das suas casas para não serem mortos num ataque terrorista inimigo. Uma perdeu o seu marido, outra o pai, uma terceira, o irmão… “os terroristas matam principalmente os homens”, explicam-nos. Nestes campos, onde não há água e onde, desde a aurora, o sol incide sobre as lonas que servem de tendas e o desânimo e a tristeza dominam as pessoas. Os deslocados internos são mais de um milhão, à espera de ajudas do Estado que não chegam. Em 2019, o país sofreu mais de 580 ataques que causaram a morte de mais de 1.500 pessoas. A gravidade da situação é tal, que os refugiados do Mali voltam para o seu país aos milhares, certos de que a situação lá é melhor do que no Burquina Faso.

No entanto, o Mali está longe de ser um porto de abrigo, com o golpe militar de 18 de Agosto que destituiu o presidente Ibrahim Boubasas Keïta (IBK). Esta destituição foi reclamada pelos Malianos, exasperados pela incapacidade do Governo na gestão das urgências do país. O facto é que a dissidência sobre o pós-golpe já se faz sentir e, como se sabe, ocaos político é terreno fértil para os grupos terroristas. A 5 de Setembro foram mortos dois pára-quedistas franceses numa operação na região de Tessalit, no norte do Mali. A 9 de Setembro, quatro soldados malianos foram assassinados numa emboscada no centro do país, pois o auto-proclamado Estado Islâmico e a Al-Qaeda não agridem somente o norte do Mali mas também o centro. Perto da cidade de Mopti, os nómadas lutam contra os agricultores para se apropriarem das suas terras férteis e os terroristas exploram este conflito. Os jihadistas posicionam-se como mediadores dos diferendos sobre as pastagens e tomam o poder progressivamente nas aldeias antes de introduzir a haria.

O mesmo se passa na Nigéria, onde algumas regiões se encontram já sob a lei da sharia. Neste país, composto de tantos cristãos quanto muçulmanos, “há claramente uma ordem do dia para islamizar todas as zonas maioritariamente cristãs” diz-nos alarmado o Bispo de Mukurdi, D. Wilfred Anagbe. Os relatos denunciam um aumento dos ataques contra os Cristãos, perpetrados tanto pelo Boko Haram como pelos Peul. Algumas fontes afirmam que mais de 1.200 cristãos foram mortos nos seis primeiros meses de 2020. Entre eles, o seminarista Michel Nndadi, de 18 anos, raptado e assassinado a 1 de Fevereiro de 2020. Os raptos contra resgate são também moeda corrente, como as 100 jovens raptadas em 2018 e finalmente libertadas… com a excepção de uma, Leah, por ser cristã. Os raptos recorrentes têm também lugar nos vizinhos Camarões e Chade. Nesta região, o Boko Haram, que se julgava vencido, redobra de violência, usando novas estratégias cruéis, como por exemplo cortar as orelhas às mulheres das aldeias. Um castigo por não terem “bedecido” às ordens dos jihadistas… O grupo islâmico, que não esconde a sua ambição de impor a sharia no Sahel, é considerado responsável pela morte de 30 mil pessoas desde que surgiu em 2009.

Entre os terroristas do Sahel, há autênticos jihadistas nigerianos, líbios e outros que querem islamizar toda a África através das armas. Podemos identificar entre eles grupos como o GSIM (Grupo de apoio ao Islão e aos Muçulmanos, igado ao Aqmi, Al-Qaeda no Magrebe Islâmico), ou o EIAO (Estado Islâmico da África Oriental). Mas o Islão é também um bom pretexto para os traficantes (drogas, armas, ouro e pessoas…) que não têm qualquer interesse na manutenção de um Estado de direito e instrumentalizam a religião. Estes terroristas não se incomodam com matar outros muçulmanos, mesmo imãs, ou de beber álcool ou de não rezar. Toda esta violência se multiplica em terreno favorável: uma pobreza extrema, desemprego galopante, corrupção endémica... Neste contexto, muitos jovens aceitam juntar-se aos terroristas para ganhar algum dinheiro, ter um trabalho ou são recrutados à força. Quanto às forças de segurança, são mal formadas, mal equipadas e os militares preferem fugir dos ataques a deixar-se matar.

A população sente-se abandonada por um Estado em falência. “O nosso Governo está sobrecarregado. A situação agrava-se e o número de mortos é terrível. Ninguém parece ter a menor ideia do que se passa” denuncia D. Matthew Kukah, Bispo da Diocese de Sokoto, na Nigéria.
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Oração
Para que Deus tenha compaixão e misericórdia dos povos do Sahel, que estão a sofrer tanta violência e agressões, e toque o coração empedernido e enfurecido dos terroristas, nós Te pedimos Senhor.

RESISTÊNCIA POPULAR


Em apoio aos fracos exércitos, o Burquina Faso decidiu em Janeiro de 2020 favorecer o recrutamento de “voluntários para a defesa da pátria”, ou seja, armar a população. Esta resistência popular, uma noção muito enraizada no Sahel, já permitiu salvar algumas aldeias de ataques terroristas. Mas armar a população comporta sempre o risco de violência gratuita, ou de guerra civil. Os Estados do Sahel conseguiram por outro lado colocar várias forças conjuntas com o apoio dos seus aliados como a força militar francesa Barkhane, com cerca de 5.000 homens, o G5 Sahel, a Minusma com as Nações Unidas, a FMM (Força Mista Multinacional)… Estas nações do Sahel “aplicam assim 20% dos seus orçamentos na luta contra o terrorismo”, lembra o D. Ambroise Ouedraogo, Bispo de Maradi, na Nigéria onde, a 9 de Agosto, seis franceses e dois nigerianos foram assassinados por terroristas a 60 km de Niamey.

A Igreja, por sua vez, faz um trabalho titânico no terreno, apesar do perigo (seis padres foram assassinados em 2019 e 2020). Oferece um apoio escolar às crianças deslocadas porque, sem escola, são presa fácil para os jihadistas. A Igreja empenha-se também em formar os religiosos sobre o terrorismo e a oferecer apoio psicológico às pessoas traumatizadas pelos ataques. E, sobretudo, não cessa de sensibilizar os fiéis para o diálogo inter-religioso e inter-étnico a fim de cessar a escalada de violência que viria a estigmatizar uma comunidade ou etnia. Apoiando-se na boa coexistência que reinava antes destes ataques, evita assim o jogo de represálias e banhos de sangue. “Na nossa situação, o diálogo uma necessidade”, explica D. Traoré Augustin, Bispo de Ségou, no Mali. “Porque quando o diálogo é realizado com um empenho sincero de uma parte e de outra, pode produzir frutos de paz e de coesão social”.

Os Cristãos do Sahel rezam todos os dias para implorar a Paz e a Justiça na sua região. “A nossa kalachnikov é a oração” não cessa de repetir o Cardeal Ouédraogo, Arcebispo de Ouagadougou, no Burquina Faso. A Igreja do Sahel alegra-se também por ver que, no meio das tribulações, os Cristãos não só se mantêm fiéis como o seu número não pára de aumentar. Apesar do medo, as vocações florescem e as igrejas não se esvaziam. Peter, seminarista burquinense cujos pais tiveram de fugir para evitar a morte, reafirmava recentemente: “Eu não tenho medo. Pedi a Deus que me guiasse na minha vocação. Quero servir a Igreja no mundo e sobretudo na zona do Sahel, com os Peul, para lhes anunciar a Boa Nova e para que se convertam”.


Oração
Para que os Cristãos não deixem de acreditar e rezar pela paz, e continuem o seu trabalho esforçado e perseverante em prol do diálogo interreligioso, nós Te pedimos Senhor.


OS CRISTÃOS E O JIHADISMO
A imprensa relata-nos diariamente uma série de ataques, represálias, famílias deslocadas e mortos. Hoje, ninguém no mundo pode negar a existência do terrorismo e do jihadismo. Como cristãos, devemos tomar consciência que em nome da nossa fé cristã em Jesus Cristo podemos ser confrontados até ao “martírio”. Em cada dia, temos de nos deixar interpelar pelas palavras de Jesus: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16, 24). D. Ambroise Ouédraogo, Bispo de Maradi, Nigéria.

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