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Voz da Verdade

CHADE: Filho da guerra

10 outubro 2020
CHADE: Filho da guerra
CHADE: Padre denuncia risco crescente de islamização do país

Filho da guerra

Os cristãos são olhados cada vez mais como cidadãos de segunda no Chade. Isso vê-se nos negócios, no trabalho, na administração pública, nos casamentos e até forma desenfreada como se têm vindo a construir mesquitas por todo o lado. Até na estatística, o governo quer fazer crer que o país é muçulmano. Caminha-se para uma situação perigosa. O padre Léandre lança palavras de alerta...

São inúmeros os sinais de tentativa de islamização do Chade, apesar de a comunidade cristã ultrapassar os 35 por cento. Isso vê-se nas mesquitas que foram sendo construídas em todo o lado mas sobretudo na forma subalterna como os cristãos são tratados pelo poder e são vistos pela sociedade. O padre Léandre Mbaydeyo sabe bem do que fala quando refere estas ameaças. Os seus pais tiveram de fugir por causa da guerra. Um espectro que o acompanhou desde sempre. A viver actualmente em Paris, na Paróquia de Saint Ambrose, graças a uma bolsa de formação patrocinada pela Fundação AIS, o coração do padre Léandre Mbaydeyo nunca deixou, porém, a sua terra, o seu país. Segundo este sacerdote, oriundo da diocese de N’Djaména, há uma ameaça insidiosa sobre os cristãos do Chade. Uma ameaça que pode perverter o futuro da própria comunidade. “Os jovens muçulmanos foram encorajados a casar com mulheres cristãs para convertê-las e terem filhos muçulmanos…”


"Eu próprio nasci longe da cidade natal dos meus pais, que tiveram que fugir por causa da guerra.”

Mesquitas e poder

Léandre sublinha que as tentativas de islamização do Chade foram particularmente visíveis antes da morte de Muammar al-Gaddafi, em 2011, quando a Líbia patrocinava a construção de mesquitas. Foram tempos de uma expansão generalizada. “Construíram-se mesquitas em quase todos os lugares, até mesmo nas cidades cristãs do sul”, faz notar o padre Léandre numa entrevista a Thomas Oswald, da Fundação AIS. A queda do regime líbio significou um certo desagravamento desta realidade, mas não a sua extinção. As mesquitas ficaram e são hoje um símbolo de um poder que o próprio Estado quer ver materializado na sociedade. “Nos lugares onde coexistem cristãos e muçulmanos, continua a existir pressão para a conversão ao Islão”, alerta este padre que, talvez até pela distância, sente agora como o seu país está a deslizar para uma realidade que pode vir a revelar-se terrível.

Famílias enlutadas
O Padre Sam Ebute, responsável pela promoção de vocações na diocese de Kafanchan, lembra, como num lamento, as vezes que já teve de enterrar os seus paroquianos vítimas da barbárie. Foi ordenado sacerdote em 2016. No ano seguinte, começou esse longo rosário de famílias enlutadas por criminosos e terroristas. “Há quatro anos enterro regularmente os fiéis de minha paróquia. Em 2017, tive que enterrar uma mulher que fora assassinada à noite, juntamente com os seus quatro filhos, em Táchira. Em 2018, na Paróquia de Tsonje, foram mais quatro pessoas, e em 2019, em Zunruk, outros sete jovens foram mortos em plena luz do dia enquanto jogavam à bola.”

Ameaça regional
Basta olhar para a região. As fronteiras do Chade, traçadas a régua e esquadro como as de quase todas as nações africanas, mostram uma realidade regional onde o jihadismo militante é já uma ameaça às populações cristãs e aos muçulmanos moderados. Além da Líbia, que já financiou as mesquitas, o Chade tem como vizinhos o Egipto, o Sudão, a República Centro-Africana, o Níger, a Nigéria e os Camarões. Léandre Mbaydeyo sabe bem o que isso significa. Apesar da forma como as autoridades militares têm procurado manter o Chade fora do alcance da violência terrorista, a verdade é que esta vizinhança prenuncia a presença de grupos terroristas de inspiração jihadista. Ninguém pode garantir que essas fronteiras porosas não sejam galgadas pelos homens de negro que fizeram da comunidade cristã um dos alvos a abater. “Todos estes países estão a atravessar tempos turbulentos…”, lembra o sacerdote.

Os cristãos são olhados cada vez mais como cidadãos de segunda no Chade.

Rejeitados pelas famílias
Mas se essa ameaça ainda parece algo difusa, o que se passa já no dia-a-dia revela-se algo de bem real. E intimida. “No mundo do trabalho, em particular, é mais fácil promover contratos comerciais quando se é muçulmano”, diz Léandre. “Por outro lado, é muito difícil para um muçulmano converter-se ao cristianismo, e aqueles que dão esse passo muitas vezes acabam por ser rejeitados pelas suas famílias.” Esta percepção estende-se ao próprio Estado. A administração pública do Chade tende “a minimizar a importância” dos cristãos. “Na estatística oficial, o número de cristãos chadianos apresentados pelo governo baseia-se no censo de 1983. Eles querem que as pessoas acreditem que o Chade é um país muçulmano!”.

Futuro incerto
Quando fala de si próprio, o padre Léandre Mbaydeyo costuma dizer que nasceu na guerra. Essa é uma memória que está escondida no seu ADN e que o leva sempre aos tempos em que os pais foram forçados a fugir da violência, dos combates fratricidas. Um medo que renasce agora face à ameaça terrorista e à violência galopante em quase todo o continente africano. “Eu próprio nasci longe da cidade natal dos meus pais, que tiveram que fugir por causa da guerra.” O futuro é incerto, ameaçador. Os cristãos vivem tempos difíceis no Chade. A Igreja Católica é ainda jovem neste país e revela, apesar de tudo, ser muito dinâmica, com muitos baptismos, por exemplo. Mas quando olha para o futuro, o padre Léandre percebe que é preciso cerrar fileiras. Nada que o atemorize. Afinal, diz este jovem sacerdote, “sou um filho da guerra…”


texto por Paulo Aido,
Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
(Voz da Verdade 11.10.2020)

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